
Webjornal - Mensal - Edição 96 - Aracaju, 10
de dezembro de
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Crônica Por Fernando Reis* À guisa de crónica, fingindo estar a escrever para quem me (não) lê,
que os de boa audição me escutam, recordo por vezes certas coisas que, com
muita mágoa reconheço pecado e da “mea culpa” me penitencio, que indulto não peço. Acodem-me à
memória certas injustiças feitas, umas com maior razão que outras,
que indignam muitos – os que não estão por dentro do que as motivou e
ousam pronunciar-se, sem conhecer a realidade dos factos,
posicionando-se sempre do lado de onde pensam poder tirar maior proveito
movidos pelo interesse e pelo habitué da
escova e graxa, mas também pela (má) influência de terceiros que seguramente
só conseguem viver alimentando-se da intriga e alimentando-a com o seu
próprio veneno de língua viperina e suja; e os que, não conhecendo esses
reais factos, se calam, cobardemente, sem emitirem
qualquer juízo de valor, mesmo que seja o mero argumento jurídico “in dúbio pró réu”, com medo da
retaliação desses outros tão hábeis na condução de conflitos, quase
contribuindo para a ajuda do esticar da corda que contém o laço, à volta do
pescoço pronta a estrangular o nó de Adão do desgraçado que teve a desdita de
se aproximar do fruto proibido. E à memória me
assaltam, também, certas difamações caluniosas que, dia a dia, são o objectivo daqueles que delas se servem para vingar na
vida, fazendo do atropelo do seu semelhante o seu “modus vivendi”
para vencer, que de outro modo não sabem. Falta-lhes o saber ser com
honestidade e verdade, valor que deveria ser herdado do berço que não tiveram
à nascença. Uns, com os
seus gritos furibundos e na posse de (duvidosos) factores
de opiniões e crenças, vertem o fel do boato que aguça o gume da maldade com
vista a tornar-se o mais poderoso elemento do progresso humano. As suas
paixões, poderosas, facilmente se tornam colectivas,
e alteram, mais das vezes, a justeza das opiniões,
impedindo de ver as coisas como elas são na realidade e de compreender a sua génese. Vestem-se de finas roupagens, imiscuem-se com o
boato, que corrói, constroem dele uma (falsa) realidade palpável de factores que intimidam, dissuasores e que oprimem. Outros, por
preguiça mental, inércia, ou medo de retaliações, não cuidam saber da
realidade dos factos, o que tem como principal inconveniente a conivência, tácita, da proliferação da injustiça, pois
que, das opiniões baseadas em explicações erróneas,
e distorcidas, admitindo-as como definitivas, não se atrevem a procurar
outras. Ou seja, negam-se, à partida, a procurar a verdadeira verdade
admitindo, como certas, as premissas falaciosas que lhes contam nas costas
dos injustiçados. Tanto mais gravosos quando estes têm cargos de chefia e poderes de decisão. E depois ainda há os restantes que se escondem cobardemente, por
detrás da sombra que disfarça o medo e furta a coragem de vir à liça defender
o justo. Porquê? Simplesmente porque lhe interessa
ter um reino de medo, de calúnia e boato… simplesmente porque lhes interessa
ter o rastilho que propaga o fogo e faz detonar a bomba… simplesmente porque
também engordam do veneno que lhe corre nas veias… simplesmente porque se
defende a verdade, fica rapidamente sem assunto para alimentar a intriga. E
os boatos crescem de tal ordem que acaba em verdade o que na realidade é
mentira. Mas pior que todos estes, são aqueles que com as suas palavrinhas de
“putas
mansas” inebriam, com o boato e a mentira, quem tem o poder da decisão e
que, levados no canto da sereia, se deixam influenciar e decidem mal. Junta-se o fel ao veneno e transborda a taça. Coitados
destes! São fracos chefes! Se aos primeiros lhes falta a dignidade para se saberem guindar na
vida pelo seu valor e, cobardemente, ferem e matam
com o aço afiado e frio do boato a calúnia, os segundos cavam a sua própria
sepultura levados pelo canto inebriante da sereia que vomita a mentira,
encoberta pelo veludo macio das palavras meladas e melodiosas da diva, pois à
hora menos pensada “transforma-se o
amador na coisa amada”. Estes, serão o Salvador Allende atraiçoados pela ambição política daqueles, os
ditadores Pinochet, a quem o primeiro deu a mão. Resta a estes últimos, aos
tais chefes que preferem o “ouvi dizer…” sem a coragem de por o dedo na
ferida de quem a tem, o poder do padre que lhes ministre o sacramento da
extrema-unção. *Escritor português |
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