Edição 102 - Aracaju, 10 de junho a 08 de julho de 2007
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  debate
Racismo em questão
Os vários ângulos do preconceito

Antônio Carlos Silva Ferreira*
 

A Revista Veja desta semana traz como titulo de capa a frase “RAÇA NÃO EXISTE”. A reportagem tem como mote o episódio recente no qual 02 irmãos gêmeos univitelinos buscaram ingressar na UNB pelo sistema de cotas e um teve o pedido deferido por ter sido considerado negro e o outro teve seu pedido indeferido. O caso traz de novo à tona a questão das cotas, das ações de reparação e,  por conseguinte, do preconceito racial. Não sou militante de movimentos negros, mas sou negro, tenho acompanhado os diversos debates, as matérias sobre o tema e para poder me posicionar como cidadão diante dos fatos. Inclusive para não incorrer no risco de somente advogar em causa própria, embora eu tenha feito parte da minha graduação em universidade pública, antes de existirem as cotas e concluído em universidade particular. Selecionei aqui alguns questionamentos recorrentes na retórica dos que são contra as cotas  e/ou dos que afirmam não haver distinção de raça ou preconceito racial no Brasil. E seguem as respostas que modestamente encontrei por meio de leituras, de analogias, enfim de reflexões.

1. Na África, ainda hoje,  diferentes povos negros não se unem e se digladiam entre si. Na época do tráfico de escravos conta-se  que negros ajudavam na captura de outros negros que seriam vendidos como escravos. Os capitães-do-mato que eram caçadores de escravos fugitivos também eram negros, embora libertos que caçavam seus pares em troca de dinheiro e benefícios.  Por que então os negros  se queixam tanto do racismo que sofreram e sofrem dos brancos se não são tão unidos entre si?

Resposta: Os negros não são tão unidos na mesma medida em que os homens, em geral, não são tão unidos também. A ambição, o ciúme, a vaidade, futebol, religião, política poder  e diversos outros fatores fazem com que homens se desentendam, traiam, e até matem seus pares, independente de cor, sexo, parentesco. Assim Jesus foi traído; assim os nazistas brancos exterminaram judeus igualmente brancos. Quando um bebê recém-nascido é encontrado abandonado numa lata de lixo, nós não pensamos que a sociedade deve deixá-lo morrer à míngua porque a própria mãe o abandou. Não cabe, portanto,  aplicar o raciocínio de que já que alguns negros também foram ou são racistas, eles que se virem. A queixa contra o racismo e a exigência de ações reparadoras se assenta na análise do processo histórico que lhe deu causa. Os  negros foram capturados na África à revelia da sua vontade, famílias foram desagregadas propositadamente para dificultar a resistência e a fuga, mulheres foram  abusadas sexualmente, a mão-de-obra foi explorada, o ser humano foi tratado como coisa e não como gente. Feito isso, o Brasil, que  foi o último país a abolir a escravidão, libertou os negros, muito mais por razões político-econômicas do que sociais, negando-lhes educação e condições dignas de sobrevivência, abandonando-os à própria sorte. Não é por outro motivo que as estatísticas inquestionáveis demonstram que os negros são a grande maioria dos que estão em condições de desigualdade social até hoje. As favelas e os cárceres têm mais negros que não negros, ao contrário das universidades e das instâncias de poder. 

2. Diz-se hoje que é politicamente incorreto chamar alguém de preto, o certo é afro-descendente. Isso não é frescura dos afro-descendentes? E porque um negro se ofende quando chamado de “neguinho” (ex.: Caso Grafite) se ele é negro mesmo?

Resposta: O que se combate é o uso das palavras de maneira que encerrem conotação pejorativa. A palavra “nigrinha”, que é usada como ofensa a uma mulher,  deriva de “negrinha” e não devia ser usada porque negra/negrinha não são sinônimos de indigna, vagabunda, etc. Essa prática não é “frescura de negros” e tem base na mesma lógica que faz com que hoje se prefira os seguintes termos: deficiência intelectual  e não mais deficiente nem débil mental; portador de Hanseníase e não leproso; soropositivo e não aidético; deficiente visual e não ceguinho; portador de síndrome de Down e não mongol/mongolóide. A idéia é extinguir o estigma criado a partir dos conceitos equivocadamente atribuídos aos vocábulos anteriormente utilizados. Jô Soares se auto-denomina de “O Gordo”, muitos obesos podem aceitar serem chamados de “Gordo” por seus parentes e amigos, mas dificilmente alguém aceita ser chamado na rua por um desconhecido de gordo, magrelo, careca.

3. Por que ações afirmativas para negros e não para pobres?

Resposta:  Os defensores das ações afirmativas para negros não são contrários a ações afirmativas para outros grupos. Ocorre que, de maneira geral, as pessoas se unem em tornos de causas  e em grupos em razão das suas especificidades. Assim temos um sindicato só de metalúrgicos, um só de bancários, dentre outros, temos uma Associação de Defesa da Criança com Câncer, temos um Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS, temos uma  Delegacia da Mulher e temos duas leis que   garantem cotas para portadores de deficiência física nas empresas públicas e privadas. No Rio de Janeiro, em horários de pico, o metrô reserva vagões exclusivos para mulheres para coibir o assédio sexual físico. Em todos os casos, a motivação é a mesma, tratam-se de medidas que visam atender a necessidades específicas de grupos específicos que, se fossem incluídas em grupos gerais, dificilmente teriam conquistas porque perderiam foco. No Brasil somente os negros foram escravizados e bastava ter a pele negra para ser discriminado. Isso faz com que os negros neste país compartilhem de um conjunto de especificidades que lhes é peculiar. Existem negros que estão bem de vida hoje? Sim, são poucos e as cotas não os contempla. Existem  pobres de outras raças? Sim, mas não porque foram escravizados. Do mesmo modo que existem trabalhadores que não são metalúrgicos nem bancários, portadores de câncer que não são crianças, doentes terminais que não portam AIDS, vítimas de violência que não são mulheres, desempregados que não são deficientes, mas isto não desqualifica nem invalida a existência, a luta e os propósitos dos grupos associativos que reivindicam seus direitos.

4. Como pode haver racismo no Brasil se não há brancos puros?

Resposta: Na página principal do site Diálogos Contra o Racismo está informado que “Pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2003 mostrou que 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no Brasil. Curiosamente, somente 4% dos entrevistados reconhecem que são racistas. Este é um dos pontos-chave da Campanha “existe racismo sem racistas?” conduzida pelos mantenedores do site. Ainda que raça não exista como quer a Revista “Veja”, o preconceito existe, os pouco mais de 100 anos pós-abolição ainda não foram suficientes para erradicar o preconceito e a noção de que preto é coisa e branco é gente fortemente disseminado durante os mais 300 anos de escravidão.

5. Por que negros reclamam de aparecerem como serviçais nas novelas e ao mesmo tempo se queixam da falta de oportunidades? A novela não estaria sendo fiel à realidade?

Resposta:  De fato as estatísticas demonstram que os negros são maioria nos cárceres, nas favelas, nos empregos de baixa qualificação e baixa renda. De igual forma muitas mulheres ainda sofrem violência, muitos padres são pedófilos, muitos políticos são corruptos, mas não é por meio da mera exposição e da repetição de paradigmas que se muda uma realidade injusta e indesejada.

6. Se existe racismo e não apartheid social por que negros como Pelé são aclamados pelo público em geral?

Resposta: Pergunto-me por que razão Diego Maradona, atleta com indicadores de desempenho inferiores aos de Pelé e sistematicamente envolvido com drogas, dando um péssimo exemplo, é incondicionalmente aclamado pelos argentinos, enquanto o “Atleta do Século”  Pelé, é costumeiramente criticado por conta de declarações inadequadas. Mas como este argumento é subjetivo eu prefiro lembrar que demonstrações de  racismo explícito como os que envolveu o jogador Grafite, acontecem cotidianamente com pessoas da raça negra, independente de classe social. Isto demonstra, como já afirmamos, que o conceito de que negro é coisa e não gente que sustenta o racismo ainda não foi eliminado de todo.

7. Ainda que exista racismo, alguns negros superaram os obstáculos e se tornaram bem sucedidos, mesmo sem usufruir do benefício das ações afirmativas. Por que os demais negros não seguem estes exemplos?

Resposta: Realmente, algumas pessoas em condições desfavoráveis conseguem superar obstáculos, sejam elas negros, portadores de deficiência, enfermos, dentre outros. Isto não tira a nossa obrigação de reparar injustiças, de lutar pela redução das desigualdades. À sociedade cabe, por exemplo, prover condições de acessibilidade aos portadores de deficiência, ainda que eles sejam uma minoria, à sociedade cabe cuidar para que os índios não sejam dizimados por negligência. Quando educamos nossos filhos buscamos dar a melhor educação que pudermos, em todos os aspectos, não simplesmente deixamos que “se virem sozinhos” e superem os obstáculos. Claro que os incentivamos a enfrentar alguns desafios por eles próprios, mas estamos sempre provendo a base necessária, na medida das nossas possibilidades. Talvez por não amarem o próximo como a si mesmos, alguns defendam a máxima “aos amigos e parentes tudo, aos outros...nada”. 

*Bancário e fotógrafo, reside em Salvador.  E-mail: acferreira@atarde.com.br