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Crônica
Curto-circuito
Por
Antônio Carlos Silva Ferreira*
Recebi um e-mail do editor do Balaio de Notícias dizendo que ia ter
edição no domingo, para eu mandar o texto. Cheguei à noite em casa e
sentei para assistir à TV. Quando noticiavam a guerra no Líbano ecoaram
pipocos na minha casa. Será que erraram a latitude e longitude na
programação dos mísseis de longo alcance? Não, os pipocos vinham do
banheiro social. Era o chuveiro dando estertores finais, nem houve tempo
de extrema-unção. Parece-me que também o conjunto de tomada/interruptor
soltou uma fumacinha. Por segurança desliguei os disjuntores e aí já
fiquei sem poder usar o computador. Dia seguinte religo os disjuntores e
arrisco o banheiro da suíte que não deveria estar queimado. Não funcionou.
Fui trabalhar, no horário do almoço acionei um eletricista perto de casa.
Ele condenou o chuveiro do banheiro social e disse que o do banheiro da
suíte só havia queimado a resistência. Comprei um chuveiro novo, mas não
encontrei a resistência no supermercado perto de casa. Neste dia,
à noite, fui em busca da resistência noutro supermercado mais distante.
Cheguei tarde em casa, fui dormir. E nada de texto para o Balaio.
Mais um dia e vou trabalhar. O eletricista vai em casa, consegue trocar o
chuveiro danificado, mas diz que não conseguiu fazer funcionar o que
precisava apenas da troca de resistência. Descobriu falha na alimentação
do chuveiro, ficou em casa até a noite tentando descobrir. Jogou a toalha,
pediu para ter uma prorrogação no dia seguinte (hoje). De manhã tive uma
atividade extra no trabalho. Quando cheguei, sentei ao computador para
redigir um texto para o Balaio. Sem muita inspiração abro os sites de
notícias: guerra no Líbano, Annan solicita cessar fogo. Nada que
preste...até que toca a campainha. Levanto-me, caminho até a porta,
abro-a. Era o eletricista chegando para virar o jogo a seu favor. Ele
pede licença, encaminha-se para o banheiro e eu volto ao computador para
ver se escrevo um texto. No site de notícias: Suzane Richthofen diz que
vai escrever auto-biografia (argh). Nesse momento o eletricista me
interrompe. Diz que a resistência nova não agüentou o tranco e quebrou.
Ele ainda não tem um diagnóstico preciso da causa da morte dos pais de
Suzane. Perdão, leitor, a cabeça embaralhada. O eletricista não tem
diagnóstico preciso da causa da pane do chuveiro. Levanto e como estava
sem dinheiro, tive que ir ao caixa 24 horas, sacar dinheiro e comprar nova
resistência. Nesse meio tempo o eletricista foi comprar um remédio. Volto
para casa, deixo a resistência sobre a mesa e sento-me ao computador. No
site: aeroporto de Londres cancela um terço dos vôos. Hummm, eletricista
cancela minha leitura tocando campainha. Levanto-me, caminho até a porta,
abro-a. Era o eletricista chegando para virar o jogo a seu favor. Ele
pede licença, encaminha-se para o banheiro e eu volto ao computador para
ver se escrevo um texto. Não sei porque me lembro de Chico Buarque:
todo dia ela faz tudo sempre igual...
No
site: novos ataques a bala...estão pensando que é no Líbano? No Rio de
Janeiro? É em Sumpaulo. Na terra da garoa agora chove chumbo grosso.
Nada nas notícias que me inspire a escrever alguma coisa. Talvez quem sabe
sobre as comissárias da VARIG que vão posar na Playboy. Mulher pelada em
revista não é novidade e com os salários atrasados elas devem estar sem
roupa mesmo em todo lugar.
Chega o elet...isso ele mesmo. Avisa que descobriu a causa do problema:
um curto circuito numa tomada de casa. E começa a contar toda a sua
investigação de tomada em tomada até encontrar a tomada suspeita e
criminosa. Com tanto esforço investigativo, já imagino quanto vai me
custar a Operação Chuveiros. E ele me pede que o acompanhe para ele fazer
a reconstituição da investigação. E me diz que está tudo quase perfeito.
Mas porque o quase? Bem, o chuveiro funciona em água fria e água quente,
mas na posição de água morna a resistência não resiste. Pergunto a ele
se o pagamento também pode ser pela metade. Ele não entende e sorri, então
eu explico: pagamento 100% cento e serviço 100%, combinados? Ele volta ao
serviço, eu volto ao computador.
Enfim, ele termina, diz que está tudo nos trinques, me dá o susto no
preço, eu pago ele sai. Volto ao computador, toca a campainha.
Levanto-me, caminho até a porta, abro-a. Errou, não é ele, é ela, minha
filha. Entra, liga o som e põe aquele CD que ela gravou com “world music”.
Tem de tudo pagodão, funk, forró e música em inglês. Tem de Tati Quebra
Barraco a Beyoncé passando por Perlla, Fresno e uns amiguinhos dela que
gravaram músicas no banheiro de casa. Por música gravada no banheiro
vocês entendem o que digo, né?
Bem, acabou o tempo, a inspiração e pelo visto este relato estilo “Meu
Querido Diário” já está de bom tamanho. Então, vai pro Balaio. Não
reclamem, a culpa é do eletricista.
*Fotógrafo
amador, ex- publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em
Salvador
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