Webjornal - Mensal  - Edição 94 - Aracaju, 15 de outubro a 12 de novembro de 2006
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Pais e Filhos

Má educação

Por Adilson Luiz Gonçalves*

Somos uma família básica: casal e um filho. Digamos que essa é uma fórmula que tem tudo para dar certo ou errado, dependendo dos pais.

Para alguns, um elogio ao filho é uma vitória pessoal, mas uma crítica é culpa dele ou de algum parente, normalmente do cônjuge... Ocorre que os filhos refletem o ambiente e a forma como são educados, inclusive nos nossos traços mais negativos. Antes de educar, portanto, é preciso corrigir a si próprio.

Estou longe de ser um modelo de pai, mas a atuação de alguns "colegas de trabalho" desonra de tal forma a "profissão", que merecia advertência verbal, por escrito, suspensão e, no limite, cassação da “licença”.

Acredito que ser pai envolve um tanto de amor, outro de renúncia, alguma disciplina e bastante autocrítica. Egoísmo e estupidez não acrescentam nada à educação dos filhos! Infelizmente, existem pais que sob o pretexto de educar usam vários tipos de violência psicológica e física. Isso é educação ou adestramento?

Outros transformam seus filhos em vítimas inocentes de seus traumas pessoais e desgostos afetivos ou profissionais. Como não têm coragem para enfrentá-los e resolvê-los, exercem sua “autoridade” para descontar nos filhos. Esses são duplamente incompetentes, além de covardes! Deveriam estar criando gado em vez de filhos e mesmo assim sob supervisão rigorosa dos órgãos competentes.

Vi, recentemente, um lamentável exemplo dessa espécie de “pai”. Estávamos num restaurante quando uma família semelhante a nossa ocupou a mesa ao lado. Enquanto o pai foi se servir, a mãe conversou em tom normal com o filho, que aparentava não mais que seis anos, e seguiu o pai.

Tudo parecia normal até que o pai, ao retornar, iniciou uma cena perturbadora. Quando o filho disse que não estava com fome, ele passou a gritar, alterado e agressivo, que ninguém mais o suportava. Não satisfeito, ergueu-se da cadeira e ameaçou desferir-lhe um tapa de tal potência, que se o tivesse consumado teria provocado a reação de todos os que já estavam atentos ao seu comportamento. Ele, no entanto, agia como se não houvesse ninguém à volta. Temo pensar no que poderia ter feito se de fato não houvesse...  O menino permaneceu estático, assustado e indefeso, num choro contido.

É possível amar um pai assim? Como o amor é cheio de segredos, talvez sim...

Não sei quantos motivos o menino possa ter dado. Também não sei quanto tempo levou para que ele, tão jovem, se tornasse “insuportável” para seus parentes. Mas bastaram pouquíssimos minutos para demonstrar o quão insuportável um pai pode ser.

O que pode passar pela cabeça de uma criança quando um ente tão querido, diante de várias pessoas desconhecidas, em vez de protegê-la proclama, cheio de ódio, que ninguém mais a agüenta? Será que ela se sentirá segura para contar um problema pessoal ou pedir ajuda antes que seja tarde demais? Ela não correrá o risco de buscar nas drogas ou em “tribos” uma compensação para o que não encontra em casa? 

A providência divina pode protegê-la disso, mas quem garante que quando adulta ela não será uma versão "aprimorada” dessa truculência paterna?

Onde há medo não pode haver amizade! Constrangimento público, ameaças e agressões não têm absolutamente nenhum valor edificante ou educativo para quem quer que seja. Quando muito só servem para demonstrar a má educação e estupidez de quem os pratica.

Carinho, respeito, confiança e diálogo sempre serão as melhores alternativas em qualquer circunstância ou idade.

*Escritor, engenheiro e professor universitário (UniSantos e Unisanta), aAutor do livro: "Sobre Almas e Pilhas"

                                 

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