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Portugal Online Por Margarida Ribeiro* Obcecado – diz o dicionário – vem
do latim, do particípio passado do verbo que significa “cegar”. Obcecado é
quem está cego de espírito, ofuscado por uma ideia, um pensamento, um temor,
uma esperança. Nestes
últimos tempos tenho andado assim, obcecada pelo temor de uma decisão que vai
ser tomada por pessoas que me não conhecem e que destinará por quase cinco
anos a forma do meu já curto futuro. As
medidas do nosso governo, por mais justas e adequadas aos tempos e aos
problemas que vivemos quando lidas num decreto-lei e destinadas a seres
abstractos, estão a colocar muitos de nós nesta situação de meses de
incerteza e, a seguir, da confrontação com o dia em que a decisão vai ser
tomada. Todas
as possibilidades de formas de vida que nos esperam têm alguma coisa de mau e
de diferente do que até há um ou dois anos tínhamos como certo. Todas elas exigirão
adaptação a novas condições, a perdas violentas e a reformulações difíceis do
tempo que antes esperávamos viver. Nem sequer sabemos ao certo qual dos
sofrimentos escolheríamos se a escolha fosse nossa. Quase damos connosco
agradecendo interiormente que alguém a tome nas mãos e que possamos depois
colocar as culpas, não numa errada decisão da nossa parte, mas nos autores da
sentença que nos for dada. Até
aqui tenho-me esforçado por me deixar boiar num mar de incertezas, esperando
que alguém me aviste ou que a corrente me leve até a uma costa. E tenho
procurado imaginar cada um dos possíveis destinos procurando neles alguma
coisa de positivo, a parte boa que me possam trazer. Daqui a
dois dias, porém, chegará a hora de deixar de imaginar e passar a construir.
De agarrar na felicidade que esperava, não pelo lado direito com que até aqui
a via, mas pelo avesso em que ma viraram - e olhá-lo com olhos de certeza e
alma de aventura, à procura de cada semente que por lá esteja à espera de que
a adubem e a reguem para se tornar árvore de abrigo e pouso de pássaros. Digo a
mim mesma uma verdade que o meu coração se recusa, de momento, a aceitar, mas
que a minha cabeça sabe de tantas vezes a ter vivido. No avesso do que
decidimos ser a nossa felicidade há sempre sementes de alegria. Como das
outras vezes em que tal me sucedeu, vou ter de descobrir como as cultivar e
como fazer delas a minha paz e o meu bem-estar, como achar nelas alimento, e
sombra, e contentamento. Se
tiver força interior para isso, este ano que acaba de passar ficará na minha
memória como um pesadelo que termina mal acorde. E –
confesso… - sei que terei essa força. Nasci com a vocação da felicidade. E
quem nasce com ela, pode tropeçar, magoar-se, gritar de dor e de revolta, mas
não descansa enquanto não chega a outra paisagem onde, sejam quais forem os
meios que use, possa de novo ser inteira e esperançadamente aquilo que é. Professora portuguesa,
reside |
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