
Webjornal - Mensal - Edição 89 - Aracaju, 30 de abril
a 04 de junho de 2006
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Aqui em Portugal o termo “licenciatura”, que nasceu numa época medieval, significava um curso universitário que dava “licença para aprender”. O “licenciado” tinha recebido ensinamentos que serviriam de base e estruturariam os seus posteriores estudos. Este significado foi-se perdendo e no séc. XX chegou mesmo a adquirir o sentido contrário. Um “licenciado” achava que o curso lhe dera tudo e, não raro, após a recepção do canudo de metal que continha o solene pergaminho que certificava a aprovação nos exames, sentia-se no direito de deixar o cérebro vegetar o resto da vida. Ostentava o anel de curso – tradição muito querida das velhas universidades – e deixava que nele se resumisse uma conquista levada a cabo. Uma conquista terminada, sem risco de reversão. Os empregos seguiam um rumo semelhante. Uma vez obtidos eram em princípio uma tal certeza que o “estar desempregado” funcionava como um estigma social. E as tarefas que diziam respeito a cada profissão pouco ou nada se alteravam numa fase em que o progresso das tecnologias se arrastava no quase nada de um desenho mais moderno ou numa leve modificação que nada mudava. Hoje um dos problemas mais complicados que temos é o de acompanhar a velocidade das mudanças e o de acertar o passo com as novidades e as exigências que elas nos trazem. Aprender em cada ano a usar novas tecnologias, estar preparado para trocas súbitas de tarefas em novo emprego ou num novo posto, aceitar conviver com recentes certezas que enterram as certezas do dia anterior e nos habituámos a considerar apenas provisoriamente certas – tudo isto nos envolve e nos enrola numa sucessão de pequenas vitórias e de grandes frustrações, em incertezas perenes. Mesmo após termos aprendido mais um pouco e de termos avançado uns passos na aquisição de novos saberes, não temos qualquer dúvida de que em poucas semanas os olharemos – ou, ao usá-los, seremos nós próprios olhados - como velharias ultrapassadas. Ficamos à mercê de um sorvedouro de autoconfiança, de um turbilhão de ignorância latente e ameaçadora, que nos engole e nos submerge no pânico de perder o comboio do tempo e de, por causa disso, adquirir o estatuto de descartável. Dou comigo a invejar a minha bisavó, matriarca de uma grande família, que até à sua morte foi senhora de receitas e truques de cozinha que mais ninguém conhecia, que aos 80 anos ainda era consultada acerca de todos os assuntos que envolvessem experiência de vida, e cujas histórias antigas eram ouvidas com reverência e interesse, cada uma delas repositório que se mostrava de um saber melhor do que o dos livros. Entretanto, enquanto a invejo, estudo afincadamente o método de usar a fúria moderna do novo ensino, o sistema de webquest, e preocupo-me em aprender sobre e-learning enquanto aperfeiçoo em novos programas informáticos o tratamento de imagem. Já nem avó se pode ser sossegada…
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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