
Webjornal - Mensal - Edição 85 - Aracaju, 11 de dezembro de 2005
a 15 de janeiro de 2006
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Aquela mulher esperava com ansiedade o dia em que, depois de um casamento difícil, o seu divórcio seria decretado pelo juiz. Ocupada por mil afazeres, temendo confundir o rumo dos dias, escreveu a nota na agenda. Mas vendo-a perdida numa linha entre uma imensa lista de coisinhas a tratar, fez mais. Escreveu a nota e data com o batom no espelho da casa de banho. Depois, na manhã do evento, esqueceu-se. E não teria comparecido na sala do juiz se um telefonema a não tivesse alertado. Talvez, lá bem dentro dela, o divórcio, embora desejado, doesse demasiado. Uma outra pessoa sabe que um certo Natal foi passado em sua casa. Sabe que, para que toda a grande família alargada coubesse na pequena sala, teve de mudar móveis de lugar, arrumar empilhados alguns deles, num imenso estardalhaço de confusão desabitual. Mas só o sabe porque a família lhe jura que foi verdade. Não se lembra, de todo, daquele Natal que teve de improvisar porque o seu pai tinha acabado de ser encarcerado como preso político e todos precisavam de alterar o cenário do costume em que a falta dele seria ainda mais uma ferida rasgada na alma de todos. Os nossos esquecimentos são inconscientemente selectivos. Hoje estava-me a esquecer de escrever este texto. Atrasei-me e por pouco o não enviava a tempo. Talvez porque depois de uns meses largos de tristezas fundas, ainda me custe dizer. Porque sempre, quando dizemos, nos dizemos.
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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