
Webjornal - Mensal - Edição
96 - Aracaju, 10 de dezembro de
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Comportamento Por Antônio Carlos Silva Ferreira* Estava eu sentado
diante da TV na noite de 13 de novembro assistindo a um dos telejornais
quando a reportagem falou que aquele era o Dia Mundial pelos Atos de Gentileza.
Ao final da matéria o repórter sugeriu a um transeunte que fizesse um ato de
gentileza com uma pessoa desconhecida. Aceitando o desafio, ele se dirigiu a
uma mulher que estava de pé na beira da calçada e deu-lhe um afetuoso abraço
dizendo-lhe que era pelo dia da gentileza. O inesperado gesto foi recebido
com alegria pela senhora que se declarou gratificada pelo abraço do cidadão. A cena me trouxe à lembrança algumas das tantas cenas exibidas
na TV após o fatídico acidente do vôo
1907 da Gol. Uma das matérias da TV mostrava os parentes das vítimas de mãos
dadas fazendo um minuto de silêncio pelas almas dos seus mortos. Noutras
reportagens vimos os parentes se unirem para ações de conforto mútuo e de
reivindicações perante a empresa aérea e as autoridades. Aquelas pessoas
estavam se tornando amigas, compartilhando sentimentos, dores, tristeza,
entrelaçando suas vidas. O fato curioso é que muitas delas nunca haviam se
visto, moravam em diferentes cidades do país e foram unidas por uma tragédia.
Quando tudo passar, algumas não vão se ver mais, porém, certamente muitas
amizades nascerão dali, quiçá relacionamentos afetivamente mais profundos. Em seguida, me veio à mente uma outra cena, esta ainda mais antiga,
de uns quatro meses antes, quando eu estava na casa de uma amiga numa reunião
para celebrar seu aniversário. No decorrer de um bate-papo casual, uma pessoa
disse que não aceitava ser chamada de “tia” por coleguinhas da sua sobrinha. Justificava a pessoa que o
título de tio ou sobrinho era algo de muita consideração para ser usurpado
por um estranho. Afinal a consangüinidade é própria de parentes e não de
desconhecidos. No desenrolar dessa conversa alguém concordou e emendou que,
de igual forma, não admitia que um alheio lhe dirigisse a palavra tratando-o
por “Amigo”. Não haveria cabimento em
guardar no lado esquerdo do peito alguém que reivindica precipitadamente um
vínculo de amizade. Eu não emiti opinião naquela conversa, mas me pus a refletir. E
enquanto eu pensava mais cenas de TV me vinham à mente: muçulmanos e cristãos
se digladiando no mundo; a filha que matou os pais; a mulher que arquitetou e
contratou o assassinato da amiga de infância e tantas outras desavenças
fatais entre parentes, amigos e estranhos. No meio desse turbilhão de violência, aparece o branco da Paz no
fim de ano, a festa de confraternização, as pessoas se indignando com o
absurdo da desunião entre os homens e os protestos contras as guerras. Mas se a gente é contra a guerra, se a gente quer a paz, se a
gente concorda que a Humanidade devia ser mais solidária e unida, por que
rejeitamos aqueles que se aproximam querendo ser amigos? Ser parente, seja
tio, sobrinho ou irmão, é de fato uma condição especial de sangue, mas na
escala de valores da maioria de nós mais vale a mãe que adota e cria com amor
uma criança do que a mãe que pariu e abandonou o bebê numa lata de lixo nas
ruas. Partindo daí, será, então que o título de “tio” é tão intocável
que a gente não deva permitir que nenhum dos queridos amigos dos nossos
filhos e sobrinhos nos chamem de tios?
Será que chamar alguém de tio ou de amigo não é uma demonstração da
vontade de estabelecer uma relação de paz e fraternidade? A aproximação entre as pessoas para a formação de laços de
amizade, união e solidariedade sempre começa com um sorriso, um gesto, um
cumprimento, enfim, com uma gentileza. Cabe então
lembrarmos de José Daltrino, que era um próspero empresário até que um
incêndio num circo de Niterói, em 1961, mudou sua vida. Sensibilizado com a
tragédia, que levou à morte mais de 500 pessoas, Daltrino largou tudo e foi
consolar os parentes das vítimas. Ficou, mais tarde, conhecido como o Profeta Gentileza, e percorreu as ruas do Rio de Janeiro, entre os anos Não precisamos esperar que o circo
literalmente pegue fogo, não precisamos esperar que aviões caiam do céu para
adotarmos ações em prol da união dos povos. Alguns poderão dizer que não
resolveremos o problema mundial, mas se seguirmos a máxima “pense
globalmente, aja localmente” poderemos
começar na nossa própria casa aceitando a amizade dos amigos dos nossos
sobrinhos. *Bancário da Caixa
Econômica Federal. Reside em Salvador. |
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