
Webjornal - Mensal - Edição
96 - Aracaju, 10 de dezembro de
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Pensata Por Adilson Luiz Gonçalves* “Je n’ai pas vu le temps passer” (Eu não vi o tempo passar), diz
uma antiga canção de Charles Aznavour. Normalmente quando alguém
pensa nisso é com a sensação de tempo não-vivido, mal vivido ou desperdiçado.
Mas a noção de tempo é de extrema complexidade, relativa como Einstein
teorizou: Quando estamos felizes ele parece passar depressa, mas a sensação é
a mesma quando estamos aflitos ou ansiosos. No entanto, ele beira à
eternidade quando esperamos avidamente por dias melhores; ou volta a “passar”
vertiginosamente quando saturamos nossas vidas com trabalho insano e
atividades de toda espécie, quais narcóticos a nos distrair da falta de
sentido que damos à vida, ou que não encontramos nela. Esse derradeiro modo de
encarar o tempo destrói nossa sensibilidade, nossa humanidade. As pessoas
viram objetos, números; os objetos tornam-se mais importantes do que elas,
mas todos perdem valor a qualquer momento em nome de um “novo” que não
necessariamente inova. O ritmo desenfreado e impulsivo faz com que o tempo
que não se vive, ou que se vive mal “flua” mais rápido, por inércia, sem
brilho, sem detalhe, sem memória, sem paixão, sem sentido... De repente a gente pára, olha
em torno, olha para si, no espelho, e para dentro, na alma, e percebe que não
viu o tempo passar, não porque se quis que ele passasse depressa, mas porque
esteve alheio a ele, ou a espera passiva de dias melhores. Esses podem ter
sido tempos cheios de sensações, mas sem sentimentos. Tempos que não nos dão
a leveza da vida em plenitude, mas o peso do vazio existencial. Tempos que
nos esvaem numa induzida vertigem materialista. Vertigem que começa com coisas,
depois se estende a pessoas. Vertigem que substituirá amigos por
interesses... Então, sem que se perceba,
todos os prazeres terão sido experimentados, sem limites - às vezes
exacerbados artificialmente -, mas sem nenhum vestígio de amor sincero; os
sons da natureza serão inaudíveis; as pessoas amadas serão intocáveis; os
aromas e gostos serão modas... No limite, o dia presente tornar-se-á uma vaga
esperança do dia futuro, que nunca virá porque não é construído; porque
quando chegar será mais um dia presente, que se quer passado... Quem vive assim, quando
pressente o “risco” do comprometimento o repele, com medo de perder a
liberdade de provar de tudo o que o convenceram que vida oferece de “melhor”.
Mal sabem que assim podem estar desperdiçando o que a vida tem realmente de
melhor, por medo de ousar e sofrer. Quem aceita viver assim se
transforma em mais uma engrenagem da máquina de moer vidas do mercado, ou uma
peça do relógio do tempo perdido, que o atrasar dos ponteiros nunca
conseguirá resgatar. Deus nos deu nervos para
sentir, e não é “cortando-os” que estaremos livres das dores e aflições do
mundo. No mais, se isto nos poupa da dor, também nos priva dos sentidos, e
tudo isso faz com que não vejamos o tempo passar ou, pior, que desejemos que
ele passe depressa. Alguns até decidem interrompê-lo... O tempo não merece isso! É preciso dar graças à vida e
tornar cada dia único, memorável! Material, sim, mas principalmente humano e
espiritual, para que toda vez que pensarmos na vida, tenhamos a certeza de
que ela está sendo bem vista, com todos e em todos os sentidos. Então: “Carpe diem”, colegas! *Escritor, engenheiro e professor
universitário |
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