Webjornal - Mensal  - Edição 92 - Aracaju, 13 de agosto a 17 de setembro  de 2006
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Crônica

Curto-circuito

Por Antônio Carlos Silva Ferreira*

Recebi um e-mail do editor do Balaio de Notícias dizendo que ia ter edição no domingo, para eu mandar o texto. Cheguei à noite em casa e sentei para assistir à TV. Quando noticiavam a guerra no Líbano ecoaram pipocos na minha casa. Será que erraram a latitude e longitude na programação dos mísseis de longo alcance? Não, os pipocos vinham do banheiro social.  Era o chuveiro dando estertores finais, nem houve tempo de extrema-unção. Parece-me que também o conjunto de tomada/interruptor soltou uma fumacinha. Por segurança desliguei os disjuntores e aí já fiquei sem poder usar o computador.  Dia seguinte religo os disjuntores e arrisco o banheiro da suíte que não deveria estar queimado. Não funcionou. Fui trabalhar, no horário do almoço acionei um eletricista perto de casa. Ele condenou o chuveiro do banheiro social e disse que o do banheiro da suíte só havia queimado a resistência.  Comprei um chuveiro novo, mas não encontrei a resistência no supermercado perto de casa.  Neste dia, à noite, fui em busca da resistência noutro supermercado mais distante.  Cheguei tarde em casa, fui dormir. E nada de texto para o Balaio. 

Mais um dia e vou trabalhar. O eletricista vai em casa, consegue trocar o chuveiro danificado, mas diz que não conseguiu fazer funcionar o que precisava apenas da troca de resistência. Descobriu falha na alimentação do chuveiro, ficou em casa até a noite tentando descobrir. Jogou a toalha, pediu para ter uma prorrogação no dia seguinte (hoje). De manhã tive uma atividade extra no trabalho. Quando cheguei, sentei ao computador para redigir um texto para o Balaio. Sem muita inspiração abro os sites de notícias: guerra no Líbano, Annan solicita cessar fogo.  Nada que preste...até que toca a campainha. Levanto-me, caminho até a porta, abro-a. Era o eletricista chegando para virar o jogo a seu favor.  Ele pede licença, encaminha-se para o banheiro  e eu volto ao computador para ver se escrevo um texto. No site de notícias: Suzane Richthofen diz que vai escrever auto-biografia (argh). Nesse momento o eletricista me interrompe. Diz que a resistência nova não agüentou o tranco e quebrou. Ele ainda não tem um diagnóstico preciso da causa da morte dos pais de Suzane. Perdão, leitor, a cabeça embaralhada. O eletricista não tem diagnóstico preciso da causa da pane do chuveiro. Levanto e como estava sem dinheiro, tive que ir ao caixa 24 horas, sacar dinheiro e comprar nova resistência. Nesse meio tempo o eletricista foi comprar um remédio. Volto para casa, deixo a resistência sobre a mesa e sento-me ao computador.  No site: aeroporto de Londres cancela um terço dos vôos. Hummm, eletricista cancela minha leitura tocando campainha. Levanto-me, caminho até a porta, abro-a. Era o eletricista chegando para virar o jogo a seu favor.  Ele pede licença, encaminha-se para o banheiro  e eu volto ao computador para ver se escrevo um texto. Não sei porque me lembro de Chico Buarque:   todo dia ela faz tudo sempre igual...

No site: novos ataques a bala...estão pensando que é no Líbano? No Rio de Janeiro? É em Sumpaulo.  Na terra da garoa agora chove chumbo grosso.

Nada nas notícias que me inspire a escrever alguma coisa. Talvez quem sabe sobre as comissárias da VARIG que vão posar na Playboy.  Mulher pelada em revista não é novidade e com os salários atrasados  elas devem estar sem roupa mesmo em todo lugar. 

Chega o elet...isso ele mesmo.  Avisa que descobriu a causa do problema: um curto circuito numa tomada de casa. E começa a contar toda a sua investigação de tomada em tomada até encontrar a tomada suspeita e criminosa.  Com tanto esforço investigativo, já imagino quanto vai me custar a Operação Chuveiros. E ele me pede que o acompanhe para ele fazer a reconstituição da investigação. E me diz que está tudo quase perfeito. Mas porque o quase? Bem, o chuveiro funciona em água fria e água quente, mas na posição de água morna a resistência não resiste.    Pergunto a ele se o pagamento também pode ser pela metade. Ele não entende e sorri, então eu explico: pagamento 100% cento e serviço 100%, combinados?  Ele volta ao serviço, eu volto ao computador.

Enfim, ele termina, diz que está tudo nos trinques, me dá o susto no preço, eu pago ele sai.  Volto ao computador, toca a campainha. Levanto-me, caminho até a porta, abro-a. Errou, não é ele, é ela, minha filha. Entra, liga o som e põe aquele CD que ela gravou com “world music”. Tem de tudo pagodão, funk,  forró e música em inglês. Tem de Tati Quebra Barraco a Beyoncé passando por Perlla, Fresno e uns amiguinhos dela que gravaram músicas no banheiro de casa.  Por música gravada no banheiro vocês entendem o que digo, né?

Bem, acabou o tempo, a inspiração e pelo visto este relato estilo “Meu Querido Diário” já está de bom tamanho. Então, vai pro Balaio.  Não reclamem, a culpa é do eletricista.

*Fotógrafo amador, ex- publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em Salvador

                                 

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