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educação Nossa língua portuguesa Em defesa da reforma ortográfica Por Antônio Carlos Silva Ferreira*
Está prevista uma Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, a vigorar em 2009. Em decorrência da cobertura da mídia sobre o assunto surgem dissensões e uma das mais conhecidas circula na internet por e-mail e critica a reforma. A mensagem “enxerga” mil dificuldades na aplicação da Reforma e questiona até que ponto os brasileiros e portugueses falam de fato a mesma língua. Não enxergo nenhum motivo consistente para ser contra a reforma e vários para ser a favor. De acordo com a Folha On Line, a mudança alcança entre 0,5 e 2% do vocabulário brasileiro, o que, convenhamos, não deve causar nenhuma catástrofe ortográfica. Entretanto, poderá trazer diversos benefícios se considerarmos que, embora cerca de 210 milhões de pessoas sejam falantes do idioma, o fato de ter duas grafias oficiais dificulta o seu reconhecimento como um dos idiomas oficiais da ONU. Pode parecer um motivo fútil, mas no complexo emaranhado das relações internacionais, a língua é parte da expressão cultural do Poder Nacional, seja de um país ou de um bloco como a Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Como exemplo do que pode uma língua temos o clássico 1984, de George Orwell, no qual a modificação do idioma, com a criação da Novilíngua, serve como instrumento de manipulação e controle do povo por parte do governo autoritário que tinha no “Big Brother” a sua figura emblemática. Consta que algumas publicações têm sua circulação retardada entre os países da CPLP porque são necessárias duas versões. A partir da unificação do idioma, será economicamente mais viável, para os editores, publicar livros numa única versão que será vendida em todos os países onde o português é língua oficial, sem necessidade de adaptações, como acontece com os idiomas inglês e espanhol. Podemos vislumbrar, com isso, os benefícios da aceleração da troca de conhecimentos e da cooperação técnico-científica. Alega a mensagem “do contra” que as pessoas terão dificuldade em se adaptar às mudanças. Eu estava em pleno período escolar, em 1972, quando ocorreu a última mudança que promoveu uma aproximação das ortografias de Brasil e Portugal. Não tenho na memória lembrança de transtornos significativos, assim como tenho certeza de que não haverá nada alarmante desta vez. As gerações que vão adentrando as escolas já vão sendo instruídas no novo paradigma e as mudanças vão sendo gradual e naturalmente absorvidas pelos novatos e pelos já em curso. Como bem disse um assessor da CPLP: “Não se podem esperar resultados imediatos.” Entre os críticos da mudança está o professor Cláudio Moreno, que mantém um blog da língua portuguesa e, em resposta a uma dúvida sobre acento diferencial, põe a culpa na reforma de 1971 e desabafa: por essas e por outras, minha cara Elisa, é que sinto vontade de esganar qualquer um desses inconseqüentes que defendem uma nova reforma ortográfica! Eles realmente não sabem o que fazem; só alguém completamente divorciado da realidade de nosso pobre país pode pensar em tamanha asneira! Com todo respeito ao professor, penso que atribuir a deficiência cultural do país a uma reforma ortográfica ocorrida há mais de 35 anos é um exagero, se não for um equívoco. Existem outros fatores que contribuíram para a decadência do ensino brasileiro e que fizeram com que as pessoas leiam mal e escrevam pior ainda, hoje em dia. Observo as pessoas escreverem “com migo” “concerteza”, “voçê”, “estrupo”, comentarem que a “viajem” foi ótima e não me consta que estas palavras tenham sido escritas dessas formas antes de alguma reforma ortográfica. Como já denota o adjetivo ortográfica que qualifica a atual reforma, não haverá mudança de pronúncia, somente de escrita. Na prática desaparece o trema (freqüência, seqüência, etc.) que muitas pessoas já esquecem na escrita à mão. No caso do Word, o corretor ortográfico trata de lembrar ao sujeito a falha. O acento circunflexo também será extinto em algumas situações: dêem, crêem, lêem, vêem e seus decorrentes, abençôo, vôo, enjôo. Mudam algumas regrinhas de hifenação, mas mesmo atualmente acho pouco provável que um cidadão comum de formação mediana saiba de cabeça todas as regras de hifenação. Vocês podem estar questionando qual a vantagem de alterar as regras de hifenação se o cidadão nem as domina de todo? A vantagem é que a ortografia oficial seguida pelos livros deve seguir as regras e a mudança visa torná-las uniformes, seja num livro editado aqui ou em Portugal. Caem ainda o acento agudo em ditongos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas como jibóia e idéia e o acento que distingue pára (verbo) de para (preposição). Os portugueses passarão a escrever ato, ação, ótimo, adoção, erva e úmido em lugar das atuais grafias acto, acção, óptimo, adopção, herva e húmido, adotadas em Portugal. Como dissemos antes, resolve-se a questão das edições de livros que são publicados atualmente em duas versões (Brasil e Portugal). Temos ainda a incorporação das letras k, w e y ao alfabeto que passa a ter 26 letras. Incorporação que eu prefiro chamar de oficialização porque, na verdade, o teclado de computadores em padrão ABNT, que é a norma brasileira, já traz tais letras; no nosso dia-a-dia já estão incorporados o kiwi, a conexão wireless, o Kbyte, dentre outras palavras com as três letrinhas. Já nos anos 50, o cantor Jackson do Pandeiro tornava a letra y famosa no xote Sebastiana numa estrofe que dizia “e gritava a, e, i, o, u, ipsilone”. Uma outra alegação constante é a de que o nosso idioma nada tem a ver com o de Portugal. E que por isso cabia termos nossa própria língua e a correspondente gramática da língua brasileira. Defender a instituição de um idioma chamado Brasileiro me parece mais um arroubo de patriotismo do que uma tese lingüística. Por que se formos levar a “ferro e fogo” as diferenças vamos ter um dialeto baianês, um gauchês, amazonês, etc. E me valho da comparação com outras línguas para a minha argumentação. Nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, África do Sul, Índia e Jamaica, só para citar alguns poucos países, fala-se inglês. Experimente ouvir as falas de nativos de cada um destes países e você poderá pensar que são idiomas distintos. Os americanos inscreveram nas cédulas do dólar que confiam em Deus (In God We Trust), mas o jamaicano Bob Marley quando quis dizer que Deus proveria o pão na sua canção “Is This Love”, ele cantava Jah provides the bread. Nos Estados Unidos, calçada, metrô e caminhão se escreve sidewalk, subway e truck, na Inglaterra temos pavement, underground e lorry para as mesmas coisas. Center, color e organize, escrevem os americanos; centre, colour e organise escrevem os britânicos. As agências de intercâmbio oferecem opções de estudo de inglês nos EUA, na Inglaterra, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia e até na Ilha de Malta, mas na hora de difundir o idioma a gente não vê um curso anunciar que dá aulas de “inglês da Nova Zelândia”. A mesma coisa se pode dizer do idioma espanhol. Junte um espanhol, um chileno e um argentino e você ouvirá nuances bem distintas de espanhol. Imagina se juntarmos falantes dos diversos países da América Latina. Na Venezuela, onde me preparei para fazer o exame de proficiência da língua espanhola, a professora nascida e criada na terra de Hugo Chávez algumas vezes tinha dificuldades em entender e me explicar expressões em espanhol que constavam nos cadernos de provas de anos anteriores. Algumas ela deduzia, outras ela se desculpava por não saber explicar e dizia que eram coisas tipicamente da Espanha que em outros países hispânicos nem sempre faziam sentido. Coger é um verbo espanhol que significa pegar, colher, escolher, agarrar, mas não ouse falar o palavrão em Buenos Aires porque lá é a forma mais chula e popular do verbo copular. Ainda que se use às vezes o termo castelhano, os hispânicos estudam pela gramática da língua espanhola, os cursos anunciam “Venha aprender Espanhol”, mas nenhum deles anuncia “Venha aprender Espanhol do Panamá”. No caso do idioma francês temos similar situação, a ponto de os belgas e suíços chamarem de septante, huitante e nonante os números setenta, oitenta e noventa que a maioria dos franceses chama de soixante-dix, quatre-vingt, e quatre-vingt-dix. Há uma aparente contradição quando digo que há tantas diferenças na língua inglesa e na espanhola e ao mesmo tempo admito que eles não fazem reformas para unificar o idioma num só padrão. A contradição só é aparente porque, no caso dos falantes daqueles idiomas, os fatos demonstram que eles, apesar das diferenças gritantes, em nome da sinergia e dos ganhos advindos da unidade lingüística, se ajustam na diferença, estudam pela mesma gramática e todos assumem que falam o mesmo idioma. No nosso caso, existe um ânimo separatista, que considero equivocado, que nutre as opiniões contra a reforma e em favor de um distanciamento do português e da institucionalização de um idioma brasileiro que se supõe existente. Neste sentido, vejo a aproximação do português de Brasil e de Portugal como benéfica a todos os países da CPLP, sob todos os aspectos aqui já discorridos. E entendo a reforma como um mecanismo de consolidação dessa idéia, um movimento em sentido diametralmente oposto ao apartheid lingüístico que poderá nos convencer de que, assim como os falantes de inglês, os de espanhol e os de francês, podemos alcançar a unidade na diversidade, com saldo altamente positivo. *Administrador de Empresas. Mora em Salvador. E-mail: acferreira@atarde.com.br |