Edição 102 - Aracaju, 10 de junho a 08 de julho de 2007
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  história
Esquerda no Brasil
O presente a condena

Adilson Luiz Gonçalves*

Nos anos de 1970, as escolas eram microcosmos da Guerra Fria. Grupos “ideológicos” disputavam os centros estudantis, com discursos opostos, mas com práticas parecidas. A maioria pertencia ao “fundão”: anticomunistas, pró-EUA, ou antiimperialistas, pró-URSS. Tinham em comum: frases feitas e nenhum empenho acadêmico. Nos dois lados havia candidatos a “heróis”, e gente querendo “aparecer”, ou seja: a maioria. Assim, as aulas para eles eram empecilhos à ação “revolucionária” ou “reacionária”. Afinal, havia uma “guerra” lá fora!

Havia os que queriam tirar dos outros, e os que seriam capazes de qualquer coisa para ter um futuro garantido e tranqüilo, por “tradição”, sem nenhum mérito pessoal. Mas também havia os que acreditavam num mundo justo, com oportunidades iguais para todos. Estes verdadeiramente idealistas, no entanto, não passavam de massa de manobra nas mãos de “líderes” que usavam e abusam da pressão psicológica e física.

Assim, era no discurso “democrático” que residia sua maior incoerência, já na juventude: Todos pregavam a democracia! Mas não davam nenhuma alternativa, nem aceitavam oposição.

O cenário político brasileiro e mundial mostra que muitos desses “líderes” estudantis enveredaram pela política, por vocação ou, mais provável, por herança ou estratégia de sobrevivência. Talvez a maturidade lhes trouxesse discernimento e compreensão para mudar o que criticavam, mas muitos optaram por tirar proveito do que, antes, combatiam.

Parece que o discurso ideológico era o que menos importava. Havia, sim, o fascínio pelo poder, ou uma compensação para o mau desempenho acadêmico, esportivo ou afetivo.

Onde estão os que se indignavam ao ver filmes de Costa Gravas e Eisenstein?

Alguns lembram a música de Belchior: “Está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal” de indenizações e pensões, muitas auto-concedidas. Já outros permanecem fascinados pelo poder. Continuam com discursos belos no papel e na oratória; democratas no discurso, mas autoritários na prática; cercados de pouca competência técnica e muita mediocridade oportunista, aduladora, mal-intencionada.

As revoluções e contra-revoluções que pregavam sucumbem facilmente ao corporativismo e à corrupção. E, infelizmente, é preciso que alguém de dentro “pise na bola”, ou sinta-se preterido ou traído, para que o “pano” caia e revele a verdade por detrás das aparências.

Isso prova que para mudar o Brasil, precisamos de uma revolução, sim, mas de princípios! É preciso aprender a dosar, por toda a vida, o ímpeto puro da juventude, com a lucidez da maturidade! É preciso aprender a representar o povo e não a enganá-lo!

Se não aprenderam isso na escola, ocupados com outras coisas, que voltem para ela! E vejam se fazem a lição de casa direito, dessa vez.

*Escritor, engenheiro e professor universitário. E-mail: algbr@ig.com.br