Webjornal - Mensal - Edição 93 - Aracaju, 17 de setembro a 15 de outubro de 2006
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Portugal Online

A minha casa

Por Margarida Ribeiro*

Se compramos uma casa nova que antes não teve outro dono, encontramo-la ainda sem alma. Levamos tempo a imprimir-lhe as nossas marcas de vida.

Só aos poucos se colam aos recantos, além dos objectos que nos vão seguindo ou que ano após ano recolhemos, também os pensamentos tidos, certos gestos feitos, as gargalhadas partilhadas, uma ou outra lágrima ali escondida, os vultos de quem ali olhámos e acarinhámos. Em dado momento sentimos que aquelas paredes se recurvam numa concha de recordações, breves e soltas como instantâneos fotográficos, porém cada uma delas capaz de se prolongar em ecos e de nos reavivar sentimentos.

A casa torna-se viva e acolhe-nos como um ninho do que somos e fomos. Torna-se a nossa segunda pele.

Se vamos habitar uma casa que já teve outro dono, que antes se fez lugar de um outro alguém, quase podemos sentir na pele o arrepio da aversão revoltada com que, a isso obrigada, nos recebe. 

É preciso domá-la. Cativá-la. Cantarolar dentro dela as canções de estar que nos são gratas. Acender a lareira e deixá-la aquecer-nos. Chamar os amigos e começar a cobrir as paredes das sensações que as hão-de colorir e lhes hão-de dar a nossa forma.

Num certo nascer de dia percebemos que as janelas se abrem mais a nosso jeito e a luz ilumina um espaço com esconsos e desvãos do feitio de colos. Só então vamos poder chamar-lhe, de um modo inteiro, “a minha casa”.

Por isso, largar uma casa que criou para nós a sua alma é como perder um ente querido. Perder um regaço, um refúgio, um embalo.

O único consolo é começar de novo, debaixo de um outro tecto, e fazer à casa antiga o que ela antes nos fez a nós. Aninhá-la nas asas da nossa memória e embalá-la num sorriso de “uma vez foi assim…”

Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://portaencostada.blogspot.com/

   

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