
Webjornal - Mensal - Edição 96 -
Aracaju, 10 de dezembro de
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Portugal Online Por Margarida Ribeiro* Eu sou do tempo em que havia
Natal. Todos
os descendentes da minha bisavó (senhora ainda cheia de energia e muito
ciente do seu papel de matriarca) se juntavam nas vésperas do dia 25 lá na
aldeia perdida num vale gelado da Beira. A casa
era um casarão. Em tempos antigos dois edifícios tinham sido unidos com um arco
que cobria a estrada de entrada na aldeia. Lá sobre o arco havia um corredor
e salas unidas à moda do séc. XVIII, todas ligadas entre si por portas de 2
abas. Depois era um labirinto de quartos, corredores, escadinhas, lojas
térreas fechadas que guardavam tesouros de coisas inúteis de sucessivas
gerações. Todos nós, crianças, os filhos-netos-bisnetos de nem sei quantos
adultos, ali chegávamos nas vésperas do Natal prontos para a imensa aventura
de percorrer entradas e saídas misteriosas em quartinhos esconsos ou
corredores misteriosos. E sair.
Apanhar pinhas e comer pinhões até as nossas mães nos apanharem a caminho de
uma indigestão, brincar com os pedaços de gelo das poças dos caminhos, jogar
às escondidas de raparigas contra rapazes. Uma festa agitada que passava
sempre por assaltos sorrateiros à cozinha, onde os doces da festa já
esperavam a sua hora. “Sape gato, menino!!!” – dizia a minha
bisavó fingindo uma zanga divertida. Mas a
tarefa principal era apanhar o musgo para fazer o enorme presépio numa das
salas vazias de móveis. Trazíamos cestos cheios daquelas espumas verdes,
inventávamos montanhas e grutas, discutíamos seriamente onde iriam ficar os
reis magos e acabávamos embevecidos a olhar o resultado enquanto colocávamos
os nossos sapatos num semicírculo a toda a volta. Era ali
que o Menino Jesus – não existia nenhum “pai natal”, naquele tempo – havia de
deixar os nossos presentes durante a noite. E todos os sapatos eram
pequeninos. Os presente de Natal eram só para as crianças. Naquele
tempo Ainda
conservo a imagem. Havia electricidade, mas era um bem então usado com
parcimónia. Avós e bisavó tinham vivido toda a vida à luz de lamparinas e de
candeeiros de petróleo. Uma simples lâmpada numa sala enorme já lhes parecia
um milagre suficiente. A maior parte do imenso espaço ficava numa misteriosa
penumbra e só a mesa, sobre a qual estava o candeeiro, brilhava com o círculo
de rostos felizes daquela família de 4 gerações. Sobre a
toalha branca (de um tamanho que daria hoje para atapetar a sala maior de um
apartamento) havia uma miríade de pratinhos minúsculos, cada um com as suas
guloseimas. Tínhamos naquele momento licença para provar de todos. E das
enormes cozinhas da casa, feitas por mãos e saberes antigos, só saíam
manjares. Satisfeitos
os apetites todos íamos para a sala da lareira e parte de nós sentava-se na
mesa redonda coberta por uma camilha, uma cobertura de pano, sob a qual um
recipiente, a braseira, guardava as brasas preparadas com cuidado pela Avó e
sabiamente remexidas pela bisavó. Ainda hoje sinto o cheiro do vime
esbraseado que nos aquecia os pés. Ouvíamos
histórias antigas, que um dos avós começava e outro acabava, sobre trisavós e
tios que nunca tínhamos conhecido mas que reviviam ali, nas recordações e na
nossa imaginação. Chegava
depois a hora de nos deitarmos. Antes íamos ao pé do presépio, todos juntos.
Incitados pelos nossos pais pensávamos nas maldades que tínhamos feito
durante o ano, pedíamos silenciosas desculpas ao Menino Jesus e cantávamos
canções de Natal, bem portuguesas, passadas de geração em geração. Depois
havia uma certa luta. Nenhum de nós se queria ir deitar. O enorme e
antiquíssimo casarão era impossível de aquecer. As camas estavam geladas e
nós queríamos mesmo era ficar ao pé da lareira, a ouvir as histórias dos
adultos. Mas nesse tempo as crianças não tinham “querer”. E lá nos deitávamos
com uma botija dura, uma espécie de garrafa de louça que nos aquecia e onde
de vez em quando magoávamos os dedos dos pés. Com a
luzinha de uma lamparina sobre a cómoda e o sossego da ala da casa onde
ficávamos, o cansaço imenso de tanta brincadeira acabava por nos adormecer
depressa. Depressa,
mas por pouco tempo. Pelas
seis da manhã um de nós acordava e lançava o grito de alerta. Nenhum de nós
sentia frio quando corria descalço pelo velho corredor de tábuas até ao seu
sapato. Comparado
com o que as crianças hoje recebem, percebo agora, tínhamos ali tão poucas
coisas… Apesar de tudo, que alegria imensa, que gratidão ao Menino Jesus por nos
ter perdoado as malfeitorias, que entusiasmo esfusiante, que falta total de
um frio que nessa altura nos parecia imaginário e que os nossos pais,
absolutamente estremunhados, tentavam minorar vestindo-nos quase à força
casacos e meias… Havia
mais tempo depois. O almoço de Natal, brincadeiras novas com o brinquedo
novo, pesquisas semi-assustadas nos recônditos da casa. O Natal
era família, abraços, sorrisos, a doçura das rabanadas e das velhozes, as
histórias antigas, a união feliz das gerações. Quase sem compras, quase sem
embrulhos para abrir, sem pai natal, sem árvores brilhantes. Mas era
nesse tempo que havia Natal. Professora portuguesa,
reside |
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