Webjornal - Mensal - Edição 94 - Aracaju, 15 de outubro a 12 de novembro de 2006
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Portugal Online

O espaço conquistado

Por Margarida Ribeiro*

Há uns anos, acabada de chegar aqui ao interior do país numa migração que me trouxera da beira-mar, tive oportunidade de fazer uma experiência inter-cultural que me marcou para sempre. Foi nessa época que dentro de mim se consolidou uma estima pelo Brasil que já nascera na minha infância e na minha juventude.

Através de uma Internet ainda incipiente, a minha escola trabalhou durante um ano com a Escola Esmeralda Becker, em Carapicuiba, na Grande São Paulo, onde o imensamente dedicado e disponível professor Valdomiro Rolim da Costa coordenava as tarefas de colegas e alunos que se entrecruzavam com as que, aqui em Portugal, eu própria me encarregava de organizar.

Crianças e professores, todos nós trocámos informações sobre as nossas terras, comparámos conceitos, enviámos uns aos outros pelo correio-caracol imagens que então não era fácil enviar pela Internet, fizemos trabalhos em conjunto, conversámos a respeito dos nossos mútuos olhares sobre o mundo e sobre o que nos rodeava.

Fizemo-nos todos amigos, especialmente eu e Valdomiro (que passou a constar do grupo de pessoas que admiro), numa amizade que nem o silêncio quebra.

Havia porém um problema - os nossos anos lectivos não coincidem. Quando os alunos brasileiros estão em plenas aulas, em Julho e Agosto, são aqui as nossas férias de Verão.

Durante as férias portuguesas, eu não queria perder o contacto com as crianças brasileiras. Um dia, sem saber o que mais inventar para lhes escrever, enviei-lhes esta carta.

Carta de um cão desesperado

Começo por me apresentar. O meu nome é Mac (pronunciem como os ingleses, por favor: MEC). Sou um meio pastor-alemão, vivo, simpático, alegre.  Quer dizer: ERA alegre. Neste momento nem sei mais onde anda a minha boa-disposição.

Há uns meses que sou possuidor de uma senhora que dá pelo nome de Margarida. A princípio correu tudo muito bem. Eu vinha de uma casa onde toda a gente vivia para me servir, e levei algum tempo a treinar esta senhora para fazer o mesmo. Mas ela é razoavelmente inteligente e depressa aprendeu a obedecer às minhas vontades.

Primeiro ensinei-a a perceber quando devia vir até ao quintal jogar à bola comigo. Foi fácil. Eu levava a bola na boca até o lugar onde ela estivesse, e ela vinha logo comigo.

Depois mostrei-lhe como se devia sentar no sofá para eu poder deitar a minha cabeça no colo dela e fazer uma soneca confortável. Ter uma senhora como travesseiro é muito agradável...

Foi um pouco mais difícil mostrar-lhe quando devia levar-me a passear. Mas depois descobri um truque. Começava a dar umas corridas dentro de casa, a subir por um lado do sofá e a descer por outro, a fazer voar papéis e a passar tangentes nos móveis, fazia uns passos de dança cossaca e, em último caso, atirava-me em voo para o colo dela. Dava-me um bocado de trabalho, mas tão depressa este estratagema funcionou que em breve ela se habituou a não esperar e a sair comigo para um passeio pelos montes e pinhais antes de a minha exibição estar completa.

Corria tudo lindamente até que... ela vos conheceu.

E a desgraça abateu-se sobre os meus dias.

Agora esta senhora que treinei com tanto trabalho, que me pertence, que tinha por obrigação dar-me atenção - passa a vida agarrada a esta máquina (que com certa dificuldade agora uso) a escrever sem parar. E todo o meu trabalho anterior se foi por água abaixo.

Dou uns saltos – nem me vê. Dou uns latidos – manda-me calar sem sequer me olhar. Trago a bola – é como se nada trouxesse.  E escreve, escreve, escreve, escreve, escreve, escreve.....

Ontem estava tão desesperado que deslizei pela fresta entre a cadeira dela e a secretária, subi-lhe para o colo e lambi-lhe o nariz. Pois julgam que veio sentar-se no sofá, como eu queria, para me fazer companhia? Não veio. Empurrou-me (meigamente, é certo, mas empurrou-me), disse um «Mac, quieto!» meio distraído, e continuou  a bater nestes quadradinhos irritantes.

Agora o mais que consigo é que me faça umas carícias no pescoço entre dois parágrafos. Mas julgam que o faz a pensar em mim? Não! Faz isso enquanto pensa no que vai escrever a seguir...

Ora eu não mereço isto. Criar uma dona, dá trabalho, não gosto de ver assim os meus esforços ir por água abaixo. E a minha vida está uma monotonia só. Sim, eu sei que quase todos os dias ela me leva no carro e passeia comigo nos campos.  Também é o que me vale. Sem essas corridas para esticar as minhas pernas, não sei o que havia de ser de mim... Mas é pouco tempo, está sempre a dizer que tem que fazer.

Venho assim apresentar esta minha queixa. E pedir-vos que tomem uma providência. Eu não sei bem qual. Afinal os estudantes são vocês, vocês é que devem saber mais do que eu... Mas tomem UMA providência!!!!

E  assim acabo esta carta, e me despeço.

Com consideração, mas muito magoado, sou o

Mac

As respostas foram muitas. Não havia aluno do Valdomiro que não quisesse consolar o Mac. transcrevo uma delas.

Mac, quando você achar que ela não quiser te escutar, fique triste ou fique bravo e morda no dedão do pé dela que com certeza ela vai brincar com você.

Quando ela não quiser te escutar mesmo se faça de doente, ela vai perceber que você ficou doente por causa dela.

Mac, queria saber se ela te ensina alguma coisa. O que você gosta de fazer? De brincar eu sei que você gosta, mas você gosta de outra coisa? Qual?

Francisco

Nestes nossos tempos, a distância não existe mesmo, pois não?

Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://portaencostada.blogspot.com/

   

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