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reportagem Estação Europa Nosso repórter globe-trotter viajou durante quase um mês pela Inglaterra, França e Irlanda, um roteiro repleto de surpresas e descobertas. Texto e fotos: Antônio Carlos Silva Ferreira* Colchester - antiga e moderna Passei duas semanas em Colchester (100 mil habitantes, 90 km de Londres) tida como a mais antiga cidade romana e britânica. A cidade é antiga, mas não antiquada: ruas bem asfaltadas, calçadas largas e também asfaltadas em muitas vias, excelente sinalização. A cidade é enlaçada por um bem projetado anel viário composto de largas roads (estradas). Estas são entrecortadas pelas ways e streets, mas não lembro de ter visto nenhuma via denominada de avenue (avenida) por lá.
Nas paradas de ônibus em Colchester um painel luminoso indica dentro de quantos minutos chegará cada ônibus que passa por ali. Em algumas paradas o abrigo é invertido, ou seja, o banco está virado em direção oposta à via de trânsito e por trás do banco está a divisória que o protege. Talvez para resguardar os passageiros da poeira, vento, poluição. É comum ver-se em Colchester os estudantes (que eles chamam de schoolchidren porque students são os universitários) trajando terninhos com gravata e um emblema da escola no peito; sapatinhos bem engraxados. Sem querer ser conservador ou retrógrado, quando vejo os estudantes daqui usando a camiseta da escola amassada sob uma calça jeans, às vezes pelo avesso em diversos tons e matizes de azul, penso que um pouco de disciplina nesta fase da adolescência não contraria o respeito ao gosto pessoal e à diversidade. Popularidade do Lula Nas minhas andanças pelo mundo sempre foi comum as pessoas não saberem bem qual a capital do Brasil, perguntarem que idiomas falamos, na dúvida se seria português ou espanhol. Em termos de personalidades os referenciais sempre eram os craques do futebol, de Pelé a Ronaldinho Gaúcho, passando por Bebeto e Romário, a depender da época em que eu estivesse viajando ou da idade do interlocutor. Nesta viagem, numa tarde qualquer em Londres, um senhor de cor negra me abordou pedindo dinheiro, dizendo ser imigrante do Zimbabwe (país africano que foi colônia britânica) e alegando estar desempregado. Perguntou-me de onde eu era e ao responder-lhe que era do Brasil ele logo associou: “Oh, Brazil? President Lula?” Vivendo e aprendendo inglês
Quando se trata de idiomas, a gente está sempre aprendendo alguma coisa nova, seja na nossa língua ou numa língua estrangeira que falemos. Nos estudos de Geografia do ensino fundamental, os professores falavam no Meridiano de Greenwich (e pronuciavam grinuítch) e mantive o vício de pronúncia até ter ido in loco ao lugar. Lá, o guia do local que nos contava a história do meridiano zero - a partir do local se determina as horas no resto do mundo - repetia Greenwich o tempo todo sem que eu escutasse o som do “w” (como se a grafia fosse Greenich). Confirmei mais tarde com meu amigo inglês que, de fato, o W não é soado em palavras tais como Greenwich, Norwich (cidade próxima de Colchester onde eu estive), Keswick (cidade onde estive na região dos lagos), embora seja pronunciado em Ipswich (outra cidade perto de Colchester). De igual forma, nas estações de metrô Gloucester Road e Leicester Square, o aviso audível deixava claro que as pronúncia dessas palavras é como se fossem grafadas Gloster e Lester, ou seja, as letrinhas “uce” e “ice”, respectivamente, não são pronunciadas. Mancha de quê? A Grã-Bretanha está separada do continente europeu por um braço de mar que todos no Brasil conhecemos como Canal da Mancha. É nele que passa o Eurostar, o trem que liga a Inglaterra à Europa passando por um túnel (Eurotúnel) que está escavado a mais de 40m abaixo do solo daquele canal. Na Inglaterra descobri que o que nós chamamos de Canal da Mancha e os franceses chamam de La Manche, os britânicos chamam simplesmente de English Channel. E voltei curioso para saber o porquê da Mancha. Alguém me responde? Cambridge University Cambridge é a mais antiga universidade inglesa depois de Oxford e responsável pela emissão do Certificado de Proficiência em Inglês para falantes de inglês não nativos que obtenham aprovação no rigoroso exame. Este certificado, assim como o da Universidade de Michigan, nos EUA, dá aos seus portadores o direito à dispensa de disciplinas de inglês nos cursos de Letras das faculdades, por força de autorização do Conselho Nacional de Educação.
Por tudo isto é natural que, ao chegar na cidade de Cambridge, todo turista queira conhecer o campus ou sede da renomada University of Cambridge e não foi diferente comigo. Chegando lá descobri que tal campus não existe, o que existe, na verdade, são os prédios de 31 faculdades (King´s College, Queen´s College, St John´s College e outras) autônomas que são afiliadas à Universidade de Cambridge. Nestas faculdades é que estão os prédios de aulas, alojamentos e suas administrações e da universidade de Cambridge a gente vê apenas alguns prédios administrativos que são os departamentos. Capitalismo selvagem Passando na porta de um mercado da rede Tesco em Londres presenciei um sujeito se revirando no chão, na calçada à frente do mercado, como se estivesse tendo um ataque epilético. Em poucos minutos, funcionários do mercado saíram à rua, um deles fez uma ligação no celular e em poucos minutos a polícia chegou e prestou socorro ao cidadão. Meses atrás, aqui em Salvador, eu almoçava no Extra quando um cidadão teve ataque semelhante, não na calçada, mas dentro do mercado, logo após ter passado pelo caixa. Os funcionários contemplavam a cena, sem nada fazer, mesmo os supervisores que vieram ver o que acontecia, até que um cliente que também almoçava tomou a iniciativa de acionar a SAMU, enquanto um engraxate adolescente aproximava-se do homem e, com a melhor das intenções, tentava exorcizá-lo em nome de Jesus. Pareceu-me que aqui a empresa só dá atenção ao cidadão quando ele está comprando. L´amour, toujours l´amour Entrei num trem do metrô em Londres, sentei ao lado de uma jovem que estava ao celular bem junto à porta à minha direita. Logo percebi que o idioma do diálogo telefônico não era inglês. Não pude deixar de escutar a minha língua falada bem do meu lado. A moça bonita queixava-se a um ex-namorado que nunca o traiu enquanto estiveram juntos, que sempre quis ser feliz com ele, mas ele não quis etc. Pergunto-me se ela teria tido aquela conversa num local público num metrô do Rio de Janeiro ou São Paulo, onde todos falam português. Acho que não e me senti como o padre no confessionário, compartilhando segredos até que, numa certa estação, ela saiu pela porta do lado oposto ao que estava sentada. Não sei se na saída ela chegou a ver a bandeira do Brasil estampada na aba do meu boné...
Delicadeza francesa Em Londres, quando o metrô chega na estação é comum a gravação que informa o nome da estação repetir o alerta “Mind the Gap” para prevenir os passageiros quanto ao desnível entre o trem e a plataforma. Nos EUA a expressão mais comum é “Watch Your Step”, tão lacônica e pragmática quanto a britânica. Em Paris, entretanto, a frase é mais longa e avisa aos passageiros que tenham atenção no caminhar, ao descerem do trem. Pura finesse. Jus d´or...ange Com o Euro os preços na Europa estão pela hora da morte. Duas pessoas da Itália me falaram lá que os preços foram todos majorados pouco antes da conversão o que gerou perda no poder de compra dos salários deles, imagina dos nossos que temos uma moeda em desvantagem cambial. Numa lanchonete em Paris, cansado de tanto suco de caixinha, eu vi um cartazete anunciando suco de laranja espremido na hora e pedi. Era um copo de, no máximo, 200 mil e me custou 4 Euros que equivalem a 12 reais!!! Aí vai um trocadilho, como suco de laranja em francês é Jus d´orange e qualquer coisa “de ouro” em francês se diz “d´or” fiquei achando que tomei suco d´orange a preço d´or. Condicionamento Nunca fui um digitador exímio e sempre achei que sempre olhava para cada letra do teclado antes de digitá-la, mas descobri que não é bem assim. Na Europa, dei de cara com os teclados denominados AZERTY que, diferente dos nossos, denominados QWERTY, aqueles têm a seqüência AZERTY na fila superior, onde o nosso tem QWERTY e tem QSDFG onde no nosso tem ASDFG. Bastou esta pequena diferença para o tempo de digitação aumentar significativamente porque se eu escrevesse, por exemplo, “Cada dia descubro algo novo aqui”, sairia Cqdq diq descubro qlgo novo qqui. Foi aí que percebi que meus dedos já buscam as letras nos lugares costumeiros quando eu digito. Carro super compacto
A nova sensação automobilística na Europa é um carrinho de apenas 02 lugares chamado SMART. Vi vários novíssimos nas ruas e até assisti a uma matéria na TV falando das vantagens do super compacto que também foi submetido a um teste de aprovação popular nos EUA. Na terra do Tio Sam, os americanos, ainda meio acostumados a carros grandes, demonstraram certo receio em se aventurarem no “brinquedinho” nas highways repletas de caminhões. Coincidentemente, na revista de bordo da TAM, no vôo de volta, havia uma reportagem que falava do Romi-Isetta, um super compacto fabricado no Brasil entre os anos 56 e 61, sob licença da italiana Iso. Táxi ecológico irlandês
Em Dublin, na Irlanda, existe o Ecocab (táxi ecológico). A novidade foi lançada em abril deste ano e trata-se de um triciclo com uma carenagem de cobertura para maior conforto dos passageiros que viajam acomodados em um banco logo atrás do selim do condutor. A empresa que explora o serviço salienta as vantagens do seu táxi não poluente e do design que atrai a atenção de quem o vê. Serviços de guerra terceirizados Durante os seis dias que passei em Paris uma das notícias mais repetidas no noticiário da TV tratava do pedido de retirada do Iraque, pelo governo local, do pessoal da Blackwater. O motivo era o fato de o pessoal da Blackwater, uma empresa americana de segurança privada, ter protagonizado episódios de violência armada contra civis iraquianos. Conforme uma ampla reportagem apresentada na TV, a Blackwater dispõe de um campo de treinamento nos EUA, onde adestram tropas geralmente formadas por aventureiros não americanos para “serviços de segurança”. Neste caso específico, a empresa foi contratada pelo governo americano para atuar no Iraque fazendo a defesa dos diplomatas e dos trabalhadores envolvidos em obras de reconstrução do país. Os manuais de administração de empresas ensinam que a terceirização pode ser vantajosa (menor custo) e que não se terceiriza o negócio-fim (também chamado “core business”) do empreendimento e sim os serviços auxiliares. À visão pragmática americana não escapou esta lição nem quando o “negócio” é a guerra, inclusive porque nisso eles “economizam” a vida dos soldados do US Army. O problema é que no momento em que se atribui a não-militares aventureiros a função de fazer segurança armada num país em estado de guerra, os abusos de autoridade e poder tendem a acontecer com mais freqüência. Show de bola feminino No dia 15/09 resolvi pegar o TGV (Train à Grande Vitesse ou Trem de Alta Velocidade) francês e ir conhecer Dijon, famosa mundialmente pela mostarda. Passei o dia por lá e, à noite, ao retornar a Paris cansado, jantei e fiquei no quarto do hotel vendo TV. Foi gratificante assistir aos rasgados elogios feitos pela mídia às meninas do futebol brasileiro que haviam goleado por 4 x 0, na manhã daquele sábado, o time da China, que sediava a Copa mundial. As nossas meninas tanto fizeram bonito que terminaram como vice-campeãs da copa na qual se sagrou bicampeã a Alemanha. *Administrador, reside em Salvador. E-mail: acferreira@atarde.com.br Leia também do mesmo autor o artigo Uma visão pessoal, sobre relações internacionais, no qual ele aborda outros aspectos dessa mesma viagem. |