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Defesa do Consumidor
O leão e o
cordeiro
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
As eleições
deveriam ser regidas pelo Código de Defesa do Consumidor! Afinal, os
candidatos prometem maravilhas, garantem que basta dedicação aos
interesses do povo para concretizá-las, só que, depois de eleitos, a
maioria esquece das propostas de campanha para sucumbir às diretrizes
partidárias, aos acordos políticos e ao corporativismo.
Segundo o CDC isso
caracteriza propaganda enganosa ou, então, mal-funcionamento do “produto”,
que deve ser substituído imediatamente por outro, que cumpra o anunciado.
Mas, não! Absurdamente, o penalizado é o consumidor (eleitor), que ainda é
obrigado a bancar o alto custo operacional, a baixíssima produtividade e a
multiplicidade de escândalos que os políticos “com defeito promovem”. Quem
consome quem?
Os problemas morais
seriam facilmente resolvidos se ética e honestidade fossem itens
obrigatórios. Já do ponto de vista físico: num mundo onde a informação é
instantânea e as infovias estão cada vez mais confiáveis e seguras, é
difícil justificar o que se gasta com a presença, ou ausência, de nossos
congressistas, e todo o seu séqüito, em Brasília.
A capital federal é
uma cidade cara? Os constantes deslocamentos prejudicam ou inviabilizam
suas atividades particulares e isso precisa ser compensado? Ora, salvo
engano, quem opta pela vida pública é para se dedicar aos interesses do
povo, e isso exige alguma renúncia, não? Assim, reclamar de aspectos
financeiros é uma imensa contradição. Porquê o reclamante não permaneceu
como estava, então? Por amor ao próximo? Por masoquismo? Não parece ser
por renúncia, pois ela só tem ocorrido para evitar cassações...
Qualquer que seja o
caso, os parlamentares deveriam buscar modelos de atuação que reduzissem a
necessidade e custos de sua já rarefeita estada no Planalto Central, e de
todo o aparato físico e administrativo inerente as suas atividades. Só
que, em vez disso, a maioria clama por melhores remunerações e trata
assuntos de interesse nacional como oportunidade de barganha política,
contrariando os interesses da população inconformada, impotente, e, não
raro, vítima de suas decisões. Com isso, o contribuinte, cordeiro
tosquiado, parece ficar sempre em segundo plano, sem nunca ter voz nem
vez! Será?
Não necessariamente,
pois a Constituição prevê a convocação de plebiscitos e referendos; só que
a faculta exclusivamente ao Poder Legislativo. Vejamos: Quantos
plebiscitos e referendos já foram efetivados?
Recentemente, apenas
dois: o do Regime de Governo, há mais de uma década; e o do desarmamento.
Então, se existem
esses dispositivos, porquê a opinião do povo não é expressa, de forma
direta, com mais freqüência? É porque os parlamentares representam
plenamente o pensamento da maioria da população?
Bem... “Mensaleiros”,
sanguessugas, votações secretas e acordos de bastidores colocam essa tese
em dúvida. Sobre confiabilidade, só um aparato do tipo BBB nos permitiria
saber o que fazem os políticos 24 horas por dia.
Organizar
plebiscitos e referendos é caro? Pode ser, mas ninguém questiona a
eficiência e rigor do sistema que nos leva, anualmente, a declarar o
Imposto de Renda, sobre o que não é renda, inclusive! Ninguém questiona o
custo desse sistema! E ai de quem não cumprir essa obrigação, pois o
"Leão" é implacável.
É... Nesse caso, o
“Código de Defesa do Arrecadador” funciona direitinho!
Ora, se somos
obrigados a prestar essas informações anualmente, mesmo quem é isento,
porquê esse mecanismo, tão confiável e eficiente, também não é utilizado
para manifestarmos nossa concordância ou rejeição às propostas do
Executivo, Legislativo e Judiciário? Porquê não agregar ao formulário do
IRPF plebiscitos e referendos sobre assuntos polêmicos, tais como: adesão
a acordos internacionais, tetos salariais e aposentadorias dos Três
Poderes, cassações de mandatos de parlamentares etc?
Assim, os cordeiros
poderiam ter mais que um dia de leão...
Com a palavra os
especialistas em direito constitucional... Porém, tudo isso seria
dispensável se os ocupantes de cargos eletivos cumprissem conscientemente
o estatuto da representatividade popular, honrassem suas promessas de
campanha e, principalmente, respeitassem a fé e a dor do povo brasileiro.
*Escritor, engenheiro e professor
universitário,
autor do livro Sobre Almas e Pilhas.
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