Webjornal - Mensal  - Edição 96 - Aracaju, 10 de dezembro de 2006 a 01 de janeiro de 2007
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Pensata

Passagem do tempo

Por Adilson Luiz Gonçalves*

Je n’ai pas vu le temps passer” (Eu não vi o tempo passar), diz uma antiga canção de Charles Aznavour.

 

Normalmente quando alguém pensa nisso é com a sensação de tempo não-vivido, mal vivido ou desperdiçado. Mas a noção de tempo é de extrema complexidade, relativa como Einstein teorizou: Quando estamos felizes ele parece passar depressa, mas a sensação é a mesma quando estamos aflitos ou ansiosos. No entanto, ele beira à eternidade quando esperamos avidamente por dias melhores; ou volta a “passar” vertiginosamente quando saturamos nossas vidas com trabalho insano e atividades de toda espécie, quais narcóticos a nos distrair da falta de sentido que damos à vida, ou que não encontramos nela.

 

Esse derradeiro modo de encarar o tempo destrói nossa sensibilidade, nossa humanidade. As pessoas viram objetos, números; os objetos tornam-se mais importantes do que elas, mas todos perdem valor a qualquer momento em nome de um “novo” que não necessariamente inova. O ritmo desenfreado e impulsivo faz com que o tempo que não se vive, ou que se vive mal “flua” mais rápido, por inércia, sem brilho, sem detalhe, sem memória, sem paixão, sem sentido...

 

De repente a gente pára, olha em torno, olha para si, no espelho, e para dentro, na alma, e percebe que não viu o tempo passar, não porque se quis que ele passasse depressa, mas porque esteve alheio a ele, ou a espera passiva de dias melhores. Esses podem ter sido tempos cheios de sensações, mas sem sentimentos. Tempos que não nos dão a leveza da vida em plenitude, mas o peso do vazio existencial. Tempos que nos esvaem numa induzida vertigem materialista. Vertigem que começa com coisas, depois se estende a pessoas. Vertigem que substituirá amigos por interesses...

 

Então, sem que se perceba, todos os prazeres terão sido experimentados, sem limites - às vezes exacerbados artificialmente -, mas sem nenhum vestígio de amor sincero; os sons da natureza serão inaudíveis; as pessoas amadas serão intocáveis; os aromas e gostos serão modas... No limite, o dia presente tornar-se-á uma vaga esperança do dia futuro, que nunca virá porque não é construído; porque quando chegar será mais um dia presente, que se quer passado...

 

Quem vive assim, quando pressente o “risco” do comprometimento o repele, com medo de perder a liberdade de provar de tudo o que o convenceram que vida oferece de “melhor”. Mal sabem que assim podem estar desperdiçando o que a vida tem realmente de melhor, por medo de ousar e sofrer.

 

Quem aceita viver assim se transforma em mais uma engrenagem da máquina de moer vidas do mercado, ou uma peça do relógio do tempo perdido, que o atrasar dos ponteiros nunca conseguirá resgatar.

 

Deus nos deu nervos para sentir, e não é “cortando-os” que estaremos livres das dores e aflições do mundo. No mais, se isto nos poupa da dor, também nos priva dos sentidos, e tudo isso faz com que não vejamos o tempo passar ou, pior, que desejemos que ele passe depressa. Alguns até decidem interrompê-lo...

 

O tempo não merece isso!

 

É preciso dar graças à vida e tornar cada dia único, memorável! Material, sim, mas principalmente humano e espiritual, para que toda vez que pensarmos na vida, tenhamos a certeza de que ela está sendo bem vista, com todos e em todos os sentidos.

 

Então: “Carpe diem”, colegas!

 

*Escritor, engenheiro e professor universitário

                               

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