Webjornal - Mensal  - Edição 100 - Aracaju, 08 de abril a 06 de maio  de 2007
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Economia

Vôo cego

Por Adilson Luiz Gonçalves*

Há alguns fiz uma visita técnica a um dos mais movimentados aeroportos do Brasil. Na torre de controle fomos recebidos pelo supervisor dos controladores de vôo, que nos alertou para que não interferíssemos na rotina. Poderíamos observar e, em caso de dúvida, as perguntas poderiam ser dirigidas a ele, fora dali.

Não era um horário de pico, assim, nem todos os monitores estavam ativos. Os controladores acompanhavam atentamente as telas, enquanto um funcionário reserva os observava.

Quando saímos o supervisor foi questionado sobre: remuneração dos controladores de vôo, estresse da função, etc. A resposta sobre o salário surpreendeu todos: era muito baixo!

Sobre o estresse: nosso anfitrião contou que havia acompanhamento psicológico, pois, além do desgaste funcional, os controladores também estavam sujeitos aos mesmos fatores externos que afetam todos os simples mortais. Por conta disso um dos protocolos adotados na torre, em situações limites, era: se um controlador titubear, “travar” ou demonstrar atitude que possa prejudicar uma operação, o supervisor e o reserva podem removê-lo à força, se preciso, para assumir sua posição. Em suma: não há margem para erros!

Para evitá-los, ainda, padrões internacionais recomendam, no máximo, 14 aeronaves por controlador. Mas, algumas fontes afirmam que em certos aeroportos brasileiros eles chegam a acompanhar várias dezenas de aviões. Por isso mesmo é de estranhar que a questão dos controladores de vôo tenha sido tratada de forma tão inconseqüente nos últimos anos.

O acidente entre o Boeing da Gol e o Legacy, no final de 2006, foi a trágica gota d’água de uma tragédia anunciada, e prelúdio do caos que instalou-se, desde então, na aviação civil brasileira.

A denúncia de “pontos cegos” no espaço aéreo brasileiro; as possíveis conclusões da investigação do acidente de 2006; a defasagem tecnológica do sistema; as atitudes tardias e intempestivas dos responsáveis (?) pelo setor... Tudo contribuiu para a greve dos controladores civis, que configuraria motim, no caso dos militares.

Infelizmente, parece que foi preciso dela, das imagens patéticas dos aeroportos, da suspensão de vôos dos EUA para o Brasil, para que acordassem.

É como se estivéssemos num vôo cego em meio a uma tempestade. Santos Dumont deve estar dando “loops” escarpados no túmulo...

É preciso, urgentemente, restaurar a confiabilidade, a normalidade e a segurança para todos os usuários desse modal de transporte! E sem novas taxas, por gentileza, pois é um absurdo penalizar as vítimas.

Se para isso forem necessários investimentos, que se invista! Se for necessário punir alguém, que se puna! Só não esqueçam de punir, também, quem esperou que a m... fosse jogada na turbina, para reconhecer a gravidade do problema! Mas, só punição não resolve a situação: A solução requer competência e objetividade, e não “caça as bruxas”! Aliás, creio que nem elas estão se arriscando a pilotar suas vassouras no espaço aéreo brasileiro, na atual “desconjuntura”...

*Escritor, engenheiro e professor universitário, autor do livro Sobre Almas e Pilhas.

                                 

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