Edição 105 - Aracaju, 02 de setembro a 07 de outubro de 2007
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  educação
Vitória no Pan
O exemplo de Yane Marques

Adilson Luiz Gonçalves*

Certa vez, numa reunião de professores, eu e uma colega lembrávamos tempos de infância e adolescência escolar. Instituições públicas e particulares propiciavam formações que incluíam diversas artes, esportes e idiomas. Reconhecemos que, na época, não dávamos valor a isso, mas que, posteriormente, esses conhecimentos tornaram-se úteis, significativos e ampliaram nossos horizontes pessoais e profissionais.

Lamentamos as condições atuais. Foi quando outro colega, exprimindo desalento, disse que de nada adiantaria oferecer formação erudita ou eclética se ela estivesse fora do contexto social de um aluno que mal tivesse condições de subsistir. Isso seria mais uma frustração!

Em uníssono, nós defendemos que, independentemente da condição social, é fundamental mostrar opções, horizontes, gostos e sabores às pessoas, sobretudo na infância e na adolescência, para que, no momento oportuno, elas encontrem motivações e façam suas escolhas. É como preparar bem o solo para as sementes, mesmo sabendo que nem todas germinarão. Privá-las disso seria condená-las a uma mediocridade institucionalizada, intencional, e subtrair da sociedade a descoberta e realização de potenciais maravilhosos.

Existem filhos de famílias “tradicionais”, que tiveram todas as opções, mas se revelaram péssimos cidadãos; em contrapartida, são pródigos os exemplos de pessoas de origem humilde que ao terem acesso a formações decentes se tornaram seres humanos brilhantes.

Por tudo isso, eu não deveria ter me surpreendido quando vi a reportagem com uma moça de origem humilde, franzina, filha de cozinheira, natural de Afogados da Ingazeira, entre o agreste e o sertão pernambucano: ela se preparava para disputar o Pentatlo Moderno, no Pan!

Passei a torcer por ela, pensando que nadava contra a correnteza, sem saber que ela já colecionava títulos numa modalidade que incluía esportes elitistas, como: hipismo, tiro e esgrima, além de natação e corrida.

E veio a medalha de ouro, com folgas! E ela vai a Pequim!

Foi então que eu soube que ela queria ser nadadora, esporte em que se iniciou aos 12 anos. Talvez tenha dado suas primeiras braçadas no Açude Brotas, ou no Rio Pajeú, ou nos riachos locais. Quem sabe, em seu imaginário infantil, tenha aprendido a nadar para não se afogar...

Suas braçadas proféticas fizeram o sertão virar mar, e ela foi desaguar em Recife, onde um técnico iluminado a direcionou para o Pentatlo. Deu no que deu: o Brasil conheceu mais uma flor do agreste!

Yane Marques teve motivações; teve o apoio, familiar e de seus mestres; teve a possibilidade de conhecer, de escolher. E se alguém, lá no início, tivesse abortado seu sonho, por “estar fora de seu contexto social”?

Para transformar uma sociedade distorcida é preciso dar oportunidades iguais, e boas, a todos!

*Escritor, engenheiro e professor universitário. E-mail: algbr@ig.com.br