Webjornal - Mensal - Edição 96 - Aracaju, 10 de dezembro de 2006 a 07 de janeiro de 2007
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Portugal Online

No tempo em que havia Natal

Por Margarida Ribeiro*

 

Eu sou do tempo em que havia Natal.

 

Todos os descendentes da minha bisavó (senhora ainda cheia de energia e muito ciente do seu papel de matriarca) se juntavam nas vésperas do dia 25 lá na aldeia perdida num vale gelado da Beira.

 

A casa era um casarão. Em tempos antigos dois edifícios tinham sido unidos com um arco que cobria a estrada de entrada na aldeia. Lá sobre o arco havia um corredor e salas unidas à moda do séc. XVIII, todas ligadas entre si por portas de 2 abas. Depois era um labirinto de quartos, corredores, escadinhas, lojas térreas fechadas que guardavam tesouros de coisas inúteis de sucessivas gerações. Todos nós, crianças, os filhos-netos-bisnetos de nem sei quantos adultos, ali chegávamos nas vésperas do Natal prontos para a imensa aventura de percorrer entradas e saídas misteriosas em quartinhos esconsos ou corredores misteriosos.

 

E sair. Apanhar pinhas e comer pinhões até as nossas mães nos apanharem a caminho de uma indigestão, brincar com os pedaços de gelo das poças dos caminhos, jogar às escondidas de raparigas contra rapazes. Uma festa agitada que passava sempre por assaltos sorrateiros à cozinha, onde os doces da festa já esperavam a sua hora.

Sape gato, menino!!!” – dizia a minha bisavó fingindo uma zanga divertida.

 

Mas a tarefa principal era apanhar o musgo para fazer o enorme presépio numa das salas vazias de móveis. Trazíamos cestos cheios daquelas espumas verdes, inventávamos montanhas e grutas, discutíamos seriamente onde iriam ficar os reis magos e acabávamos embevecidos a olhar o resultado enquanto colocávamos os nossos sapatos num semicírculo a toda a volta.

 

Era ali que o Menino Jesus – não existia nenhum “pai natal”, naquele tempo – havia de deixar os nossos presentes durante a noite. E todos os sapatos eram pequeninos. Os presente de Natal eram só para as crianças.

 

Naquele tempo em que havia Natal o grande momento era a consoada. Na mesa enorme da sala de jantar sentavam-se os adultos. A miudagem comia noutro compartimento, livre para a algazarra que quisesse. Só nos juntávamos aos pais, tios e avós, na mesa grande, na hora da sobremesa.

 

Ainda conservo a imagem. Havia electricidade, mas era um bem então usado com parcimónia. Avós e bisavó tinham vivido toda a vida à luz de lamparinas e de candeeiros de petróleo. Uma simples lâmpada numa sala enorme já lhes parecia um milagre suficiente. A maior parte do imenso espaço ficava numa misteriosa penumbra e só a mesa, sobre a qual estava o candeeiro, brilhava com o círculo de rostos felizes daquela família de 4 gerações.

 

Sobre a toalha branca (de um tamanho que daria hoje para atapetar a sala maior de um apartamento) havia uma miríade de pratinhos minúsculos, cada um com as suas guloseimas. Tínhamos naquele momento licença para provar de todos. E das enormes cozinhas da casa, feitas por mãos e saberes antigos, só saíam manjares.

 

Satisfeitos os apetites todos íamos para a sala da lareira e parte de nós sentava-se na mesa redonda coberta por uma camilha, uma cobertura de pano, sob a qual um recipiente, a braseira, guardava as brasas preparadas com cuidado pela Avó e sabiamente remexidas pela bisavó. Ainda hoje sinto o cheiro do vime esbraseado que nos aquecia os pés.

 

Ouvíamos histórias antigas, que um dos avós começava e outro acabava, sobre trisavós e tios que nunca tínhamos conhecido mas que reviviam ali, nas recordações e na nossa imaginação.

 

Chegava depois a hora de nos deitarmos. Antes íamos ao pé do presépio, todos juntos. Incitados pelos nossos pais pensávamos nas maldades que tínhamos feito durante o ano, pedíamos silenciosas desculpas ao Menino Jesus e cantávamos canções de Natal, bem portuguesas, passadas de geração em geração.

 

Depois havia uma certa luta. Nenhum de nós se queria ir deitar. O enorme e antiquíssimo casarão era impossível de aquecer. As camas estavam geladas e nós queríamos mesmo era ficar ao pé da lareira, a ouvir as histórias dos adultos. Mas nesse tempo as crianças não tinham “querer”. E lá nos deitávamos com uma botija dura, uma espécie de garrafa de louça que nos aquecia e onde de vez em quando magoávamos os dedos dos pés.

 

Com a luzinha de uma lamparina sobre a cómoda e o sossego da ala da casa onde ficávamos, o cansaço imenso de tanta brincadeira acabava por nos adormecer depressa.

 

Depressa, mas por pouco tempo.

 

Pelas seis da manhã um de nós acordava e lançava o grito de alerta. Nenhum de nós sentia frio quando corria descalço pelo velho corredor de tábuas até ao seu sapato.

 

Comparado com o que as crianças hoje recebem, percebo agora, tínhamos ali tão poucas coisas… Apesar de tudo, que alegria imensa, que gratidão ao Menino Jesus por nos ter perdoado as malfeitorias, que entusiasmo esfusiante, que falta total de um frio que nessa altura nos parecia imaginário e que os nossos pais, absolutamente estremunhados, tentavam minorar vestindo-nos quase à força casacos e meias…

 

Havia mais tempo depois. O almoço de Natal, brincadeiras novas com o brinquedo novo, pesquisas semi-assustadas nos recônditos da casa.

 

O Natal era família, abraços, sorrisos, a doçura das rabanadas e das velhozes, as histórias antigas, a união feliz das gerações. Quase sem compras, quase sem embrulhos para abrir, sem pai natal, sem árvores brilhantes.

 

Mas era nesse tempo que havia Natal.

 

Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://portaencostada.blogspot.com/

   

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