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Portugal Online
Permanência
Por Margarida Ribeiro*
A Humanidade não mudou a não ser no verniz e na tecnologia. Creio bem que nunca mudará.
Na Idade Média e um pouco mais tarde, quando havia uma execução pública juntava-se sempre uma enorme massa de gente para assistir. Por isso mesmo os locais escolhidos, sobretudo para as fogueiras da Inquisição, eram sempre praças importantes das cidades.
Os
sentenciados eram conduzidos até ao local numa carroça e vestidos com uma longa camisa que os identificava. Usando uma unidade de medida da época, chamava-se-lhe uma camisa de onze varas, que chegava aos pés. (por isso ainda hoje aqui em Portugal se diz que alguém numa situação difícil e irremediável “está metido numa camisa de onze varas”). E durante o caminho, aos lados das ruas, e depois na praça, junto à forca, à fogueira ou à guilhotina, juntava-se uma multidão.
Podemos
retirar do total dos que ali estavam aqueles que apenas cumpriam a sua obrigação, como carrascos ou clérigos. Descontemos também aqueles que tivessem sofrido às mãos dos então condenados e que precisassem de se certificar do seu castigo. Ponhamos de lado os seus amigos e familiares que, numa situação dessas, só em número mínimo e muito disfarçadamente se atreveriam a
correr o risco de mostrar publicamente a sua ligação com um amaldiçoado.
Os
restantes eram centenas e vinham assistir à execução da sentença simplesmente pelo fascínio de ver o sofrimento lancinante de alguém.
Sempre me impressionou que alguém pudesse ter prazer neste espectáculo. Sempre achei que estes espectadores eram o sinal duma sociedade com uma civilização atrasada, ainda muito perto de instintos pré-históricos, piores do que os animalescos. E considerei sempre que estas pessoas eram coniventes com os carrascos - mas de uma forma bem mais cruel, porque não cumpriam ordens, não estavam a ganhar o seu pão, estavam ali por gosto a partilhar o acto de humilhar e executar um condenado. Eram tão culpadas perante a execução pública como que quem a determinara, e mais do quem a executava com as suas mãos.
Até há uns dias pensava eu que tal seria impossível nos dias de hoje, ao menos nos países do 1º Mundo. A moral mudara, os valores eram mais civilizados, as pessoas estavam mais sensibilizadas, com maior empatia pelo sofrimento alheio, por lerem mais, saberem mais, entenderem melhor a si mesmos e aos outros.
Sofri uma violenta decepção. As televisões passaram vezes sem conta as imagens clandestinas da execução (não sei até que ponto as mostraram porque – fraqueza minha - não fui capaz de ver, mudava de canal…). Li algures que os vídeos do Youtube das
mesmas imagens foram abertos e vistos milhões de vezes. Sob o pretexto de as comentar, muitos dos que escrevem em jornais deram-se à tarefa de as dissecar.
Cada um dos que fez desta visão uma satisfação de uma curiosidade mórbida, um prazer disfarçado de simples interesse, foi uma das pessoas de uma multidão moderna que, de uma forma moderna, foi à praça da cidade assistir, gratuitamente, a uma execução.
A Humanidade não mudou nada. Só os meios mudaram e o verniz que disfarça os defeitos é mais usado.
Professora portuguesa,
reside em Castelo Branco, Portugal
Blog da autora: http://portaencostada.blogspot.com/
 
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