|
|
|
|
| A busca da excelência As lições do técnico Bernardinho Antônio Carlos Silva Ferreira*
“Eu me considero um gestor de pessoas”, esta foi uma das primeiras afirmações de Bernardinho, técnico de vôlei bi-campeão mundial, na palestra “A Busca da Excelência” realizada em Salvador, no dia 28 de março de 2007. O evento já foi realizado em várias outras cidades do Brasil e nele o palestrante, que por diversas vezes levou as seleções masculinas e femininas ao pódio em competições internacionais, expõe numa linguagem coloquial e bem descontraída a sua fórmula do sucesso.
Para Bernardinho um salto de qualidade pode ser dado quando nos propomos a refletir sobre o que fazer para vencer, e esse questionamento nos estimula a adotar mudanças de atitudes e de estratégia que nos levarão a um crescimento. Neste aspecto ele admite ter buscado o aperfeiçoamento, não só no que concerne ao esporte, como também lendo bastante sobre motivação e gestão de pessoas. Ele fez questão de citar o artigo “What it Takes to Be Great”, publicado na revista Fortune em 2006 como uma das melhores coisas que leu sobre o alcance do sucesso. Neste artigo são citados cientistas que conduziram estudos sobre o que fazem pessoas vencedoras terem sucesso, em diversas áreas de atuação e a conclusão a que chegaram é que o chamado talento nato é pouco mais que um mito.
Nos diversos casos observados, o trabalho árduo, sistematizado e perseverante é demonstrado como aquilo que efetivamente fez a diferença para aquelas pessoas ao longo do tempo. Uma vez lido o artigo, consegue-se perceber que Bernardinho acredita e pratica aquilo que leu.
Partindo do conhecimento, que ele classificou como sendo a combinação de informação mais experiência, em determinado contexto, ele enfatiza a seleção dos talentos de uma equipe como uma etapa importante. Certamente baseado num clichê atual dos autores que escrevem sobre competitividade no mercado, Bernardinho repete que, no mundo de hoje, embora as organizações tenham como diferenciais competitivos sustentados o capital, a tecnologia e o fator humano, é este último componente que pode assegurar resultados e marcas inigualáveis pela concorrência. Daí a responsabilidade que recai sobre o líder de escolher talentos e escolher os talentos certos para cada posição de trabalho.
“A melhor equipe não é a soma dos melhores talentos mas a soma dos talentos que se complementam da melhor forma possível”, aconselha nosso campeão, e complementa: “na hora de selecionar pessoas, é preciso ter atenção para enxergar aquilo que elas têm de melhor, e não aquilo que gostaríamos que elas tivessem.” Na escolha dos talentos ele propõe que sejam avaliados os seguintes requisitos: a genialidade; currículo, que ele chamou de "track record"; determinação e paixão pelo que faz.
Uma vez selecionada a equipe, caberá ao líder fazer com que o grupo atue de fato como um time, de forma harmônica e movidos pelo mesmo objetivo. Ele combate a cultura das estrelas e entende que os incentivos que premiam apenas os membros são ameaças ao trabalho em grupo. Tanto assim que propôs aos jogadores sob seu comando um pacto que estabelecia que no caso de um deles ser escolhido como “melhor jogador” em determinada competição o prêmio em dinheiro recebido seria dividido na proporção de 50% para o jogador e 50% a ser dividido pelo restante do grupo. Para obter sucesso com uma proposta dessas certamente que ele precisou usar seus atributos de líder, e, segundo ele, um líder deve pautar sua conduta por sua capacidade, valores e princípios inspiradores. Depois do planejamento da estratégia a ser utilizada, Bernardinho ressaltou a preparação e exercício exaustivo como imprescindíveis à vitória. “A vontade de se preparar tem que ser maior que a vontade de vencer” arrematou ele citando como autor da frase o vitorioso treinador americano de basquete Bob Knight. Ele chamou atenção para o fato de que as vitórias e títulos conquistados no passado não garantem nenhum sucesso no futuro, ao contrário, impõem ao favorito o peso da responsabilidade da vitória que se espera dele contra os oponentes. O melhor antídoto contra esta acomodação, causada pela fama e pelos louros do passado, seriam na opinião do técnico a busca da zona do desconforto, o exercício da superação; atualizando-se e aperfeiçoando-se permanentemente. Não fosse pelas citações dos jogos e certames esportivos e pela figura conhecida de Bernardinho, poder-se-ia afirmar que ali estava um executivo de uma empresa líder de mercado ministrando a palestra. A perseverança, a força da luta contínua e outros pontos da fala do palestrante foram convincentes demonstrações de que naquele palco não estava um gênio ou um guru do esporte e sim um profissional que se fez vencedor. *Bancário e fotógrafo, reside em Salvador. E-mail: acferreira@atarde.com.br |