Webjornal - Mensal - Edição 88 - Aracaju, 26 de março a 30 de abril de 2006
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Portugal Online

No reverso da felicidade

Por Margarida Ribeiro*

A Maria tinha seis anos e saíra com a mãe para comprar uns sapatos. Acontecimento tão raro quanto possível. Sozinha, com três filhos e um ordenado curto, só se compravam lá para os da casa os sapatos indispensáveis - e quando era imprescindível.

A certa altura, no meio da rua da cidade, a garota levantou a cabeça e olhou a Mãe com um sorriso aberto e os olhos a brilhar de alegria:

- Mãe, ainda bem que temos pouco dinheiro, não é? Se não fosse isso, eu não ia agora TÃO CONTENTE por ir comprar uns sapatos!!!

Aos seis anos aquela pequenina estava a ensinar a Mãe a reciclar a alegria.

Às vezes um acontecimento, uma mudança súbita, exterior a nós mas que nos atinge, meia dúzia de circunstâncias, obrigam-nos contra a nossa vontade a largar tudo pelo que lutámos, a deixar os espaços que escolhemos para viver, a transformar completamente o nosso modo de vida.

Sentimo-nos de repente dentro do reverso do que tínhamos decidido que seria a nossa “felicidade”. Tudo o que era nos era importante se estilhaça e não guardamos nas mãos mais do que condições com as quais nunca tínhamos pensado ter de lidar. Todas aparentemente inúteis. Todas aparentemente sem valor. Todas até aparentemente agressivas.

Há quem saiba pegar nos cacos da sua vida, nos estilhaços dos seus sonhos, e colá-los cuidadosamente de modo a transformá-los em novas oportunidades. Encontra vantagens no lado contrário dos benefícios que perdeu. Descobre possibilidades que antes não estavam abertas e em que nunca tinha pensado. Percebe o bom que é ter certas coisas que antes pareciam sem valor. E constrói uma nova felicidade sobre uma nova base.

Há quem seja capaz de reciclar a alegria.

É uma aprendizagem que não se faz se não vier da alma. Só quem tem dentro de si as ferramentas consegue reconstruir numa outra forma uma felicidade que lhe foi virada do avesso.

Mas mesmo quem tem essas ferramentas – que não se vendem em lado nenhum - descobre um dia que, depois de muitas vezes usadas, estão rombas e gastas.

Ainda poderão ser usadas mais uma vez? Será que a habilidade que se desenvolveu, em tantas e tantas alturas em que se soube reconstruir a vida, compensará o mau estado dos instrumentos que assim se foram danificando?

Não sei. Ainda.

Quando souber, prometo que conto.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://portaencostada.blogspot.com/

   

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