
Webjornal - Mensal - Edição 87 - Aracaju, 19 de fevereiro
a 26 de março de 2006
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Nós temos do tempo uma visão linear que nos permite ver o Passado como uma linha que se desenrola e em que o Presente é um ponto em movimento, segundo a segundo substituído por outro ponto que continua a mesma linha numa direcção que será o Futuro. Dizem os arqueólogos que não sucedia o mesmo com os antigos, os homens da pré-história. Estes tinham uma visão circular do tempo. Quando somos muito crianças, o tempo faz-se para nós um círculo entre a festa do Natal, o nosso aniversário e o mês das férias grandes; as histórias do “antigamente”, as que os adultos contam, têm para uma criança a mesma realidade das histórias de fadas. Não estão num passado que elas entendam como tal, mas num lugar que voga entre a fantasia e o sonho, numa verdade-mentira em que se acredita sem se acreditar. Também os nossos mais antigos antepassados viviam de estação para estação, num ontem e num amanhã aos quais bastavam o renovar da seiva das árvores e o cair da folha dos outonos, o frio e o calor, os equinócios e os solstícios. As recordações transmitiam-se em relatos orais que se desvaneciam na fantasia das lendas. A passagem de um para outro olhar fez-se quando começou a saber-se registar os acontecimentos que se iam sucedendo. Mas esta passagem não foi, nem contínua, nem simultânea, nas várias civilizações ou entre partes da população de cada uma delas. Os grupos eminentemente rurais e de pessoas não alfabetizadas, com menos informação e com uma maior ligação com a natureza, olhavam ainda o tempo como um círculo e tinham propensão a ser mais passivas e conservadoras. As normas tendiam a aparecer como imutáveis e as consciências absorviam a submissão e o conformismo dessa aparente imutabilidade dos valores. Era fácil que nelas se instalasse o fatalismo e a passividade perante regras de vida que eram aceites como um dogma e consideradas intransponíveis. Entretanto os grupos letrados, que se distanciavam mais da natureza e intensificavam as suas relações sociais, tornavam-se mais criativos por passarem a interiorizar a esperança na mutação. A linearidade do tempo traz consigo a expectativa no progresso e reduz o peso das normas, que passam a ser entendidas como humanas e, por isso, mesmo se úteis no momento, são percebidas como provisórias e ultrapassáveis. Ambas as atitudes acabaram por ficar inscritas nos nossos genes e uma delas tende a tornar-se dominante. Somos mais passivos ou mais activos, mais resignados ao “destino” ou mais crentes nas possibilidades trazidas pelo futuro. Desistimos ou lutamos, encaramos as mudanças como impossibilidades ou caminhamos para novos ambientes que nos abram novas portas. Nasce-se passivo e assim se fica? Bom, isso pensam os que apenas se movem num círculo de tempo. Os outros entendem que, quando muito, se “está” assim. E se o momento não é ainda o de partir, ao menos é possível fazer as malas e esperar uma aberta no nevoeiro.
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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