Edição 106 - Aracaju,  07 de outubro a 11 de novembro de 2007
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  relações internacionais
Uma visão pessoal
As relações globalizadas na teoria e na prática, realidade e utopia de uma convivência mais humanizada

Por Antônio Carlos Silva Ferreira*
 

Cerca de dez dias antes de iniciar uma viagem à Inglaterra, França e Irlanda, eu havia iniciado o curso à distância de Relações Internacionais I, pelo Senado. Além disso, eu já vinha estudando com um grupo de amigos para o exame da carreira diplomática e tanto levei livros na bagagem quanto dei continuidade aos cursos pela internet. Por esta razão, embora este relato não tenha a pretensão de ser uma aula de RRII, assunto no qual sou iniciante, certamente que os estudos realizados antes e durante a viagem fizeram ressaltar aos meus olhos muito do que vi e vivi neste quase 30 dias de jornada na Europa.   

Globalização

Logo ao chegar ao aeroporto de Heathrow, fui praticamente interrogado na imigração. O funcionário queria saber o que eu ia fazer lá, em que empresa eu trabalhava no Brasil, que tipo de atividade eu exercia, quanto era meu salário e se iria precisar trabalhar lá para bancar a minha estada. Isto me fez lembrar que em meados de 1997, 10 anos atrás, portanto, eu solicitara vistos de múltiplas entradas para o Canadá e EUA e os obtive com relativa facilidade. O visto de múltiplas entradas é necessário para situações em que você vai entrar e sair do país mais de uma vez na mesma viagem, o que fora o meu caso, já que em certo momento eu fiquei em Buffalo (EUA) na fronteira com o Canadá e atravessei para ir a Niagara Falls e depois para embarcar de volta em Toronto.

Por esta característica de permitir várias entradas, o visto é concedido de maneira mais restrita, porém, naquela época (antes do fatídico 11/09), o governo canadense me concedeu o visto por 5 anos, vencendo junto com o passaporte e o governo americano me concedeu o visto por 10 anos!!! Isto sem que tenha sido preciso eu ir até o consulado para entrevista.

Naquela época, já estávamos vivenciando a globalização que facilita o intercâmbio de informações, de produtos, de serviços, de tecnologias, de costumes e de pessoas. Desse contexto muito se beneficiava a indústria do turismo ávida por turistas que se deslocam e deixam divisas no país visitado. Em abril de 2000 (ainda antes do 11/09), numa viagem que fiz a Chicago, no embarque em Guarulhos, por mais de uma vez me foi perguntado se tudo que estava na minha mala me pertencia, se eu mesmo havia colocado tudo que estava dentro da mala e até, pasmem, se minha câmera fotográfica tinha sido emprestada ou estivera em manutenção recentemente.  Esta pergunta foi feita no check-in quanto ao conteúdo da mala que despachei e depois, na sala de embarque, quanto à minha bagagem de mão.

A partir dessa informação fica fácil entender porque quando um traficante ou “mula” é pego com drogas na bagagem, não tem como ele negar que o “bagulho” lhe pertence ou que ele sabia o que estava transportando.  Os teóricos da globalização me ensinaram também que no mundo sem fronteiras, da mesma forma que o fluxo de coisas boas aumenta também o fluxo de coisas negativas, tais como o crime organizado, o tráfico de pessoas e de entorpecentes, e era este último o motivo da preocupação das autoridades aeroportuárias conforme eu havia experimentado.

Agora, voltando a 2007, percebi que a preocupação maior das autoridades de fronteira era com a imigração ilegal e desenfreada. Embora as nações européias tenham explorado recursos naturais e humanos na África, na Ásia e nas Américas em tempos passados, existe hoje uma preocupação de que povos dessas regiões não desenvolvidas emigrem em grandes levas para disputar empregos, serviços sociais e outras benesses do primeiro mundo.  Curiosamente, ao entrar na França, oriundo da Inglaterra, não fui abordado por nenhuma autoridade imigratória na Gare du Nord, estação ferroviária aonde chega o Eurostar, o trem de alta velocidade que faz a rota Londres-Paris. Digo curiosamente porque sabemos dos recentes embates entre imigrantes e o governo francês e também porque em 1998, ao chegar de trem em Oslo (Noruega) vindo de Estocolmo (Suécia), também estranhei a ausência de autoridades para fazer perguntas e carimbar o passaporte. Tudo leva a crer que eles priorizam o procedimento nos aeroportos e deixam literalmente a porta aberta nas estações terrestres. No final da viagem, ao chegar no aeroporto de Dublin, na Irlanda, em 18/09, após ser submetido a outro interrogatório e ter demonstrado, por meio de passagens marcadas e reserva de hotel, que eu iria voltar ao Brasil dentro de 05 dias, o oficial da imigração carimbou meu passaporte com permissão de permanência até 22/09.

Voltando a falar dos aspectos da globalização, o “Manual do Candidato – Geografia” para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, escrito por Regina Célia Araújo, diz que “A circulação de informações define padrões mundiais de consumo e difunde as marcas das empresas globalizadas. “ Não foi nada difícil assimilar esta lição ao ver, nas cidades em que estive, lojas da Starbucks, McDonald´s, C&A, Hard Rock Café e veículos tais como o Ford Ka, Astra e Fiesta. Há pessoas que viajam bastante e têm coleção de camisetas da Hard Rock Café, onde apenas o nome da cidade é diferente em cada uma. Até os modernos abrigos de ônibus com divisórias  em vidro e painéis luminosos de propagandas são lá, assim como aqui, fabricados pela empresa JC Decaux (é só observar que há uma plaquinha com o nome).  E quando se fala em “padrões de consumo” está embutido aí não só o produto, mas também o modo de usar ou de vestir. Vi levas de adolescentes com as calças jeans abaixo da cintura, as cuecas e calcinhas à mostra. Vi vários garotos e rapazes de cabeça raspada e/ou com bonés com a aba virada para trás. Claro que todo mundo já viu isso no Brasil, mas estou dizendo que é o que vi também na Inglaterra, na França e na Irlanda.

Realismo

Uma das teorias das Relações Internacionais denomina-se realismo, a qual já evoluiu para neo-realismo. Os realistas não acreditam num mundo harmônico por força da boa vontade e fraternidade dos homens, como imaginou John Lennon. Eles crêem que o que há é pura competição, conflitos de interesses  e isso gera a busca do equilíbrio de poder. Uma preocupação principal dos estados é com a segurança e isso justifica inclusive o uso do poder militar. Mais uma lição teórica que vi na prática, principalmente na Inglaterra: na home-page do Serviço de Segurança do Reino Unido, as primeiras palavras da titular do órgão dizem que “a maior ameaça que o Reino Unido enfrenta hoje é o terrorismo internacional. Grupos de inspiração ou vinculação com a Al Qaeda desejam causar danos indiscriminados a todas as comunidades britânicas e buscam destruir nosso modo de vida. Eventos ocorridos nos últimos três anos demonstram que esta ameaça é real, séria e mortal”.

Nas estações de metrô de Londres há cartazes incentivando a população a informar às autoridades, caso ouçam, vejam ou percebam alguma conversa ou atitude suspeita. Nos aeroportos e estações de trem, os detectores de metal foram calibrados e até fivelas de cinto fazem o alarme soar; os viajantes têm que tirar os casacos e até os sapatos para que sejam passados na maquininha de raio-X.  Nos equipamentos turísticos de maior afluxo da Inglaterra e França, tais como London Eye e Torre Eiffel, há filas específicas para que visitantes com bolsas e tiracolos tenham estes acessórios revistados. Nos terminais ferroviários e aéreos, policiais circulam de um lado para outro com olhos atentos a tudo. Os alto-falantes repetem o tempo todo que o viajante não deve deixar sua mala desassistida e que malas e objetos porventura encontrados nesta situação serão recolhidos e poderão ser destruídos.  Noutros tempos eles seriam recolhidos ao setor de Achados & Perdidos, mas hoje o medo e a preocupação com segurança alteraram o procedimento.

Idealismo

Uma outra corrente de pensadores das Relações Internacionais, os idealistas, acredita que assim como as pessoas desenvolvem laços de afinidade e de cooperação, a harmonia natural de interesses (complementariedade) entre os indivíduos e nações poderá fomentar relações de paz e cooperação mútua. Fiquei satisfeito em constatar que o idealismo não é uma mera utopia, um sonho como dizem alguns. Eu descobri várias pessoas sonhando por aí e vou lhes dar exemplos concretos: na escola de inglês para estrangeiros onde passei duas semanas, em Colchester, na Inglaterra, fiz parte de uma turma de 11 alunos de 8 diferentes nacionalidades da América do Sul, Ásia e Europa.  O inglês, obviamente, era o nosso Esperanto, a língua de comunicação universal entre pessoas com tantos idiomas nativos diferentes. O congraçamento, estimulado por atividades promovidas pela escola, era notório e amizades se formaram.  No intervalo de almoço na cantina, um angolano sempre  almoçava com sua colega de turma coreana, o colombiano estava sempre no meio das italianas, uma angolana era carne e unha com uma suíça; num dia fomos em grupo de 7 passear em Londres, representávamos  05 países e juntos descobrimos os pontos pitorescos de Londres.

Já na França, um dia fui passear em Dijon e, ao retornar à noitinha, faminto, sai em busca de um restaurante perto do hotel. Descobri o Blondin, um restaurante de comida senegalesa. Eram cerca de 22 horas, eles estavam fechando, mas o senegalês que atendia soube que eu era do Brasil e foi gentil. Disse-me que havia assistido “Cidade de Deus” e soube na cozinha que ainda dava para sair um prato para que não ficasse sem jantar. Mas, só isso? Não, não foi só isso, meu jantar foi servido e, além de mim, só havia no restaurante um casal jantando noutra mesa. Nunca tinham me visto, mas gentilmente me convidaram a sentar à mesa deles. A conversa iniciou meio engasgada devido ao meu francês limitado, até que eu soube que eles eram canadenses de Toronto e pudemos conversar longamente em inglês. Surgiu daí uma amizade, eles me deram o endereço para que possa visitá-los se um dia voltar ao Canadá, eles nunca vieram ao Brasil, mas ficaram curiosos e encantados ao verem uns postais de Salvador que eu tinha na bolsa tiracolo. Idealismo é utopia? Nem eu, nem John Lennon, nem milhares de pessoas pensam assim.

*Administrador, reside em Salvador.  E-mail: acferreira@atarde.com.br