Edição 106 - Aracaju, 07 de outubro a 11 de novembro de 2007
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  cidades
As rodas da vida
Um ciclista imprudente, um acidente, o trânsito nosso de cada dia

Adilson Luiz Gonçalves*

Tá lá o corpo estendido, imóvel, na avenida. Ao lado, uma bicicleta retorcida, um veículo estacionado de qualquer jeito, um motorista em estado de choque. Alguém afirma que o ciclista cruzou a avenida no sinal vermelho...

Embora o termo acidente pressuponha imprevisibilidade, existem analogias que podem ser feitas, por exemplo, com a segurança do trabalho: ato inseguro é pessoal; condição insegura é ambiental.

No trânsito, a condição insegura é evitada com pavimento, sinalização e fiscalização adequados; já o ato inseguro é função do condutor, seja qual for o veículo utilizado. Assim, é infelizmente comum vermos motoristas que fazem conversões irregulares, estacionam em fila dupla só para não ter que manobrar, mudam de faixa abruptamente e sem sinalizar, falam ao celular, dirigem grudados; motociclistas "costureiros" ou que transitam em alta velocidade por entre congestionamentos; pedestres que atravessam fora da faixa de segurança; carroças em avenidas principais, em horários de pico...

Mas, o que dizer dos ciclistas? Com raríssimas exceções, ignoram propositalmente a sinalização viária, com risco pessoal e de terceiros.

Entre seus atos inseguros podemos citar: transitar na contramão; não parar em cruzamentos, mesmo com sinal vermelho; "costurar", de preferência usando os pés e as mãos para passarem entre os carros; querer treinar ciclismo de competição em vias públicas; fazer fila dupla em avenidas só para "bater um papo" enquanto pedalam; "ilhar" pedestres na faixa, que têm que esperar a passagem de "pelotões" desembestados para concluírem a travessia; e tudo isso impunemente, pois as autoridades alegam falhas na legislação pertinente ou dificuldades operacionais para aplicarem aos ciclistas os mesmos rigores implacáveis destinados aos veículos automotores. Para piorar, somam-se aos atos inseguros a condição insegura das bicicletas, muitas sem retrovisores, freios ou sinalização.

Aos motoristas é recomendado respeito aos ciclistas e prática de "direção defensiva"; mas a recíproca não é verdadeira. Logo será preciso apelar para a "direção premonitória", tal a imprevisibilidade e irresponsabilidade das manobras.

A implantação de ciclovias é uma parte da solução, mas temos que analisar objetivamente dois aspectos:

  • É absolutamente inviável implantar ciclovias em todas as vias da cidade

  • O problema não é a postura do ciclista dentro da ciclovia, mas os atos inseguros e irresponsáveis que ele poderá continuar praticando fora dela

Assim, se as campanhas educativas atuais não surtem efeito, que sejam reformuladas. Está mais do que na hora de atuar mais incisivamente na inibição dos atos inseguros, senão continuaremos a ver corpos estendidos, famílias desamparadas e traumatismos físicos e psicológicos, com a cumplicidade da omissão de quem de direito.

*Escritor, engenheiro e professor universitário. E-mail: algbr@ig.com.br