Webjornal - Mensal - Edição 84 - Aracaju,  06 de novembro a 11 de dezembro  de 2005
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Portugal Online

As novas distâncias

Por Margarida Ribeiro*

Os noticiários dos jornais, da rádio e das televisões tornaram-se nos últimos anos uma sucessão de histórias de terror que nos são contadas e recontadas, sempre em novos moldes, com novos protagonistas, mas que repetem infindavelmente as imagens do ser humano primitivo, apenas mais requintado nas formas modernas como repete atitudes e gestos ancestrais.

São sucessivas descrições que nos incomodam, entristecem, horrorizam, indignam, revoltam, assustam ou apavoram – conforme são mais longínquas ou nos estão mais próximas e atingem o nosso dia-a-dia. Essa diferença nos sentimentos, difusos se despertados numa situação de afastamento, ou fortes se provocados pela proximidade das desgraças relatadas, é humana e já foi bem retratada num texto de Eça de Queirós.  Defesa natural… Se nos deixássemos afectar pela morte de desconhecidos como o somos pela dor de alguém que nos é querido, nenhum de nós resistiria ao sofrimento…

Mas, nos tempos que correm, a distância entre cada um de nós e as desgraças que nos são narradas deixou de ter apenas a ver com os quilómetros de terreno que delas nos separam, ou com as ligações de parentesco ou de amizade em relação aos que sofrem. Passou a ter a ver sobretudo com as razões dos meios de comunicação.

São as audiências previstas que decidem quais as catástrofes que nos serão ou não relatadas e com a forma como delas nos será mostrado e descrito cada momento de horror. A proximidade e a distância são fabricadas pela quantidade menor ou maior de imagens e de títulos, quantidade menos ou mais obsessiva, pela forma por vezes camuflada por outros acontecimentos, de outras vezes destacada à falta de ocorrências e devido à necessidade de encher os espaços vagos nas páginas de papel ou nas edições audiovisuais.

Pior ainda, ainda mais ameaçador, é verificarmos que o modo como nos são expostas não raro torna as informações, mais do que em notícias, em meios de manipular a opinião pública a favor ou contra grupos políticos ou interesses económicos.

Os furacões e os tornados, as manifestações violentas ou os crimes, os actos terroristas ou os sinais de fome, as lágrimas e os gritos das vítimas, são-nos referidos com maior ou menor “importância” consoante uma imensa lista de razões exteriores aos factos em si mesmos, levando-nos olhá-los mais de perto ou com maior afastamento, sem considerarmos o seu verdadeiro conteúdo.

Quer estejamos ou não atentos a estas misteriosas ou claras disparidades, elas acabam por ser assumidas pelo inconsciente da população. Perde-se assim a capacidade de medir ou calcular o valor dos factos narrados que, por se vulgarizarem e não serem hierarquizados em termos da sua real gravidade, acabam por anestesiar consciências, criar a aceitação de certos males como inevitáveis e, sobretudo, impedir a assunção de movimentos sociais e políticos que previnam os perigos dos quais nos podemos acautelar.

As noites que têm sido vividas nos arredores de Paris aparecem neste momento quase como um fait-divers, como histórias laterais para os nossos dias. No entanto, com todos os motivos subterrâneos ou claros que as provocam, com a imensidão de problemas e de ameaças dos quais são apenas um fumaréu de vulcão, elas são o início de uma guerra insidiosa e brutal que vai alterar completamente este mundo ocidental em que vivemos. E quer o mude para melhor, quer o mude para pior, seremos nós, a geração que a vive quem vai sofrer na carne as dores deste parto de mudanças.

Quem olha com atenção para os carros a arder nas noites de Paris?

Quem debate agora, ainda talvez a tempo, as formas de conduzir uma atitude que impeça este caminho de passar pela tragédia?

Os franceses, claro, porque são seus os carros que ardem.

Quanto a nós, aqui de longe, a uma distância que os media fabricam ao centrar-se em disputas eleitorais ou em questões locais com um interesse mais consensualmente evidente, assistimos ao fogo nas noites de França assim ao de leve, tranquilos, habituados aos rebuliços deste mundo e sem querermos ou sabermos quanto e como nos dizem respeito.

Deve ter acontecido o mesmo por Lisboa, nos inícios do século XVIII, a quem ouvia um viajante recém-chegado falar de algumas desordens populares em Paris, nas vésperas da Revolução Francesa.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
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