Webjornal - Mensal  - Edição 88 - Aracaju,  26 de março a 30 de abril de 2006
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Conto

O aconchego

Por Alvaro Giesta*

Não olharei mais este relógio. É preciso, nesse momento,
subverter o poder do tempo. Encontrar dentro de mim
os restos daquela força que se perdeu.

(Jeová Santana
, em "A Ossatura")

"Ajuda-me... por favor, ajuda-me!" – suplicava-lhe ela, num quase inaudível murmúrio, enquanto se entregava, de alma carente, na ternura de dois beijos, sentada a seu lado à beira do Zêzere que logo se encontra, a dois passos dali, num abraço apertado com o Tejo.

O dia não era o melhor. Pesadas nuvens pairaram, toda a manhã, sobre as suas cabeças desde a entrada na cidade de Tomar, onde se encontraram pela primeira vez, até ao Castelo de Almourol, passeio (quase) pré-estabelecido. Aliás, foram surpreendidos por uma forte bátega de água nesse seu primeiro encontro. Costuma dizer-se, a propósito de enlaces matrimoniais: "casamento molhado, casamento abençoado!" – mas aquele encontro nem para namoro fora perspectivado, muito menos para noivado ou outra coisa qualquer. Um encontro que nem sequer teria gestação quanto mais parto desejado... Talvez fosse, mesmo, um aborto à nascença antes de ser concebido!

O ambiente, entre ambos, conquanto não parecesse, era frio... Quase tão frio como as gotas de chuva que, de ora em vez, caíam lá de cima, grossas e aos trambolhões, desajeitadas, e rolavam sobre as suas cabeças despenteadas, onde a marca da idade se reflectia há muito.

No rio, naquele estreito braço de rio, onde se via o fundo e nele reflectido a silhueta do castelo, passeava-se um grupo de patos marrecos, distraídos e alheios aos dois transeuntes. Mais abaixo, numa brincadeira de crianças, meio aconchegados à protecção oferecida pela carcaça dum velho barco que teimava ter ainda, metade de si mesmo, dentro de água, um bando de mais de uma dezena de patos filhotes, para os quais ela lhe chamou a atenção, numa exclamação, quase de criança, no seu já avançado meio século de vida. Com uma alegria incontida no seu olhar de mulher-menina, como se fosse aquela a primeira descoberta da sua vida!

Exactamente nesse momento, ele – dado sempre a reflexões filosóficas de que ela nunca se chegou a aperceber – reflectia nisso mesmo; na observação – talvez mania de poetas – dos patos adultos que se deixavam ir ao sabor da corrente, comparando-se-lhes, sem a coragem necessária para fazer um exame auto-crítico de si mesmo e dos seus actos e parar por ali, naquele exacto momento, aquilo que jamais poderia ser o que quer que fosse. Por isso, e sem se aperceber disso – ou disso se não querer aperceber – deixou-se ir na corrente, distraído e absorto, e foi parar à margem do Zêzere, embebedar-se de esperança e dando esperança a quem se quisesse embebedar dela.

A vontade deles, de almas desarrumados, negava-se a pôr cobro à insensatez. Mãos nas mãos, dedos entrelaçados, num silêncio mudo e comprometedor que teimava em dizer mais que um livro aberto, continuavam presos, como íman, à margem do rio que banha aquela terra por onde – dizem – Camões passou. Numa entrega, sem explicação racional, os lábios de ambos procuravam-se, avidamente, a intervalos descompassados. Era a força do momento inexplicável, a necessidade de transformar o impossível – mesmo, transformar o intransformável – sem a busca de qualquer manuseamento erótico, que algo, mais forte que a razão e que o coração também não saberia explicar, que os levava a selar promessas mudas, jamais feitas, nesses beijos de ansiedade e de medo incontidos. Quase não havia o uso das palavras. E, se as havia, ficavam-se por frases incompletas qual fumo dos cigarros que constantemente fumava e se diluía no éter, como o nada. O silêncio, mesmo assim, deixava nada por dizer. Mais importante que tudo, no momento, era o aconchego dos dois corpos naquele absolutamente nada.

* Policial reformado e fotógrafo amador por opção e convicção, residente em Portugal. Sites:
http://www.pbase.com/alvarogiesta
http://www.1000imagens.com/autor.asp?idautor=100

                                 

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