
Webjornal - Mensal - Edição 95 - Aracaju, 12 de novembro
a 10 de dezembro de 2006
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Vindos de duas ou três gerações atrás, ficaram-me nas mãos bilhetes de amor de trisavós, cartas e revistas de há um século e, mais imponente do que qualquer dessas coisas, uma rima imensa de cadernos escritos à mão por um meu tio-avô cuja existência fora apagada. Naqueles tempos, numa sociedade da província que se gabava dos ascendentes e com educação e costumes severamente vitorianos, um suicídio era uma vergonha, uma desonra. O meu tio-avô pusera termo à vida aos 46 anos. Ninguém mais pronunciara o seu nome, embora, tanto quanto mais tarde pude perceber, ele tivesse ficado para sempre timbrado na recordação dos que o tinham conhecido.
A primeira vez que dele tive notícia foi quando os cadernos do tio Eugénio me chegaram às mãos trazidos por um avô que os lera e que acreditava ser eu a única pessoa da família capaz de conseguir aproveitar os textos. Eu era nova, criava filhos, tentava então consolidar a minha carreira profissional e não fiz mais do que guardar as resmas de papel cosidas com grossos alinhavos. Só bem mais tarde comecei a percorrer os apontamentos e os poemas que me ofereceram o único familiar em quem me reconhecia, no meu velho jeito de deixar que tudo o que via e pensava passasse para o papel transformado em meditações escritas. Consegui fotografias, poucas, daquele “gémeo” perdido. Integrei-o na minha vida usando as suas palavras para o conhecer como a um irmão. E passei a viver a inquietação de sentir que, se tendo escolhido o momento da morte não destruíra os seus cadernos, provavelmente me cabia a mim, que os herdara, arranjar um meio de os fazer chegar a leitores que por eles se interessassem. Mas não era fácil. Contemporâneo de Fernando Pessoa (1888/1934) mas incrustado no conservadorismo de uma Coimbra em que o “magister dixit” era ainda intocável, com acesso a livros e a revistas mas sem ter um grupo cujas conversas lhe pudessem despertar novos rumos de pensamento, apesar disso muito em Eugénio Massa se rebelava contra o romantismo e aspirava ao realismo. Era no entanto uma rebelião sufocada pelo isolamento intelectual em que crescera e vivia. Os seus textos tornam-se por isso muitas vezes uma espécie de luta entre o que aprendeu a pensar, o que sente, e o que deseja sentir, exprimindo ideias românticas, aspirações realistas, dúvidas que devia sofrer como heresias escondidas. Se alguma fase literária os seus escritos testemunham, só pode ser a de uma dolorosa transição. Trazem-nos, contudo, traços muito interessantes de uma paisagem já desaparecida, de um olhar sobre um mundo que já só podemos imaginar pelos livros de História e de um passado dito ainda com palavras do passado. Foi então que decidi, nestes tempos de tecnologias milagrosas, fazer pelo meu tio o que ele faria se aqui vivesse agora, no século que é o nosso. Criei-lhe um blog, aberto no seu nome, e uso as minhas mãos como se fossem as dele. Estou a fazê-lo atravessar o tempo e abrir agora a sua voz, pousada durante mais de três quartos de século em papéis amarelecidos. E começo a entender o que sente uma caneta, sendo assim o instrumento que – sem ser autor de nenhuma das ideias – as faz habitar um espaço de partilha. Nota: o blog referido está em http://numaoutravida.blogspot.com/
Professora portuguesa, reside em
Castelo Branco, Portugal |
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