Webjornal - Mensal - Edição 98 - Aracaju, 04 de fevereiro a 04 de março de 2007
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Portugal Online

Ob-caecatus

Por Margarida Ribeiro*

Obcecado – diz o dicionário – vem do latim, do particípio passado do verbo que significa “cegar”. Obcecado é quem está cego de espírito, ofuscado por uma ideia, um pensamento, um temor, uma esperança.

 

Nestes últimos tempos tenho andado assim, obcecada pelo temor de uma decisão que vai ser tomada por pessoas que me não conhecem e que destinará por quase cinco anos a forma do meu já curto futuro.

 

As medidas do nosso governo, por mais justas e adequadas aos tempos e aos problemas que vivemos quando lidas num decreto-lei e destinadas a seres abstractos, estão a colocar muitos de nós nesta situação de meses de incerteza e, a seguir, da confrontação com o dia em que a decisão vai ser tomada.

 

Todas as possibilidades de formas de vida que nos esperam têm alguma coisa de mau e de diferente do que até há um ou dois anos tínhamos como certo. Todas elas exigirão adaptação a novas condições, a perdas violentas e a reformulações difíceis do tempo que antes esperávamos viver. Nem sequer sabemos ao certo qual dos sofrimentos escolheríamos se a escolha fosse nossa. Quase damos connosco agradecendo interiormente que alguém a tome nas mãos e que possamos depois colocar as culpas, não numa errada decisão da nossa parte, mas nos autores da sentença que nos for dada.

 

Até aqui tenho-me esforçado por me deixar boiar num mar de incertezas, esperando que alguém me aviste ou que a corrente me leve até a uma costa. E tenho procurado imaginar cada um dos possíveis destinos procurando neles alguma coisa de positivo, a parte boa que me possam trazer.

 

Daqui a dois dias, porém, chegará a hora de deixar de imaginar e passar a construir. De agarrar na felicidade que esperava, não pelo lado direito com que até aqui a via, mas pelo avesso em que ma viraram - e olhá-lo com olhos de certeza e alma de aventura, à procura de cada semente que por lá esteja à espera de que a adubem e a reguem para se tornar árvore de abrigo e pouso de pássaros.

 

Digo a mim mesma uma verdade que o meu coração se recusa, de momento, a aceitar, mas que a minha cabeça sabe de tantas vezes a ter vivido. No avesso do que decidimos ser a nossa felicidade há sempre sementes de alegria. Como das outras vezes em que tal me sucedeu, vou ter de descobrir como as cultivar e como fazer delas a minha paz e o meu bem-estar, como achar nelas alimento, e sombra, e contentamento.

Se tiver força interior para isso, este ano que acaba de passar ficará na minha memória como um pesadelo que termina mal acorde.

 

E – confesso… - sei que terei essa força. Nasci com a vocação da felicidade. E quem nasce com ela, pode tropeçar, magoar-se, gritar de dor e de revolta, mas não descansa enquanto não chega a outra paisagem onde, sejam quais forem os meios que use, possa de novo ser inteira e esperançadamente aquilo que é.

 

Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://encostada.blogspot.com/

 

   

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