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entrevista Michele Hunt "Concretizar sonhos significa trabalho árduo e colaborativo"
Por Alfredo Boneff*
Catalisadora de mudanças nas ações de líderes. Esta é a função que Michele Hunt vem desempenhando, desde 1995, em organizações como Hewlett-Packard, Mobil Oil, U.S. Food and Drug Administration, Motorola e Boeing. Mesmo que a natureza de seu trabalho ainda não seja muito conhecida no Brasil, ela é o que se pode chamar de uma profissional do futuro. Em síntese, seu papel é o de construir um novo perfil de liderança, pautado em valores sustentáveis como diversidade e colaboração. Michele esteve no Rio de Janeiro recentemente, como palestrante do 36º Congresso de Recursos Humanos do Rio de Janeiro, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) entre os dias 8 e 10 de junho. Sua apresentação foi direcionada ao tema da gestão de pessoas para eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Mas, a fundadora da empresa de consultoria Vision & Values e autora do livro Dream Makers – Fazedores de Sonhos (Ed. Qualitymark, 2001) falou também de sua trajetória. Uma história rica, na qual não faltam episódios de racismo na infância pobre em Detroit e o suporte familiar para superar obstáculos e alcançar suas próprias conquistas. No início de sua carreira, na década de 1970, a socióloga enfrentou desafios ao se tornar uma das duas primeiras mulheres a supervisionar presidiários no Departamento Correcional de Michigan. Por meio de ações que estimulavam a autoestima e a integração, ela atingiu resultados expressivos, como o aumento do percentual de presos com diploma universitário de 30% para 100% em apenas um ano. Na década de 1990, Michele atuou no governo de Bill Clinton, na condição de diretora-executiva do Instituto Federal de Qualidade, liderando um bem-sucedido programa de aperfeiçoamento do desempenho das agências governamentais. Primeira mulher a fazer parte da equipe gerencial da Herman Miller – tradicional fabricante de mobiliário para escritório – a autodenominada baby boomer falou ao Nós da Comunicação sobre as perspectivas das lideranças para os próximos anos e a influência das redes sociais em sua atuação. Para Michele, concretizar sonhos não é um conceito etéreo, místico. Antes, significa trabalho árduo e colaborativo para obter resultados. A partir dessa visão objetiva, ela não hesita em afirmar: “No futuro não haverá espaço para a liderança heroica, para o grande expert”. *** O cenário das corporações na próxima década vai exigir novos perfis profissionais e capacidades. Já é possível projetar um novo modelo de liderança que vai comandar esse processo? Seria este o ‘líder visionário’ que você descreve em seu livro? Michele Hunt – Em minha opinião será, definitivamente, o líder visionário. Ele se caracterizará pela capacidade de perceber o potencial de realização de seus funcionários. Não haverá mais o velho modelo em que as pessoas de uma organização são tratadas como meros instrumentos. Será uma liderança pautada por respeito e dignidade, por meio de um trabalho colaborativo em equipe. Isso muda fundamentalmente o papel das lideranças. O velho perfil é daquele chefe que sabe tudo, que vê tudo e toma as decisões isoladamente. É um perfil vertical. Além disso, esse líder tem a crença de que as pessoas não são confiáveis, que têm limites para o seu crescimento profissional. Portanto, o papel primário de uma liderança não é apontar direções, mas engajar as pessoas em uma visão compartilhada. O conceito de uma liderança onisciente e onipresente é obsoleto. Em que medida as capacitações exigidas para as lideranças do futuro estarão relacionadas a novas tecnologias? Nesse contexto, como os jovens profissionais da geração Y poderão superar os desafios à frente? Michele Hunt – Não acredito que estarão estritamente ligadas à tecnologia. A proliferação da tecnologia, particularmente da internet, a conectividade por meio dos smartphones, se potencializam, sobretudo, por meio de uma mudança de valores. Nós criamos tecnologia devido a um desejo inequívoco de inovar, de nos expressarmos. Teremos cada vez mais tecnologia porque as pessoas vão mudar sempre. Vamos precisar desses mecanismos para nos conectarmos. Minha percepção é de que há muito mais pontos positivos do que negativos, apesar de a mídia destacar os negativos. O desafio para essas pessoas que se expressam e se relacionam por meio da internet é colocar suas habilidades a serviço não apenas das próprias necessidades, mas transformá-las em conhecimento para um mundo novo. Você está nas redes sociais? Como avalia o papel de redes como Twitter e Facebook, entre outras, para a atuação das lideranças? Michele Hunt – Estou no Facebook e no Twitter. Totalmente conectada (risos). Não poderia abrir mão dessas ferramentas. Dessa forma estou conectada ao mundo, adquiro novos conhecimentos. Os lideres de gerações antigas talvez ainda não tenham se dado conta da importância das redes sociais. Nos Estados Unidos, o grupo que mais cresce entre usuários da internet são os aposentados. Eles utilizam a web de várias formas. Desde pesquisa sobre saúde até encontros amorosos. A geração baby boomer, da qual faço parte, está se recusando a diminuir a marcha. Mas, é evidente que os lideres do futuro precisam usar melhor as redes sociais. Trata-se de um instrumento poderoso para conhecer a opinião das pessoas sobre a organização. Toda empresa deveria ter um blog aberto com opiniões diversas dos colaboradores e do público. Seu livro aborda o desafio de mudar modos de pensar arraigados no panorama competitivo dos negócios. Nesse sentido, como percebe a postura das grandes empresas em relação à sustentabilidade? Michele Hunt – Posso falar das companhias que conheço nos Estados Unidos. A maior parte das empresas deveria rever suas práticas de sustentabilidade. É evidente que não se reinventaram, não absorveram novas ideias. Parecem não perceber o que acontece fora de seu pequeno mundo. Tome o exemplo do mercado financeiro. A maioria das empresas nesse segmento não leva em conta os valores básicos relacionados às pessoas. Não é possível ser sustentável guiado apenas pelo lucro. Você pode ter lucro e ser benéfico, mas a partir de uma proposta de longo prazo. Mas, sou otimista. Viajo por todo o mundo e percebo líderes reconhecendo erros e constatando: é preciso aprender a agir de forma diferente. Você acredita que os profissionais do futuro – os chamados nativos digitais – serão capazes de atuar sob uma perspectiva mais humanista, baseada em valores como ética, educação e cultura? Michele Hunt – Nenhuma companhia sobreviverá se não for capaz de integrar valores humanistas às suas ações. Simplesmente porque não conseguirão força de trabalho. Os jovens profissionais se recusarão a trabalhar para empresas afastadas dessas premissas. Muitos estão deixando essas organizações conservadoras justamente porque não levam em conta a dignidade das pessoas, não se preocupam em criar uma cultura baseada em aprendizado, em educação. Os jovens profissionais por vezes preferem sair de seus empregos ganhar menos e criar um negócio próprio. Não querem compactuar com práticas ultrapassadas. Dinheiro, definitivamente, não é sua única motivação. Você foi a primeira mulher a ocupar um cargo no time gerencial da Herman Miller. A partir dessa experiência, acredita ser possível projetar um futuro em que as corporações serão pautadas pelo trabalho colaborativo e uma visão mais feminina? Michele Hunt – Não acredito que haja outra escolha. A liderança do futuro está atrelada a essas características. As equipes de liderança precisam de diversidade. De outra forma acaba predominando uma espécie de pensamento único. Quando uma mulher integra essas equipes, naturalmente existe um pensamento mais balanceado, uma valorização maior de aspectos familiares, ambientais, culturais e comunitários. Não tenho dúvidas de que um time colaborativo é a forma possível de alcançar resultados e metas. Não há mais espaço para a liderança heroica, para o grande expert. Cada vez mais as equipes de liderança serão formadas por pessoas com diferentes expertises em torno de um objetivo comum. Entrevista originalmente publicada no site Nós da Comunicação. |