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reportagem O lado B da Amazônia Um roteiro barato para quem pensa que visitar o pulmão do mundo é coisa de gringo Texto e foto: Aline Gatto Boueri*
Em Manaus chove e nas ruas se agradece. O período de secas que castigou a região norte do país no fim de 2009 estava terminando. Chegava o “inverno amazônico” e eu, poucos dias antes do Natal, embarcava no Anna Karoline II rumo Santarém – o primeiro trecho da viagem pelo Rio Amazonas até a cidade de Belém. Marinheira de primeira viagem, literalmente, havia passado pelo impressionante Porto de Manaus em busca de uma passagem em algum barco que estivesse indo a Santarém o mais rápido possível, já que o dinheiro, curto, não comprava mais do que belas refeições de tucunaré, uma das delícias da região, nos bares que rodeiam o Teatro Amazonas. Tentativa frustrada: os preços pareciam muito maiores que a minha expectativa de gastos. O turismo em Manaus, quase sempre oferecido em inglês, espanhol, francês e italiano, antes do português, é caro, ainda mais em dezembro. Um passeio pelo rio Negro, como uma visita ao encontro das águas, por exemplo, não sai por menos de R$100 por pessoa nessa época. E olha que é logo ali. Numa dessas caminhadas pela cidade, onde a chuva intensa e contínua às vezes parava um pouco para deixar lugar ao calor úmido e à noite tranquila do centro da cidade, depois do tucunaré, uma manga cai de uma árvore, pronta para ser comida. Durante toda a viagem, episódios como este fizeram a sobremesa ser mais gostosa. No dia seguinte, depois de uma conversa animadora com um comerciante local, decidi ir ao “porto informal” de Manaus. Distante apenas alguns quarteirões do porto oficial, em barraquinhas vizinhas, diferentes barcos a diferentes preços (entre R$80 e R$130, dependendo da data da viagem) eram oferecidos pelos agentes. Um pouco de pechincha e outro tanto de lábia me permitiram pagar R$100 para pendurar minha rede em um barco que deixava Manaus rumo a Santarém em duas horas. O camarote - com ar condicionado, televisão e beliche - sai o dobro. Anna Karoline II: da lama ao caos O barco que me levaria pelo Amazonas até a cidade de Santarém, Anna Karoline II, já tinha suas tantas redes penduradas no primeiro e no segundo andar. O pior lugar para a viagem de dois dias que me esperava era o único que estava vago: ao lado do motor, o calor insuportável e o barulho ensurdecedor me fizeram entender por que o lugar estava vago. A Amazônia me dava a primeira lição: duas horas antes da partida já é tarde demais para obter um bom lugar nos barcos de transporte comercial de passageiros. O segundo andar do barco, mais disputado, não sofria tanto com o ruído do motor, mas o som altíssimo do bar – no terceiro andar – não deixava impunes os que tinham conseguido se acomodar na área de luxo. Calcinha Preta e Vitor e Leo se alternavam no som do bar, que vendia cerveja a preços acessíveis e garantia um clima de festa na viagem. Já preocupada com a noite de sono impossível que poderia vir se eu continuasse no mesmo lugar, desci do bar decidida a conseguir um lugar melhor. Fui educadamente convidada a me retirar de cada gancho que improvisei entre uma rede e outra. O transporte é usado principalmente por moradores da região, muito mais entendidos que eu nessa difícil tarefa que é encontrar um espaço para a rede. Sem desanimar, esperei o horário do jantar. Neste momento, algumas redes são retiradas para dar lugar a uma grande mesa onde se serve o tradicional – e farto – PF que tanto salva a vida dos mochileiros no Brasil. Com preços entre R$10 e R$15, o prato alimenta duas pessoas. Era o momento-chave: a mesa se levanta, passam alguns minutos e os lugares continuam lá, vazios, longe do motor. Penduro aí a rede e escuto a chuva, que tinha voltado, substituir o barulho que continuou incomodando os menos atentos. O primeiro sol A manhã no barco começa cedo. Às cinco o sol já começa a aparecer e às seis já há movimento na cozinha do barco. O café com pão, a R$5, une os passageiros numa manhã ensolarada que começa a aparecer. A essa altura, já amiga dos vizinhos de rede – com quem inevitavelmente esbarrei durante toda a noite – subi ao bar, sempre acompanhada dos pertences mais importantes, para escutar um pouco de música e ver. Como o menino do conto do uruguaio Eduardo Galeano que vê o mar pela primeira vez, com os olhos cheios de verde, eu pedia ajuda para ver. Ao longo do caminho, a paisagem não muda muito: é sempre exuberante. Fora alguns pequenos povoados, o que se vê são árvores de um lado e de outro, um ou outro barco pequeno de pesca, e alguns navios de carga. Longe das margens, o Anna Karoline II desliza devagar pelo Amazonas, sem pressa e ajudado pelo rio que corta o pulmão do mundo. O dia também acaba cedo por aí. Às seis da tarde já não há luz, como se o sol tivesse gastado toda sua força no poente. Uma bola laranja mergulha na floresta: o fim de tarde no Amazonas é um espetáculo à parte, que enche os olhos de quem presencia. Bem-vindos a Santarém Aportamos em Santarém quase de madrugada. Sem nenhuma ideia do que ia encontrar na cidade, decidi passar a noite no barco, que só voltaria a sair na manhã do dia seguinte. Os tripulantes, gentilmente, me permitiram manter a rede pendurada aí enquanto eles também tomavam seu merecido descanso depois de 40 horas de viagem. Nas primeiras horas da manhã fui acordada pelo movimento do porto de Santarém (e pela fauna do barco). Era hora de colocar a mochila nas costas e percorrer a cidade para encontrar hospedagem barata antes que o sol começasse a castigar os ombros. É possível dormir aí por R$20 ou R$30 (sem ar condicionado) ou pagar um pouco mais por um quarto em que se possa guardar entre meio-dia e 16h: a esta hora quase todos o comércio fecha e o calor úmido é quase sufocante. O Caribe Amazônico A 30 km daí, ligada a Santarém por um ônibus de linha que custa menos que o metrô carioca, está Alter do Chão, pequena vila que fica em uma enseada do rio Tapajós, conhecido como o “Caribe Amazônico.” A beleza impressionante do lugar faz jus ao apelido pomposo. Algo raro na região amazônica, o Tapajós tem águas cor de esmeralda, transparentes, assim como o Lago Verde, cujas praias ao redor deram fama internacional a Alter do Chão. Aí não tem banco. É preciso ir a Santarém, o que não é difícil do ponto de vista prático, mas se torna uma missão quase impossível quando o assunto é deixar as lindas praias de Alter para viajar até uma fila de banco na calorosa vizinha. Em compensação, a maioria dos restaurantes aceita cartão, mas é sempre bom levar dinheiro vivo suficiente para não ter que se preocupar. Paraíso pouco conhecido e pouco acessível (a melhor maneira de chegar a Alter é por Santarém, aonde só se chega em barco ou avião), Alter do Chão fica cheio nos fins de semana, quando os moradores da região vão curtir a praia com o porta-malas do carro aberto e o forró a todo volume, mas durante a semana volta a ser um povoado tranquilo e silencioso. Daí é possível contratar passeios de barco, com pernoite na floresta incluído, pelo Tapajós e seus braços. Custam em média R$250 por pessoa e, com o orçamento apertado, optei por alugar um caiaque a R$5 a hora na Ilha do Amor, que fica de cara para a praça central de Alter, e espiar a vila de dentro do Lago Verde. Não pude ver os famosos botos, mas sei que eles estavam no seu lugar. E eu também. Outra opção no estilo “bom, bonito e barato” é a trilha para o Morro da Piroca (isso mesmo), que tem um lindo mirante de onde se vê a Ilha do Amor, o Lago Verde e o Tapajós sem fim. Não é preciso contratar um guia para encontrar o caminho se você é um mochileiro experiente em trilhas, mas é preciso levar muita água e evitar os horários de sol forte. O protetor sempre à mão também não é um mau negócio: são cerca de 40 minutos de caminhada, e o trecho final é bastante íngreme. A noite em Alter do Chão é típica de um vilarejo pequeno, engatinhando no turismo. Os restaurantes da vila funcionam até cerca de 2h da manhã (e se é noite de apagão, é possível desfrutar um lindo jantar à luz de velas). Aí se come bem e barato: uma refeição para duas pessoas com fome pode custar entre R$20 e R$30 – com peixe, arroz e salada. Outra opção é a gastronomia local nas barracas da pracinha central. Um prato de tacacá serve um e custa R$5. Dá pra comer sentado à sombra da mangueira – sempre de olho nas frutas que caem maduras a cada cinco minutos. Mais que isso é reunir-se com os amigos para ver a lua na praia do Lago Verde ou pendurar a rede em alguma árvore – a melhor opção para escapar das formigas – e passar a noite aí. Alter do Chão pode não ser boêmia, mas tem noites inesquecíveis. De volta ao Amazonas Uma semana depois de chegar a Santarém era hora de voltar a carregar a mochila e entrar em movimento de novo. De Santarém saem barcos a Belém quase todos os dias, e os preços são parecidos aos do porto de Manaus. Desta vez, já acompanhada por um grupo grande, conseguimos negociar a R$80 a viagem, que dura dois dias e meio e começa no encontro entre o Tapajós e o Amazonas, marcado pelo contraste impressionante entre o verde do primeiro e o marrom claro do segundo. O segundo trecho do caminho em direção ao oceano é diferente. O barco passa por mais portos, ancora por alguns minutos para que entrem e saiam passageiros e vendedores de comida, bebida e artesanato. Ao longo do caminho já é possível observar mais sinais de que o homem chegou por ali, e não sempre em missão de paz. Em alguns momentos se vê em uma margem a vegetação amazônica, na outra grama e gado. Já mais afastados do que próximos a Santarém, as margens se aproximam e vemos pequenas casinhas fincadas no Amazonas, cuja saída, passando a porta, é um píer com um pequeno barco de pesca à porta. Desses pequenos povoados saem adultos e crianças remando em direção ao nosso barco. Olho para o lado e vejo que outros passageiros jogam bolsas plásticas que são rapidamente recolhidas pelos mais ágeis. São roupas, remédios e biscoitos que flutuam no rio para chegar às casas que dele vivem. Desta vez o barco era um pouco maior, estava mais vazio, e o meu lugar era invejável: sem muitos vizinhos, eu estava no segundo andar, longe do motor e perto da festa. A trilha sonora se mantinha, Vitor e Leo ou Calcinha Preta, mas os passageiros pareciam mais animados. Talvez pela viagem ser um pouco mais longa e o controle de horário do bar mais rígido, a festa – diurna – se armou em poucas horas. Éramos poucos no barco e todos queriam aproveitar o bar aberto, além de escutar a música que, por sorte, estava a um volume que permitia o sossego dos de baixo e a animação dos de cima. No terceiro dia, depois de aproveitar a festa, a tranquilidade e a alegria de estar flutuando sobre o Rio Amazonas, aparecem os primeiros sinais de que a viagem está chegando ao fim. O rio vai mudando de cor e os mais impacientes – e experientes – já vão desarmando a rede e arrumando a mala. De repente, de longe, uma imagem que parecia fora do contexto: edifícios enormes misturados com arquitetura colonial davam a pista de que em meia hora chegaríamos ao porto de Belém. Mas aí é outra história. Para comer bem na Amazônia não é preciso gastar muito dinheiro. Uma refeição para duas pessoas em um restaurante tradicional pode custar entre R$30 e R$50. A melhor opção é escolher um peixe da região acompanhado de alguma iguaria típica (um bate-papo com a pessoa que te atende pode ajudar muito na hora de escolher o prato). Minha sugestão é não deixar de provar o Tucunaré, o Pirarucu ou o Tambaqui. Para viajar nos tradicionais barcos de transporte comercial de passageiros do Amazonas o ideal é chegar ao barco com antecedência. Duas horas antes do horário de partida os melhores lugares já estão ocupados. Fuja, correndo se possível, da área próxima ao motor do barco. Para conseguir bons preços nas passagens de barco o ideal é juntar gente e negociar em grupos grandes. Quanto mais passageiros compram com um mesmo agente, mais barato sai o bilhete. Os desprevenidos que queiram viajar em rede não precisam se desesperar. Basta dar uma volta pela zona do porto não-oficial de Manaus e, com um pouco de pechincha, comprar excelentes redes por R$25. *** Onde pagar pouco e dormir bem Manaus: Filiado à rede Hostel International, tem quartos com ar condicionado ou ventilador, banheiro privado ou compartido. Há quartos compartidos, individuais e para casal. Tem café-da-manhã incluído e cozinha coletiva para economizar no restaurante. A internet é grátis. Alter do Chão: O albergue tem cômodos amplos e ventilados onde se pode pendurar a rede (com mosquiteiro, sempre) e dormir a preços módicos. Para os que estão em casal, mas não querem gastar muito, a opção é descolar um cantinho para montar uma barraca. A opção mais confortável é ficar em algum dos quartos, mas é bom reservar antes. O atendimento é impecável, uma boa cozinha coletiva e o ambiente é excelente. Belém: Gentileza e simpatia no atendimento. Tem cozinha coletiva e internet (paga). Os quartos não são muito bons, mas é o melhor custo-benefício para uma viagem de mochila. *A repórter fez o roteiro Manaus-Santarém-Alter do Chão-Santarém-Belém em viagem de férias, com o marido argentino, Frederico, ao longo de duas semanas. E-mail: alineboueri@gmail.com Esta reportagem foi originalmente publicada na edição 18 da Revista Plurale. |