
Webjornal - Quinzenal - Edição 81 - Aracaju, 14 de agosto
a 11 de setembro de 2005
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro*
Nasci e cresci num mundo de gente prática, eficiente e erudita, que esperava de mim um bom desempenho intelectual, mas não se preocupava em demasia com algumas das minhas incapacidades. Na severa e seca escola do pós-guerra, a palavra “desenho” ligava-se aos borrões da tinta-da-china, às terríveis elipses que eu nunca conseguia reproduzir correctamente, ou às assustadoras jarras em cima da secretária que na minha folha de papel jamais chegavam a ter lados simétricos. Bordar era fazer gestos rígidos seguindo severamente regras impostas que impediam qualquer fantasia. As árvores não passavam de plantas que davam frutos e o sol era só e apenas um astro com luz própria. Assustadoramente, eu sentia-me diferente dos outros. O impacto de um pôr-do-sol no dia a dia, ou visões fugazes como o brilho verde de um campo provocavam-me êxtases que me levavam as lágrimas, impressões fortes e avassaladoras, "evidentemente" anormais, que eu devia manter secretas como se fossem uma inconfessável perversidade. Aconteceu que um dia, já mulher, na Faculdade de Letras, conheci o meu Professor de História de Arte, Reis Santos. As suas aulas eram tão pouco ortodoxas que comecei por me afligir. Aparentemente não ensinava nada. O seu discurso era fluente, mas tão anárquico que as nossas canetas, habituadas a transcrever as palavras arrumadas e as ideias solidamente definitivas dos outros professores, ficavam estáticas e mudas nas suas aulas. - O que eu digo e o que os livros dizem não são ideias para decorar - dizia-nos. - Vocês têm é de saber usá-las para construir as vossas próprias ideias. A arte não se decora. Vê-se e sente-se. Por muito desconfiada que eu estivesse, era impossível evitar deixar-me envolver pelos conceitos com que o meu espírito começava ser semeado. Ele falava-nos de tudo o que vira e de como o vira. Contava-nos histórias de artistas e tornava-os vivos. Provava-nos que as novas técnicas mudavam a arte, mas fazia-nos notar o espírito que as tornara possíveis. Diante de uma fachada antiga, de uma estátua ou de uma pintura, obrigava-nos a sentar nas pedras da calçada ou no chão de uma sala e a olhar com ele até sermos capazes de ver. Mantinha-nos suspensos das suas palavras enquanto nos impelia a reparar nas cores, na pincelada, na perspectiva e na construção geométrica, nos vislumbres da tradição e da modernidade, no pormenor e no conjunto. A pouco e pouco, com surpresa e alívio, comecei a perceber que as convulsões da minha sensibilidade perante a beleza não eram tão estranhas, tão sem uma "razoável razão" como até aí eu pensara. Dei mesmo comigo a descobrir dentro do meu espírito uma capacidade até ai adormecida de reconhecer a beleza subtil, a importância do pormenor, as várias cores que uma cor pode ter, o esplendor nascido dos contrastes, a importância das sombras no fruir da luz. E todo um universo se me abriu. As antigamente aborrecidas estátuas gregas tornaram-se exemplos vivos de beleza eternizada. No museu Soares dos Reis encontrei-me a tocar, às escondidas, o rosto doce da "Flor Agreste", tentando multiplicar por dois sentidos, a vista e o tacto, a impressão deliciosa que me produzia. Em Paris embriaguei-me com as manchas de cor transformadas pelos impressionistas em sol e mar. Caminhei com surpresa os contornos de uma Arte Nova em que antes nunca tinha reparado. Os grandes monumentos deixaram de ser apenas monstros sagrados para se fazerem jogos de luz e sombra, harmonias de volumes renovados a cada nova hora do dia. E ate as árvores e as pedras, um cesto ou um vaso de barro, os rostos e os gestos das pessoas - tudo à a minha volta renasceu só porque eu aprendera a ver. Então, quase a medo, tentei inventar as janelas que ninguém me ensinara a abrir na minha infância. Agora eu percebia num lápis imagens por nascer. Agulhas e linhas, aberta a minha fantasia e palpitante de imagens o meu espírito, tornaram-se pincéis. As palavras que eu soubera ler e que sempre rascunhara em pedaços de papel começaram a surgir-me quentes, cheias de sentidos, capazes de gritar, de cantar ou de chorar por mim. Pergunto-me até que ponto eu não seria mais pobre se não tivesse passado na minha vida um Professor Reis Santos. Sem ter aprendido a abrir as minhas janelas, com certeza seria ainda cega e surda para metade do que me rodeia.. O meu mundo, de pessoa e de professora, seria muito mais pequenino e muito menos capaz de abrir os olhos de outros.
Agora, quando desejo o bem duma criança, não espero apenas que ela tenha saúde, inteligência, carácter. Desejo também que ela encontre bem cedo quem a ajude a ver e quem lhe permita abrir as suas próprias janelas.
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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