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Mundo do Trabalho
A ferramenta e o
operário
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
A liderança é
uma atividade extremamente complexa! Propensão, disponibilidade e
treinamento, são qualidades importantes, sim, mas não dispensam outras
também indispensáveis a um verdadeiro líder: inteligência e sabedoria.
Muitos acreditam
terem nascido para liderar, mas nem todos têm ou adquirem competência para
exercer as responsabilidades decorrentes. Normalmente preferem as
prerrogativas do mando e a presunção da infalibilidade. Nesses casos, o
treinamento pode corrigir, mas também pode agravar problemas
comportamentais, ainda mais quando se lida com jovens.
Um colega teve um
exemplo desse tipo de "liderança" há alguns anos, quando participava de
uma comunidade religiosa de jovens: Um dos grupos era liderado por um
casal que não tinha filhos. Sua atuação era calcada basicamente no
emocional. Quando lhes perguntavam por que não adotavam filhos, eles
respondiam, emotivamente, que todos eles eram seus filhos... Se isso era
verdade, então eles tinham os seus "prediletos", aos quais delegavam todas
as funções mais importantes do grupo e por meio dos quais "controlavam" os
demais.
Até aí, nada de mal,
mas todo o questionamento mais complexo que recebiam sobre sua atuação era
respondido com estratégicas crises de choro ou de hipertensão, ou, pior,
com a menção de que haviam feito um “curso superior” de treinamento de
lideranças religiosas... Isso também não seria tão grave se o
posicionamento lacônico e inquestionável não fosse, em alguns casos,
baseado apenas em conclusões pessoais, desprovidas de qualquer coerência
ou suporte científico, lógico ou mesmo religioso. Faltava-lhes humildade
para reconhecer sua ignorância sobre certos aspectos, e bom senso para
encaminhar as questões para quem soubesse elucidá-las, aproveitando para
também aprender. Talvez tivessem medo de ver sua “autoridade” enfraquecida
por uma - na idéia deles - demonstração de limitação ou de incapacidade de
resolver problemas.
Essa tese foi
exemplificada no dia em que um dos jovens do grupo mostrou ao meu colega
uma "estrela de Davi" que havia encontrado na rua. Disse que ia procurar o
casal para perguntar se havia algum problema em usá-la... Como meu colega
já vinha observando as atitudes daqueles “líderes” há algum tempo,
antecipou ao rapaz que o Rei Davi era um personagem fundamental do Antigo
Testamento; que o próprio Cristo havia nascido de uma família de sua
linhagem, confirmando profecias. Não havia, portanto, nenhum problema em
usar aquele símbolo, que é judaico-cristão. Como o adolescente insistiu em
procurá-los, meu colega exortou-o a consultar, depois, o pároco local.
Poucos minutos
depois o jovem retornou, sorrindo. Motivo: o casal, com sua "autoridade"
de praxe, afirmara, em tom professoral, que ele não deveria usar a
"estrela de Davi", porque os judeus não reconheciam Cristo como o Messias!
Em contrapartida, o pároco confirmou tudo o que meu colega havia dito!
Se essa experiência
não serviu para outra coisa, ao menos o ensinou que é sempre bom consultar
mais de uma fonte antes de concluir sobre um assunto. Mas a grande
reflexão é sobre o exercício positivo da liderança em qualquer área da
vida: Não basta querer ser líder e estar disponível para sê-lo! Da mesma
forma, também é grande a responsabilidade de quem escolhe líderes, pois
liderança pressupõe responsabilidade, interação, consciência, humildade e,
principalmente, autocrítica! É impossível sustentá-la ou tirar-lhe
proveito coletivo tendo por base: pouca racionalidade natural e muita
emotividade, sincera ou não. Isto porque o verdadeiro líder não deve ser
peso ou limite para os liderados, sob pena de não haver nenhuma evolução
coletiva ou pessoal.
Assim,
disponibilidade e motivação são características importantes, mas nunca
devem ser determinantes na seleção de lideranças. No entanto, se por falta
de melhor opção esses forem os critérios de escolha, deve-se ter cuidado
redobrado ao treiná-los ou delegar-lhes funções e poderes, pois a
ferramenta certa nas mãos erradas pode transformar-se numa perigosa arma!
*Escritor, engenheiro e professor
universitário,
autor do livro Sobre Almas e Pilhas.
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