Edição 107 - Aracaju, 11 de novembro a 16 de dezembro de 2007
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  reportagem
O valor da vida
Situações como o aborto ou a defesa intransigente de alguns valores põem à prova o nosso bem maior

Por Alexandra Gurgel*
 

Como se estivesse num processo de extinção, a vida vem sendo paulatinamente desperdiçada, aviltada. Ela se transformou num objeto. Alguns são valorizados, outros são de quinta categoria. É como se estivéssemos num imenso leilão. Quem dá mais? Para ganhar algum dinheiro, para conseguir algum sucesso, para alimentar vícios, para livrar-se de algo que incomoda, quantas pessoas são capazes de desperdiçar a própria vida? Porque para elas não vem em mente colocar, na balança interior, os tesouros da vida que perderam diante do pouco que ganharam?

Algumas situações envolvendo pessoas de diversas camadas sociais, idades e diferentes locais revelam reações de intensidades desiguais em resposta à seguinte: quanto vale uma vida?  

O Vôo da borboleta

Seu corpo foi encontrado estirado no asfalto dentro de uma madrugada fria, numa esquina de Porto Alegre. Seu vôo terminou ali. Por estar morto e ser muito jovem, reuniu em torno de si muita gente. Como uma borboleta busca alimento em flores, sem refletir sobre a excelência da sua atividade, ele tinha no fazer amigos a chave para a compreensão do mundo e, assim, conheceu a vida e conviveu conosco, sendo ao mesmo tempo um ser comum e extraordinário

Esse trecho faz parte do livro Thiago Gonzaga – Histórias de uma vida urgente. Thiago faleceu em maio de 1995 em um acidente de carro. Diza Gonzaga, mãe de Thiago, deixou sua profissão de arquiteta para se dedicar integralmente à Fundação Thiago Gonzaga, que nasceu em maio de 96, um ano após a morte do filho. A Fundação visa minorar os acidentes de trânsito, principalmente os que envolvem jovens. A campanha VIDA URGENTE é o carro-chefe da Fundação, que está sendo divulgada inclusive no exterior. “Nós trouxemos uma nova linguagem, falamos da questão da vida, do valor que temos que dar a ela. Pois viver não tem preço”, afirmou Diza.

Tudo ou nada

Não é difícil encontrar pessoas que asseguram que fariam tudo por sua família e pessoas próximas. E o tudo deve ser tomado no sentido literal da palavra.  O motorista de ônibus Jorge Américo de Souza, 51, indagado sobre o valor de sua vida, disse: “A minha vale um cheque em branco de qualquer bacana aí, mas, se for a vida da minha família, é outra história.”

Ele não é o único a pensar dessa forma. Cleoson di Carvalho, 32, advogado de Belém do Pará, não mede palavras: “Eu eliminaria qualquer um que pensasse em fazer mal à minha família. Na hora. Não pensaria duas vezes. São as pessoas que têm mais valor na minha vida. Nem a questão da ética vence isso. Por eles, tudo.”

Paulo Henrique, 19, é estudante da Universidade de São Paulo (USP) e discorda do “tudo”. Acredita que certamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para a vida dos que ele quer bem, mas nunca perderia sua dignidade por isso: “Não faria nada que acho errado por outra pessoa. Matar? Antes morrer. Isso vai contra os meus princípios. A minha vida tem muito valor para pensar em tirar a vida dos outros. Se isso passar pela minha cabeça, estarei me igualando a assassinos. É ter a minha vida igualada ao valor da vida deles.”

Até que ponto, então, o “tudo” está valendo?  

Polemizando

Falar de aborto gera polêmica, mas como falar da valorização da vida sem entrar nesse assunto? A visão cristã em relação ao aborto, por exemplo, é a de proibição total. Em qualquer situação.

Em entrevista para a revista Brasil Cristão, Padre Zezinho, da Igreja Sagrado Coração de Jesus de SP, afirma que “a pessoa humana tem praticamente mais direitos do que deveres, mas o primeiro dos direitos é o direito à vida. Por isso não existe o direito de matar. Ninguém possui esse direito. Nem mesmo o Estado.”

Para ele, quando as mulheres descobrem que estão grávidas procuram o médico por que uma vida se manifestou dentro delas. O “pequeno intruso” pode ter sido ou não planejado, mas, a partir daquele momento, a mulher tem deveres que não tinha antes. “Toda mulher tem o direito de ser ou não mãe, desde que não mate nenhuma vida por este seu direito.”

Angélica (nome fictício), 36, é casada e mãe de 2 filhos. Sempre foi a favor do aborto, e aos 17 anos teve sua primeira experiência: “O aborto é algo dolorido tanto para a mãe quanto para a criança. Se eu dei valor à vida do feto? Não. Naquele momento só pensei em mim. Assumo isso. Na época eu era muito jovem, não havia condições de se ter um bebê. Hoje tenho duas crianças maravilhosas, mas nada conseguirá apagar o que fiz, choro todos os dias por isso.” 

Mesmo passando por um sofrimento que ainda a perturba, Angélica permanece a favor do aborto, mas somente em certas situações, como no caso de estupro ou de deficiência física: “Se eu tivesse abortado por um desses motivos, não me arrependeria.” Um dado curioso: deficiência física está em 2º lugar no ranking mundial de “Motivos para o Aborto” criado pela BBC britânica, perdendo apenas para “falta de condições”.  

Vencendo as dificuldades

Histórias de superação de deficiência física são sempre emocionantes e passam uma tremenda lição de vida. Conheça então Sérgio Boudakian, 53, portador de uma degeneração cerebelar provocada por uma alteração no sistema nervoso central. Não há cura e, com o passar do tempo, as dificuldades de locomoção e comunicação aumentam.

Sérgio descobriu o amor pela natação aos 27 anos, e, mesmo com todas suas limitações, transpôs barreiras e participou de competições para deficientes. E foi em uma dessas competições, em Curitiba, que surgiu a idéia de fundar o Centro para a Integração Esportiva do Deficiente Físico (CIEDEF), uma entidade filantrópica voltada às pessoas com deficiências físicas, onde o objetivo central é a integração social do deficiente, através do esporte. 

Mas ele não parou por aí. Tornou-se escritor, e tem hoje dois livros publicados:  Transpondo barreiras , onde narra toda a sua história de vida, e Natação e Liberdade, um relato sobre as vivências técnicas e adaptações de professor e aluno, na natação, para portadores de deficiência. Em seu site ele mostra um pouco mais de sua vida e trajetória.

Sérgio diz ter amor à vida: “A minha vida é um dom de Deus. Tudo que faço é agradecer todos os dias. Não compreendo como possa ter gente que queira tirar sua própria vida, ou que se venda. Qual o preço de viver e ser feliz? Eu vivo e sou muito feliz, graças a Deus. Não troco essa sensação por nada.”

São assuntos distintos, mas que se interligam em quatro palavras numa expressão: o valor da vida. Como já dizia Mario Quintana: “Vale a pena viver - nem que seja para dizer que não vale a pena...”.

Pedro Henrique, um garoto do interior de São Paulo de apenas 13 anos, escreveu um poema sobre o valor da vida. Perceba como a idade nada tem a ver com sabedoria. Vale a pena refletir: 

A vida vale o meio que se vive,

Viva no meio do deserto,

Tua vida valerá um copo d'água,

Viva em meio a um rio,

Tua vida valerá uma porção de terra,

Viva em meio à morte iminente,

Tua vida valerá a vida alheia,

Viva a vida completamente,

Tua vida valerá todas as pequenas

Coisas da vida; Todo o olhar,

Toda a afeição, todo o sentimento

Contido em cada passo do qualquer,

O tudo e o todo farão da sua vida

Uma real vida vivida eminentemente

E permanentemente.

*Estudante de Jornalismo da PUC/RJ.  E-mail: alexandragurgel@gmail.com