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Crônica
Perda da poesia
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
Às vezes a gente pensa que não tem mais nada, mesmo
acreditando ter tudo!
A riqueza e a pobreza parecem iguais quando olhamos o
caminho percorrido até atingi-las. Quase sempre, houve a renúncia do belo,
o abandono da alma e perda do real sentido da vida. Conquistas e deserções
absolutas fazem parte do paradoxo de um mundo cada vez mais regido por
valores distorcidos, que desprezam os sentidos e sentimentos em nome de
metas e aparências. Progressivamente, a humanidade vai perdendo sua aura
de divindade e sua capacidade de abstrair. O ser humano é encarado como
uma mera e substituível peça de um mecanismo de resultados físicos, frios
e distantes. Pior: aceita essa condição e ainda busca superar esse plano
traçado a sua revelia!
Escravidão consentida! Vida sem poesia!
Os atos mais simples deixaram se ser naturais e
gratuitos... Há sempre uma segunda intenção, vil.
A inteligência e a racionalidade são exaltadas como
principais virtudes humanas. As pessoas são avaliadas, graduadas,
selecionadas, consumidas ou descartadas por critérios científicos e
herméticos, num processo que lembra ora eugenia ora uma linha de montagem
cibernética. Mas não é a capacidade de sonhar e de ver além das imagens
que nos torna especiais? Não é a possibilidade de escolher caminhos que
nos faz diferentes? Não é essa diversidade a razão poética do fascínio da
humanidade?
Estamos trocando tudo isso por um adestramento coletivo
tendo como contraponto, único, a rejeição explosiva e inócua. A intuição
cede espaço ao condicionamento ou ao caos existencial. O ser humano
germina, mas não frutifica!
Onde estão as metáforas? Onde estão a comunhão de almas e a
sublimação da vida? Onde está a beleza explícita ou implícita dos gestos,
das palavras e dos pensamentos?
Parece que estamos sendo conduzidos, inconscientemente, à
negação da humanidade, em tempos difíceis ou não. Mas mesmo atingida essa
sarjeta, virtual ou real, sempre será possível resgatar nossa natureza,
bela e divina, pois ao revirar esse lixo existencial nada impede que
encontremos uma rosa vermelha! Quem sabe nos lembremos de um jardim...
Talvez de um amor sincero... Ou seus espinhos, numa distração do destino,
façam aflorar nosso sangue e lembrem que a vida flui em nós com a métrica
do coração, e que temos uma mente, milagre supremo da Criação, capaz de
duvidar, imaginar e entender o universo, em prosa e verso! Assim, talvez
tomemos essa rosa, a coloquemos na lapela e então, despertos e iluminados
- como um cego que recobra o sentido da visão -, passemos a enxergar, com
um sorriso na alma, a beleza, a esperança e a poesia que a cegueira de
espírito ocultava.
Saibam que, mesmo na indigência, do ser ou do ter, não há
rima pobre! Todos os sonhos e pensamentos vertidos em palavras são livres,
preciosos e indispensáveis à vida! Todos carregam emoções e verdades
capazes de, no momento certo e preciso, alegrar ou consolar, derrubar
muros ou construir ideais! Com tal poder transformador, mesmo um poema
gratuito não tem preço! Como pode haver pobreza para quem distribui tal
riqueza?
Todos somos livres, ricos e poetas! Essa é a nossa condição
fundamental!
Por quê, então, poesia em tempos de indigência? Porque até
as preces de aflitos, esperançosos e agradecidos são feitas em verso!
Porque as epopéias que falam da superação de adversidades são descritas em
verso! Porque mesmo o rigor de um dogma e a arrogância dos poderosos não
resiste e cede passagem à ousadia de uma licença poética! Porque a razão
nos guia no solo firme, mas é a poesia que nos faz voar e ver além da
escuridão ou da linha do horizonte!
Em suma, porque a poesia precisa existir em qualquer tempo!
*Escritor, engenheiro e professor
universitário,
autor do livro Sobre Almas e Pilhas.
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