Webjornal - Mensal  - Edição 100 - Aracaju, 08 de abril a 06 de maio de 2007
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Letras Lusas

Confitor Deo

Por Fernando Reis*

Consta, da minha certidão de nascimento, que antes de Ser já era eu na larva dos sentidos de duas pessoas que se diziam amar e se calhar se amavam… já era eu na película do tempo que se chamava futuro.

 

Que meus olhos, não sendo ainda olhos, já viam na noite escura e inventavam a luz onde somente trevas havia… e meus dedos, nos meus punhos fechados no ventre de minha mãe, já se revoltavam por não ter a liberdade de ser naquela prisão materna que se chamava útero.

 

Nove Luas Novas ou Cheias – tanto faz – passaram na imensidão do infinito e eu nasci. Fui parido numa noite fria, gelada, do mês de Dezembro, num dia onze. Podia ter sido noutro dia qualquer, mas tinha que ser no mês de Dezembro. O mês em que o Messias nasceu. Ele, o único digno deste mês! Ele, que nasceu para viver e padecer pela humanidade… que a humanidade fez padecer! E este mês tinha que ser meu também, para viver e padecer com a humanidade.

 

Quando cheguei, do ventre da minha mãe parida ao fim dessas nove luas gigantes, cheguei com dores e sem cânticos ou trombetas celestes. Apenas o cheiro da terra molhada e um frio gelado a entorpecer as almas do mundo. Meus dedos, nas minhas mãos que se abriam e fechavam sem parar, queriam abarcar o espaço, agarrar o mundo e o tempo, e os meus olhos viram pela primeira vez, cá fora, essa primeira luz que eu já vira lá dentro nas trevas da barriga  da minha mãe.

 

Gritei. Não chorei, gritei. Gritei ao mundo a revolta desta clausura eterna de nove meses sem liberdade, mas dos nove meses de prisão de luz que me davam a vida para viver um dia. Senti que estava vivo e pronto para começar a grande viagem. A grande viagem do tempo presente vindo eu de outra grande viagem de um tempo passado. Uma grande viagem que me remeteria a um tempo futuro talhado pelo destino neste universo fluente.

 

Cheirei a maresia vinda duma praia distante atravessando mares insondáveis nas gáveas do navio do tempo. E ouvi na voz do silêncio ditada pelos búzios vazios que deram à costa vindos doutra costa distante, uma voz suave de mulher cigana predizendo o futuro. Nessa voz do silêncio vinda dos búzios vazios que sabem da existência dos continentes e ilhas perdidas na lonjura da bruma da tarde e planetas distantes, nesse espaço sideral doutros sistemas solares onde se sonha o sonho de alguma amante já amada um dia, sonhei!…

 

Sonhei o fogo fátuo da paixão que arrebata o querer e quebra a vontade e esquece a razão… e vi esse fogo, sendo eu ainda acabado de nascer, vi o seu crepitar e consumir-se eterna e permanentemente, e diluir-se no tempo.

 

Nada é eterno! – pensei, sendo eu ainda acabado de nascer.

 

E soube da música da água que corre nas fragas e nasce da terra, essa música suave desse jardim-paraíso de margaridas campestres que meu espírito veria mais tarde com o meu corpo preso à terra, em viagens celestes para além desta vida. E soube da voz, dessa tua voz que sabia de cor sem te conhecer, contudo. E vi ainda esse riso de mulher criança… vi-te no tempo em que não te conhecia, no tempo longínquo dum passado presente, de tranças pretas e longas e olhos lagos de puro cristal, esperando por mim na planície do tempo sentada à beira das águas cristalinas e puras que correm, lendo o livro do tempo,  sob esse céu azul e luar de lua cheia que te encantava e inebriava a alma por dentro.

 

Soube eu, do mundo, ao nascer, que um dia se consumiria nesse fogo fátuo de paixão e ódio. Eu, que vim de tão longe, e antes de ti me quedei no fundo do tempo. Mas não me perguntes porquê nem por onde eu fiquei. Foi para além do tempo… desse tempo passado e presente, e esperei por ti… que tu chegasses um dia. E aconteceu! Mas eu parti de ti e de mim me perdi no tempo presente que mais tarde tornaste futuro. Nesse tempo me perdi, sem mapas nem bússolas, sem ângulos e sem bissectrizes do tempo.

 

E sem roteiros nem nada me fui por aí… e tu, na busca incessante, já do tempo em que vinhas na voz dos búzios desse continente distante, me achaste e perdeste. E eu, Ser acabado de ser me encontro e me perco de ti e me cegas da vida que procuro no tempo e nesse tempo te encontro e te agarro com dedos ardentes… famintos… como quem busca ansioso, e perdido encontro o caminho e digo:

 

Vamos, pelo sonho é que vamos!

 

Mas minha cabeça febril estremece. Ela tem tantas coisas para pensar. Eu tenho tantas coisas para dizer urdidas nesta cabeça febril que pensa. Eu procuro escrever a cor das ideias que afluem à minha cabeça sem saber, sequer, se elas têm cor. Creio que elas podem ter a cor que nós lhe quisermos dar, nesta loucura  que pensa tudo e pensa nada ao mesmo tempo.

 

Bate-me a alma por dentro. Pum-pum, pum-pum. pum-pum… sempre neste bater constante. Parece um coração a bater na expectativa de não perder a vida. Às vezes, é já um bater ténue que se transforma no gorgolejar de um ruído áspero dum barco que se afunda aos poucos.  O meu barco sem velas e sem bússola…

 

Na minha cabeça o silêncio tentador, com misturas de imprevistos, faz doer.

 

Houve tempo em que com os meus dedos firmes eu fazia vibrar as flâmulas da vida. Hoje, com eles, eu toco ao de leve, apenas, as trémulas campânulas da luz. Desta luz que ainda teima e alumia. Da luz que da noite se faz dia. Da luz que tomba à mesa dos pobres na sua infantil aura de agonia.

 

Por isso eu quero partir.

 

Partir! Vestir a minha nau de ilusão e partir. Partir, como a desvendar o sonho doutros tempos do Infante manobrando caravelas, navegando à luz dessas estrelas e arrancando misteriosos Continentes ao incerto transformando-o em maravilhas. Ir por esse mar fora, como dantes, reforçado na minha fé de marinheiro e navegar até onde o céu se confunde com o azul do oceano e dá à luz floridas ilhas – eu, o mar e o meu eterno cantar – sem saber se chegarei nesta imensidão, sem esquecer que o destino não está aqui preso na palma da minha mão.

 

O que importa é partir. Não é chegar!

 

Mas, se no fim da caminhada sem norte não tiver encontrado mais que o Nada, então não há remédio que valha, nem milagre que o Céu traga para poder sarar esta chaga da velhice.

 

Que chatice!

 

Até já fiz o meu “Testamento à Morte”.

 

Arrepia-me a velhice. Mais que a morte, a velhice. Da morte não tenho receio nem medo. Pouco me importa… quando ela estiver para vir tem que ser uma morte súbita, que não me faça cair no desânimo nem faça sofrer à minha volta. Não quero ver ninguém vestido de dor a sussurrar coisas que não consigo entender. A contarem sobre mim histórias passadas doutros tempos entre risos mal disfarçados, até invenções sem sentido, ao verem o meu sofrer sem cura e sem remédio com a intenção de me distraírem do rumo da morte certa.

 

Pior que a própria morte, é este tédio!

 

Mas quem me diz a mim que todos sofrem em meu redor?! Porventura muitos nem do que resta de mim se aproximarão. Por isso quero uma morte rápida. Que uma morte lenta, não presta! Fulminante, mas sem ser funesta. Que me faça morrer de repente. Eu quero a morte como um destruidor furacão sem tubos nem nada por cima de mim, muito menos desses tubos esquisitos invadindo as minhas podres entranhas…

 

Não quero tubos assim… daqueles tubos que saem de máquinas estranhas, tubos suspensos em aço inoxidável e frio. Frio como a morte fria aqui ao lado a espreitar naquele quarto vazio. Frio como o mármore frio deste hospital onde a morte, ao corpo que vegeta, afeita, teima, deitada, em desenhar tardiamente uma cova estreita para nela se deitar.

 

Desta morte, assim, não quero absolutamente nada. Nem quero gente em câmara ardente que entra e sai e espreita e fala entre si tal qual as varinas, nem ventosas coladas ao corpo, nem os tais tubos que entram em mim pelas narinas…

 

Quero uma morte que seja só minha, de todas as outras mortes diferente!

 

Não quero uma morte fabricada no frio deste hospital onde a vida vegetativa à espera da morte faz filas demoradas. Quero uma morte rápida, sem filas intermináveis para essas consultas marcadas e eternamente adiadas. Não quero viver daquelas máquinas donde saem tubos sem fim, nem médicos, nem enfermeiras vestidas de branco à volta de mim à espera que os gráficos de picos, altos e baixos, passem a linha recta e contínua até se ouvir aquele silvo agudo a indicar o meu fim.

 

Já disse mil vezes, e repito outras tantas mil, que não quero tubos ligados a mim!

 

Também não quero ninguém esgaravatando a minha carne já quase morta em experiências demoradas. Estas entranhas, mesmo podres de moléstias quantas, são minhas, não pagam renda nem são alugadas. Valem o que valem, mesmo não tendo o valor que tinham dantes.

 

Deixam para sempre de pagar tudo… até os impostos a essa cambada de chulos que são os governantes!

 

E mais: quando eu morrer também não quero choros nem lágrimas, nem óculos escuros em rostos compungidos de dor fingida escondendo olheiras que nunca existiram, nem a dor da perda que jamais sentiram. Fica dito! E ninguém de luto vestido

para que eu possa descansar, em paz, deitado ao comprido numa cova rasa onde apenas esteja escrito:

 

aqui jaz o esqueleto, sem préstimo, dum desnaturado, que fez sofrer tudo e todos em todo o lado e por castigo parte, enfim, para incerto destino”.

 

Quando eu sentir que estou de partida e se a morte, que não temo, me não quiser levar de repente, Deus permita (ou até o demo) que tenha eu ainda forças e a coragem que nestas alturas falta a muita gente, para com dignidade continuar a cantar a vida. Assino!

 

*Escritor português

                                

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