
Webjornal - Mensal - Edição 91 - Aracaju, 09 de julho
a 13 de agosto de 2006
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Vivemos uma época das que ciclicamente assolam a humanidade. A avassaladora diferença é que não a lemos relatada num livro de História. Estamos dentro dela, na crista da onda, a ser enrolados em espumas e torrentes, quase incapazes de a percebermos. Um dia os historiadores do futuro falarão deste momento tal qual como os de hoje olham agora as conquistas romanas que desmancharam séculos de tradições autóctones, as invasões bárbaras que trouxeram a supremacia dos guerreiros sobre os amantes de vidas refinadas, o tenebroso e portentoso Renascimento que descobriu, entre venenos e fogueiras da inquisição, as verdades por detrás da superstição, a vertigem da industrialização que trouxe consigo uma violenta erupção social. E os leitores, nossos netos ou bisnetos, talvez vivendo uma das épocas de calmo progresso que se intercalam entre os choques tectónicos que mudam os equilíbrios entre povos e grupos, lerão as narrativas resumidamente lineares e compreenderão coisas que hoje nós nem sequer vemos. A História limpa os momentos do passado. Apaga-lhes os gemidos e as lágrimas, extirpa-lhes os sentimentos, retira-lhes os acasos, os sustos, os escândalos e as esperanças que ali foram vividos. Desaparecem os “eu” e os “tu”, somem-se as consequências pessoais. A não ser enquanto se vê um filme ou se lê um romance histórico, quem verdadeiramente se incomoda com as angústias vividas por um certo homem celta ao ser despojado dos seus lugares sagrados? Quem pensa hoje nas consequências pessoais das gerações que viveram na carne as idas e vindas da Revolução Francesa? O que fica são factos cujas ligações de efeito-causa se tornam nítidas e óbvias. No seu resultado, tão afastado no passado, vêem-se movimentos que olhamos, assim de longe, como degraus subidos. Estamos a apanhar a crista de uma grande onda, potenciada pela inevitável globalização, marcada pela mesma cobiçosa avidez ou justa revolta dos homens de todos os tempos. As formas são diferentes. A tecnologia, a fé e o saber de cada época marcam o formato dos actos e das palavras. O ímpeto das mudanças é cada vez mais forte, mas não muda a estrutura das vagas. As placas tectónicas movem-se. O mundo vai ter de novo de encontrar, após algum tempo e por algum outro tempo, um novo equilíbrio. Antes disso teremos o tsunami. As várias civilizações, desde a ocidental, até às orientais, todas elas disputam entre si força e poderes, todas elas acham formas modernas de invasão ou de domínio umas das outras. Tal qual como quando das invasões dos Bárbaros no Império Romano, a amálgama e os novos reagrupamentos fazem-se às vezes com violência. Hoje em dia com medos e automóveis em fogo, com terrorismo e aterradores pactos económicos. Fazem-se também mansamente, família a família que penetra, sem ser notada, num novo território. Entretanto, nós-pessoas, aqui dentro da onda, somos muito pouco, quase nada. Grãos de areia. E mesmo os que se acham senhores, os que julgam arrastar, estão a ser arrastados. Como muitos outros já fizeram antes, gritamos os pavores dum fim dos tempos. Porém, num certo ano que já não veremos, alguém há-de ler a história desta época e regozijar-se pelo avanço que ela trouxe ao seu próprio mundo. É assim que a História desliza.
*Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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