Webjornal - Mensal - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Portugal Online

Um eco de Mário Quintana

Por Margarida Ribeiro*

Lembro-me de, muito jovem, na minha adolescência, ver à minha volta pessoas mais velhas amargas, ásperas, encrespadas em queixas e ruminando palavras azedas. Lembro-me de pensar: “Vou ter de ser capaz de nunca ficar assim.”

Mas só agora sei quanto é difícil.

Dia após dia de ano após ano, passam-nos na alma decepções e desamores, angústias, destinos que repelimos, perdas e pesos inesperados, medos e muros de impossíveis que se transformam em prisões.

Fechamos os olhos. Fazemos de conta…

Recusamo-nos a viver os sofrimentos. Escondemos-lhes até as sombras. Já que não podemos livrar-nos deles, submergimo-los no mais fundo do que somos.

Enterramos lembranças. Cavamos buracos dentro de nós mesmos e tapamos com esquecimento os pedaços que precisamos de afastar. Podem ser cacos de esperanças despedaçadas ou recordações de mágoas remoídas. Mas todos esses estilhaços têm arestas como lâminas, todos são lascas pontiagudas, dentes de aguilhão.

Vivemos fingindo que não existem.

Mas estão lá. E, fora do seu lugar, doem e parecem sintomas de mal-estares com causas projectadas em acontecimentos laterais, que – por serem feitas de sentimentos afastados da lucidez -  são incomodamente enigmáticos para médicos e amigos, para quem deles ouve as repetidas e constantes queixas ou lhes sofre as consequências.

O sofrimento não digerido cresce em nós como um tumor. A força da esperança e da fé no futuro vai começando a desgastar-se, devagarinho, pouco a pouco, num processo subtil e ignorado, dando aos nossos olhares e aos nossos gestos a amargura da forma amarga que vamos tomando. 

Vem-me ao ouvido a voz do poeta brasileiro Mário Quintana:

“Da vez primeira em que me assassinaram
perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram
foram levando qualquer coisa minha....”

De cada vez, na verdade, perdemos um certo sorriso. E criar o outro, criar aquele sorriso de quem sentiu, viveu e - mesmo assim, e também por isso - aceita e se aceita, é a tarefa mais difícil de uma vida. Agora eu sei.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora:
http://cspalavras.blogs.sapo.pt/

   

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