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Economia
Vôo cego
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
Há
alguns fiz uma visita técnica a um dos mais movimentados aeroportos do
Brasil. Na torre de controle fomos recebidos pelo supervisor dos
controladores de vôo, que nos alertou para que não interferíssemos na
rotina. Poderíamos observar e, em caso de dúvida, as perguntas poderiam
ser dirigidas a ele, fora dali.
Não
era um horário de pico, assim, nem todos os monitores estavam ativos. Os
controladores acompanhavam atentamente as telas, enquanto um funcionário
reserva os observava.
Quando
saímos o supervisor foi questionado sobre: remuneração dos controladores
de vôo, estresse da função, etc. A resposta sobre o salário surpreendeu
todos: era muito baixo!
Sobre
o estresse: nosso anfitrião contou que havia acompanhamento psicológico,
pois, além do desgaste funcional, os controladores também estavam sujeitos
aos mesmos fatores externos que afetam todos os simples mortais. Por conta
disso um dos protocolos adotados na torre, em situações limites, era: se
um controlador titubear, “travar” ou demonstrar atitude que possa
prejudicar uma operação, o supervisor e o reserva podem removê-lo à força,
se preciso, para assumir sua posição. Em suma: não há margem para erros!
Para
evitá-los, ainda, padrões internacionais recomendam, no máximo, 14
aeronaves por controlador. Mas, algumas fontes afirmam que em certos
aeroportos brasileiros eles chegam a acompanhar várias dezenas de aviões.
Por isso mesmo é de estranhar que a questão dos controladores de vôo tenha
sido tratada de forma tão inconseqüente nos últimos anos.
O
acidente entre o Boeing da Gol e o Legacy, no final de 2006, foi a trágica
gota d’água de uma tragédia anunciada, e prelúdio do caos que instalou-se,
desde então, na aviação civil brasileira.
A
denúncia de “pontos cegos” no espaço aéreo brasileiro; as possíveis
conclusões da investigação do acidente de 2006; a defasagem tecnológica do
sistema; as atitudes tardias e intempestivas dos responsáveis (?) pelo
setor... Tudo contribuiu para a greve dos controladores civis, que
configuraria motim, no caso dos militares.
Infelizmente, parece que foi preciso dela, das imagens patéticas dos
aeroportos, da suspensão de vôos dos EUA para o Brasil, para que
acordassem.
É como
se estivéssemos num vôo cego em meio a uma tempestade. Santos Dumont deve
estar dando “loops” escarpados no túmulo...
É
preciso, urgentemente, restaurar a confiabilidade, a normalidade e a
segurança para todos os usuários desse modal de transporte! E sem novas
taxas, por gentileza, pois é um absurdo penalizar as vítimas.
Se
para isso forem necessários investimentos, que se invista! Se for
necessário punir alguém, que se puna! Só não esqueçam de punir, também,
quem esperou que a m... fosse jogada na turbina, para reconhecer a
gravidade do problema! Mas, só punição não resolve a situação: A solução
requer competência e objetividade, e não “caça as bruxas”! Aliás, creio
que nem elas estão se arriscando a pilotar suas vassouras no espaço aéreo
brasileiro, na atual “desconjuntura”...
*Escritor, engenheiro e professor
universitário,
autor do livro Sobre Almas e Pilhas.
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