Webjornal - Mensal  - Edição 96 - Aracaju, 10 de dezembro de 2006 a 01 de janeiro de 2007
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Comportamento

Gentileza gera gentileza

Por Antônio Carlos Silva Ferreira*

Estava eu sentado diante da TV na noite de 13 de novembro assistindo a um dos telejornais quando a reportagem falou que aquele era o Dia Mundial pelos Atos de Gentileza. Ao final da matéria o repórter sugeriu a um transeunte que fizesse um ato de gentileza com uma pessoa desconhecida. Aceitando o desafio, ele se dirigiu a uma mulher que estava de pé na beira da calçada e deu-lhe um afetuoso abraço dizendo-lhe que era pelo dia da gentileza. O inesperado gesto foi recebido com alegria pela senhora que se declarou gratificada pelo abraço do cidadão.

 

A cena me trouxe à lembrança algumas das tantas cenas exibidas na TV  após o fatídico acidente do vôo 1907 da Gol. Uma das matérias da TV mostrava os parentes das vítimas de mãos dadas fazendo um minuto de silêncio pelas almas dos seus mortos. Noutras reportagens vimos os parentes se unirem para ações de conforto mútuo e de reivindicações perante a empresa aérea e as autoridades. Aquelas pessoas estavam se tornando amigas, compartilhando sentimentos, dores, tristeza, entrelaçando suas vidas. O fato curioso é que muitas delas nunca haviam se visto, moravam em diferentes cidades do país e foram unidas por uma tragédia. Quando tudo passar, algumas não vão se ver mais, porém, certamente muitas amizades nascerão dali, quiçá relacionamentos afetivamente mais profundos.

 

Em seguida, me veio à mente uma outra cena, esta ainda mais antiga, de uns quatro meses antes, quando eu estava na casa de uma amiga numa reunião para celebrar seu aniversário. No decorrer de um bate-papo casual, uma pessoa disse que não aceitava ser chamada de “tia” por coleguinhas  da sua sobrinha. Justificava a pessoa que o título de tio ou sobrinho era algo de muita consideração para ser usurpado por um estranho. Afinal a consangüinidade é própria de parentes e não de desconhecidos. No desenrolar dessa conversa alguém concordou e emendou que, de igual forma, não admitia que um alheio lhe dirigisse a palavra tratando-o por “Amigo”.  Não haveria cabimento em guardar no lado esquerdo do peito alguém que reivindica precipitadamente um vínculo de amizade.

 

Eu não emiti opinião naquela conversa, mas me pus a refletir. E enquanto eu pensava mais cenas de TV me vinham à mente: muçulmanos e cristãos se digladiando no mundo; a filha que matou os pais; a mulher que arquitetou e contratou o assassinato da amiga de infância e tantas outras desavenças fatais entre parentes, amigos e estranhos.

 

No meio desse turbilhão de violência, aparece o branco da Paz no fim de ano, a festa de confraternização, as pessoas se indignando com o absurdo da desunião entre os homens e os protestos contras as guerras.

 

Mas se a gente é contra a guerra, se a gente quer a paz, se a gente concorda que a Humanidade devia ser mais solidária e unida, por que rejeitamos aqueles que se aproximam querendo ser amigos? Ser parente, seja tio, sobrinho ou irmão, é de fato uma condição especial de sangue, mas na escala de valores da maioria de nós mais vale a mãe que adota e cria com amor uma criança do que a mãe que pariu e abandonou o bebê numa lata de lixo nas ruas.

 

Partindo daí, será, então que o título de “tio” é tão intocável que a gente não deva permitir que nenhum dos queridos amigos dos nossos filhos e sobrinhos nos chamem de tios?  Será que chamar alguém de tio ou de amigo não é uma demonstração da vontade de estabelecer uma relação de paz e fraternidade?

 

A aproximação entre as pessoas para a formação de laços de amizade, união e solidariedade sempre começa com um sorriso, um gesto, um cumprimento, enfim, com uma gentileza. Cabe então lembrarmos de José Daltrino, que era um próspero empresário até que um incêndio num circo de Niterói, em 1961, mudou sua vida. Sensibilizado com a tragédia, que levou à morte mais de 500 pessoas, Daltrino largou tudo e foi consolar os parentes das vítimas. Ficou, mais tarde, conhecido como o Profeta Gentileza, e percorreu as ruas do Rio de Janeiro, entre os anos 60 a 90, levando palavras de amor, bondade e respeito ao próximo e à natureza aos que por ele passavam. Também encheu muros e pilastras com inscrições em verde-amarelo, numa caligrafia singular com a sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. Sua citação predileta era “Gentileza Gera Gentileza”.

 

Não precisamos esperar que o circo literalmente pegue fogo, não precisamos esperar que aviões caiam do céu para adotarmos ações em prol da união dos povos. Alguns poderão dizer que não resolveremos o problema mundial, mas se seguirmos a máxima “pense globalmente, aja localmente”  poderemos começar na nossa própria casa aceitando a amizade dos amigos dos nossos sobrinhos.

 

*Bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em Salvador.

 

                                

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