
Webjornal - Mensal - Edição 92 - Aracaju, 13 de agosto
a 17 de setembro de 2006
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Portugal
Online Por
Margarida Ribeiro*
Esta semana Francis Obikwelu passeou no estádio sueco onde se realiza o Campeonato Europeu de Atletismo envolto na bandeira de Portugal. Aqui festejámos como nossa a sua vitória dobrada nos 100 e nos 200 m, feito que ninguém na Europa conseguia desde o seu ano de nascimento, 1978. E havia muita ternura nessa festa, já que, para além de grande atleta, Obikwelu é um ser humano que aprendemos a admirar e a estimar. Há mais de uma dúzia de anos, ainda criança, veio da Nigéria, seu país natal, para participar numa competição de juniores em Lisboa. Na hora do regresso, mesmo sem apoios de conhecidos ou amigos, decidiu ficar. Tentou ser integrado nas equipas de alguns grandes clubes portugueses, que não o aceitaram. Sem conhecer ninguém, num país desconhecido, foi obrigado a trabalhar na construção de casas para sobreviver Um dia a mãe de um seu amigo, professora de educação física, apercebeu-se das capacidades fora do vulgar que o rapazinho possuía. Com a ajuda desse reconhecimento Obikwelu passou a fazer parte de um dos clubes desportivos lisboetas. Porém não tinha mais onde viver. Dormia, comia e passava todo o seu tempo nas instalações do estádio. Com a sua maneira de ser tranquila e simpática era estimado por todos, colegas e funcionários. Foi por isso que um dia uma das dirigentes do clube, passando na bancada, estranhou encontrá-lo a um canto, sozinho, a chorar. - Que tens, Francis? Alguém te fez mal? – perguntou ela, preocupada por ver aquele enorme rapagão de 17 anos tão desesperado. - Não? Então que se passa? Que se sentia sozinho, respondeu ele. - Sozinho, com tantos amigos? Obikwelu explicou-se. Estava sozinho por não ter pai e mãe, que deixara na Nigéria. Foi então que virou para ela o rosto dolorido e perguntou: - Queres ser minha mãe? Conta a senhora que, encadeada pela sinceridade e carência de afecto que viu naqueles olhos, só pôde responder que sim. Francis ergueu-se, feliz. Caminhou até o lugar onde estava o marido da sua nova mãe, e abraçou-o, exclamando: - Pai!!! Sem nada ter ouvido da conversa anterior, o recém-pai começou por ficar estupefacto. Ainda hoje, ao recordá-lo, ri desse momento. Mas Obikwelu foi realmente “adoptado” por uma casa cheia de gente, passou a ter ”pais e irmãos” e deixou de se sentir triste. Em breve ele mesmo adoptaria o país, naturalizando-se português. Manteve até agora o ar cândido, modesto e tranquilo de bom menino. Fala de si mesmo com determinação, mas sem um vislumbre de pose de herói. E nada do que lhe foi dado pelos amigos ou pelo país caiu em saco roto. Mima os pais verdadeiros que agora vê com alguma regularidade e abraça os pais “adoptivos” com um carinho de filho. Nos estádios, depois de cada vitória, mostra a bandeira portuguesa com o orgulho de um português. Chegou onde queria à custa de uma vontade férrea e de uma coragem fora do vulgar. Enfrentou ainda criança a solidão de um exílio, soube merecer cada ajuda que teve e luta diariamente por um sonho que está a ser capaz de tornar realidade. De cada vez que atinge uma das suas metas partilha, alegremente e sem qualquer arrogância, as honras e as vitórias com o país que o acolheu. Com uma pequena parte da atitude deste homem perante a vida, nenhum de nós, que o festejamos e o admiramos como excepcional, deixaria de atingir o lugar dos seus próprios dias com o qual geralmente nos limitamos a sonhar, sentados a carpir lonjuras e sem verdadeiramente “querermos” mover-nos na sua direcção.
Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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