
Webjornal - Mensal - Edição 83 - Aracaju, 09 de outubro
a 06 de novembro de 2005
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* “As mãos do marionetista, gerador de magias encantatórias e sedutoras, são assim: invisíveis, silenciosas, remotas, espessas e criativas”. ( Sandra Duarte Macedo) Era uma mulher inteligente, de uma inteligência fina, subtil. Manipuladora, sabia usar palavras sobre terceiros que, parecendo cheias de bondade e perdão, levavam a pessoa que as ouvia a pensar exactamente o contrário do que lhe era dito. Sabia dizer frases que ouvidas à letra significavam preocupação e cuidado com os outros, mas na realidade continham uma carga de subentendidos capazes de levar os ouvintes a criar uma má imagem da pessoa visada, satisfazendo a verdadeira intenção com que as tinha dito. Fazia muitas obras de caridade. Mas se alguém reparasse com atenção, essas obras eram apenas as que lhe davam prazer. Um dia alguém lhe suplicou que desse a um dos seus filhos o gosto de ir jantar a casa dele para conhecer a sua casa nova. O acto significava meia dúzia de quilómetros de caminho e duas ou três horas de sacrifício, porque ela detestava estar em casa dos filhos. “Sei que lhe custa, mas faça esse sacrifício, o seu filho ia ficar tão feliz!” Mas ela recusou-se. “Não me apetece, não vou.” Obra de caridade, para ela, tinha de ser visivelmente caritativa. Com vocação de mártir, coleccionou toda a vida razões de martírio. Muitas delas consistiram em cuidados, geralmente secos e irritados, com alguém que precisava de auxílio. Mas aumentava o grau desses cuidados até ao excesso total, recusando as ajudas, lógicas e possíveis, que lhe diminuiriam a mortificação. Depois, constante e repetidamente, relatava a todos os que se lhe chegavam cada pormenor do seu calvário, fazendo todos admirá-la, lamentá-la e começar a sentir raiva contra a pessoa que ela apoiava e lhe dava tais provações. Criava assim à sua volta uma fama de santidade através de uma manipulação invisível para quem não a conhecesse profundamente desde os seus 20 anos e para quem não tivesse a lucidez de a observar no dia a dia sem se deixar enredar nas suas teias. Não amava. Amava-se. E fez tudo para se tornar centro da presença, do amor e da admiração dos outros, movendo-lhes os seus fios secretos. Se alguém não se deixava manipular, destruía-o, lenta mas inexoravelmente. Só uma pessoa percebeu e viu como ela destruiu o marido a partir do momento em que uma desgraça da vida o fez abater numa depressão que ela se apressou a cavalgar numa infinidade de pequenas e subtis humilhações. Ele tinha um feitio difícil, é certo, mas ela usava frases estratégicas, expressões faciais, coisinhas invisíveis para quem não soubesse o imenso peso de maldade que acarretavam. Com cada um desses actos ínfimos fez esse feitio difícil do marido tornar-se numa quase loucura, essa, sim, visível a olho nu, que mais uma vez fez dela a mártir e a ele cobriu de opróbrio perante os próprios filhos, que olhavam o pai com raiva pelo sofrimento infligido à mãe. Um dia o marido morreu. Ela e os filhos apagaram-no. O seu nome não tornou a ser pronunciado naquela casa a não ser, muito raramente, para lembrar alguma das suas “malfeitorias”. E aquela mulher inteligente assumiu, com firmeza, o matriarcado que aos poucos fabricara. Na verdade era o marido, agora desaparecido, quem tinha mantido a família junta. Tendo percebido isso, para ganhar a presença, e a solidariedade da maior parte dos filhos e para se defender da lucidez e do olhar de um deles, o único que lhe radiografava os sentimentos debaixo dos gestos, há muito tinha começado a minar a consideração dos primeiros pelo tal irmão “vidente”. Era fácil. Nem sequer fazia queixas. Ela era demasiado inteligente para não se aperceber de que as queixas poderiam ter o efeito contrário ao que desejava. Apenas um ou outro comentário disfarçado em informação, a citação de uma frase fora do contexto que a provocara, umas palavras ditas na hora certa às pessoas certas, um olhar de vítima conformada que movesse o fio de uma das suas marionetas. Na maior parte das vezes, em vez de actos, usava a omissão. A omissão das palavras que unem e ligam, as que uma mãe geralmente procura ou inventa para reaproximar filhos desavindos. Uma omissão que era um buraco negro capaz de sorver qualquer boa vontade. Tão bem o fez, de tal modo manipulou as marionetas que viviam à sua volta, que conseguiu uma parte do que desejava. Conseguiu que elas a rodeassem de atenções redobradas e começassem a censurar, primeiro, a ter raiva depois, ao tal irmão cujos fios não eram manipuláveis. Já quase levava este último a uma loucura semelhante à do pai, a uma defesa desesperada e aparentemente irracional - porque parecia sem razões e se tornava defensivamente agressiva, soando a desequilíbrio – quando ele decidiu afastar-se de vez. E salvou-se. Mas só se salvou da tal loucura. Do desamor e do olhar enviesado dos irmãos que mais amava já não se pôde livrar. Até os seus próprios filhos iam sendo enredados pela avó manipuladora de marionetas e tentavam, com angústia, fazer nas suas mentes a absurda e impossível ligação que os levasse a compreender o desentendimento entre um pai, que amavam e admiravam, e uma avó, que era uma santa. E nenhum deles teve a mínima ideia de quanto os fios que lhe moviam os sentimentos eram puxados por aquelas duas mãos. Perguntados, jurariam com absoluta sinceridade que tais fios não existiam… E considerariam pura maldade que alguém supusesse que existiam. Era uma mulher bonita. E muito, muito inteligente. Segundo 99,9% das pessoas que a rodeavam, quando morresse ficaria à direita de Deus-Pai.
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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