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Crônica
O velho
Chico
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
A vida do
brasileiro é repleta de velhos Chicos.
Há o Velho Chico,
rio bem brasileiro, que se deixa navegar por carrancas, mas não tem medo
de cara-feia. Pelo contrário, sorri e dá vida e frutos aos ribeirinhos.
Flui nas veias do Nordeste!
O lendário Chico, o
"Rei", príncipe africano feito escravo, que com afinco e esperteza
conquistou a liberdade de seu povo, e o respeito de seus algozes, na Vila
Rica de outrora.
O Chico Mineiro,
boiadeiro e violeiro, velho e inseparável companheiro de viagem,
imortalizado nas vozes de Tonico e Tinoco.
Tinha, também, o
velho e saudoso Chico, o Xavier, que espalhava sua luz espiritual, desde
Uberaba, a provar que Minas Gerais pode ter tesouros bem mais valiosos
sobre a terra, que debaixo dela.
O Chico "Rei da
Voz", o Alves, que também era "Viola"! Partiu, não tão velho, nos anos de
1950, vítima de um acidente, de carro e do destino.
O Chico da Amazônia,
o Mendes, que não morreu de velhice, mas, por causa do velho problema da
terra.
Todos, seguramente,
deram muito mais do que receberam, pelo que, com certeza contam com as
bênçãos de outro Chico, o santo de Assis, italiano de nascimento, mas
universal, pelo amor.
Mas há mais um
Chico, que já passou dos sessenta, embora custe a acreditar. Nasceu no
berço da cultura, cresceu no universo das artes, eruditas e populares, e
nelas continua a deixar sua marca inconfundível.
Diz a lenda que, um
dia, num distante 1965, Chacrinha, o "Velho Guerreiro", o "buzinou"!
Também acharam que Einstein era "limitado", no princípio... Mas ele também
mostrou ser guerreiro e não desistiu da luta. Primeiro, cronista, e, já,
compositor, foi num Festival da Record, em 1966, que eu "estava à toa na
vida", quando, no início, Nara Leão, e, depois, ele mesmo, defenderam "A
Banda" contra a "Disparada", de Vandré. A contenda ficou empatada, mas não
a MPB, que viu o início de uma de suas mais profícuas safras de artistas,
e a consolidação de um de seus maiores expoentes: Um jovem tímido e
simples; de voz pequena, mas alma imensa e intensa; predestinado, por um
"anjo safado, um chato dum querubim", a ser tão bom assim!
Culto, não se deixou
cair na armadilha da arrogância. Buscou o povo em vez de distanciar-se
dele na intelectualidade vazia. Como Villa-Lobos buscou na erudição
instrumentos para expressar a arte popular e o amor por seu país, mesmo
quando estava distante dele, por força da "força".
Crônica, música,
teatro, cinema, literatura... Parece não haver limites para a sua verve! E
sempre com presença marcante, com ou sem suas maravilhosas parcerias:
Vinícius, Tom, Francis Hime, Ruy Guerra, Paulo Pontes, Edu Lobo, Leonel
Paiva, "Julinho da Adelaide" ("Você não gosta de mim, mas sua filha
gosta!")... Gozador! Se fossem contemporâneos com certeza também comporia
com Noel Rosa e Ary Barroso!
Esse Chico, o
Buarque, é "de Hollanda"; viveu exilado na Itália, mas poucos são tão
brasileiros em atos, palavras e músicas como ele! Sua arte é uma exaltação
pura, apaixonada e sem censura à cultura nacional, mesmo quando "Joga m...
na Geni!". Antes ele, musicalmente, nela, que outros, politicamente, no
Brasil...
É... Esse Chico de
velho não tem nada! Sua eterna juventude só pode ser explicada pela Teoria
da Relatividade, do mesmo Einstein que também foi "buzinado" no início de
carreira: O tempo passa, mas ele parece estar sempre adiante dele!
*Escritor, engenheiro e professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA),
cursando Mestrado em Educação - UNISANTOS,
autor do livro
Sobre Almas e Pilhas
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