
Webjornal - Mensal - Edição 99 - Aracaju, 04
de março a 01 de abril de 2007
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Literatura Por Fernando Reis* “Por um caminho à noite caminhava caminhava de noite sem sentido pela própria cadência era levado […] Caminhava de noite e não sabia sequer o rumo e o sentido. […]” (Manuel Alegre, em “Livro do Português Errante”) Seriam duas da madrugada. Reinava
um silêncio comprometedor. Até o
galo pedrês, que funcionava como um autêntico relógio suíço, se negou a
cantar naquela noite. O Leste, cão
corpulento de raça indefinida, branco como a neve, lá
fora, cuja corrente de correr deslizava num arame de aço fixo ao chão
que chegava do extremo do muro, qual muralha, à esquina oposta da casa, onde
terminavam os quartos de dormir, apenas gemia baixinho. Como se estivesse com
dores e não quisesse acordar os donos. Parecia um gemido de morte... ofegante e doloroso. E foi este modo de gemer, nunca antes
ouvido ao animal, que os acordou. Primeiro a ele, depois a ela. "Alzira, estás a ouvir?" "O quê? – ela, num arrufo ensonado, na sua voz seca e áspera, de comando, como lhe
era habitual, como se quisesse estar sempre a inspirar confiança e ânimo a si
própria. "Dorme
mas é, e deixa-me dormir. Amanhã tenho que trabalhar." "Hum…
olha que tu... e eu não trabalho?” – ele, amuado, virando-se para o outro lado da cama mas sempre de sentido apurado que até era duro de ouvido. "Alzira... – ele numa voz ansiosa e em sobressalto …parece que oiço
passos... não ouves? Raios, tanto dormes, diabo..." Mais
uma volta na cama... e outra, ainda, na tentativa de
conciliar o sono. (Era impressão sua.
Só podia ser. – pensou) Culpa
daquele maldito silêncio que o torturava naquela noite tão longa. Mas aquela
agitação mórbida, preocupava-o. Teve até a tentação
de se levantar e ir lá fora ver o que se passava, mas algo o impelia a ficar
na cama. Dava voltas e mais voltas... Deixou
de ouvir os queixumes do cão. Afinal sempre era impressão sua! A mulher tinha
razão. Mas um sexto sentido dizia-lhe que não estava enganado. Deitado de
barriga para o ar com as mãos sob a nuca, tentava
perceber, no silêncio pesado e abstracto da noite,
qualquer ruído diferente dos habituais que a povoam, que lhe justificasse
aquele receio inusitado. "Maldito ouvido que tanto me atraiçoas…" – ele, em referência à sua surdez,
cada vez mais evidente a cada dia que passava. Aquela
sensação estranha continuava a incomodá-lo. Tinha a certeza que ouvira algo,
como se fosse um leve arranhar de um gato na porta ou na janela. Talvez fosse
mesmo a Malhada –
nome da gata que adorava perseguir lagartixas e pássaros – atrás de alguma
pomba, mais descuidada, que tivesse ficado no telhado em vez de se ter
recolhido ao pombal. Mas alguma coisa lhe dizia que não! Apurou ainda
mais o outro ouvido são. Fixou o olhar, atento, num ponto fixo que parecia
brilhar no negrume da noite, apesar da brancura do forro do tecto, como se de estrela se tratasse a funcionar de
aviso, dentro daquele quarto onde não entrava qualquer réstia de claridade.
Isto dava-lhe a certeza de ser mais preciso no que
ouvia. De repente tornou-se mais audível. Não deixava dúvidas! Era o forçar
de uma porta. Da porta de entrada do comércio. Agora tinha a certeza.
Estremeceu estarrecido. De um pulo saltou da cama e vestiu as calças por cima
das ceroulas. "Alzira, acorda. Estamos a ser assaltados. Vão matar-nos. Ai a minha rica menina…" – ele, numa súplica aflitiva. "És teimoso! Vai dormir
para o quarto dos rapazes...” – ela, naquela voz autoritária de sentimentos
desprovida, referindo-se àquele que fora o quarto dos filhos situado na outra
ala da casa. Um, casado e a viver na cidade grande e
outro, ausente numa comissão de serviço militar em Moçambique. Mas... também ela pareceu detectar qualquer ruído diferente
daqueles que a noite tem. Agora sim. O seu
Zé tinha razão. Também ela teve a certeza. O seu ouvido de tísica, até
àquele momento numa pausa prolongada de preguiça desusada, detectou logo o
local exacto do arrombamento. Forçavam a porta do
comércio. Da loja, como lhe chamavam. Daí a pouco estariam no seu interior...
Com a celeridade
que se impunha, saltou também ela da cama e vestiu a saia, mesmo do avesso,
na pressa de se vestir. Ele, apesar dos seus sessenta e um anos, puxou rápido
da caçadeira, postada em sentido ali aos pés da
cama, e introduziu-lhe dois cartuchos. Colocou à
cintura a cartucheira repleta deles, carregados de zagalotes.
"Acorda a menina. Rápido...
mas sem ruído. Fernandinha acorda, minha filha. Os
guerrilheiros vão matar-nos..." Ela,
nos seus doze anos acabados de fazer, ia a querer chorar
mas o dramático da situação, por incrível que pudesse parecer, deu-lhe
forças para aguentar, como um homem, e opinar a fuga
pela janela do banheiro, que dava para as traseiras da casa. Uma janela onde
mal cabia o seu corpo de criança. Era a única hipótese. Já
haviam arrombado a porta do comércio e prestavam-se agora a arrombar a da
outra casa, contígua a este, e cujos interiores se comunicavam. Estavam já
ali ao lado. Perfeitamente audíveis no seu dialecto
mbundu. "Ai a minha rica
filha!" – lamentava-se
o pai. "Fugi vós que, enquanto eu
tiver cartuchos, não vos hão-de fazer mal." "Nada disso. Fugimos todos.
Como é que o pai lhes quer fazer frente? Vamos enquanto é tempo." – argumentou a filha encorajando
os velhotes. Foram
segundos difíceis, de indecisão, que pareceram séculos. Já se ouviam as vozes
dos rebeldes no interior da casa, ainda ela às escuras – valia-lhes o facto de ainda não haver iluminação eléctrica
naquelas bandas. Mas, por outro lado, eles também não faziam uso de lanternas
a pilhas, pois pretendiam o ataque pela surpresa. Estavam já na dependência
ao lado, a escassos dez metros deles. Sentia-se no ar o odor forte da catinga
misturado com o bafo agridoce do cachipembe –
aguardente de açúcar mascavado e farelo fermentado – e do tabaco mascado. "Quê da canangué?...
Quê da canangué?..." – repetiam em voz fastidiosamente
ébria referindo-se à jovem filha. Era
agora ou nunca. Foi o tempo necessário e suficiente para saltarem pela
janela. Valeu-lhes o escuro reinante na casa e o desconhecimento da sua planta
por aqueles que iam para matar. Saltaram: primeiro a filha, depois a mãe e,
por fim, o pai, após um último olhar para o interior escuro, na expectativa
de poder desvendar um vestígio de rosto, que fosse, daqueles a quem ouvia as
vozes. Mas o negrume da noite e a ausência de qualquer
réstia de luz fundia-se, numa simbiose perfeita, com a negritude dos
corpos. No
quintal ninguém. Estava provado de que quem arrombara a casa e se preparava
para matar não eram habitantes da sanzala. Não
conheciam as traseiras da casa, caso contrário teriam também atacado por ali,
impedindo qualquer hipótese de fuga. Em silêncio e sem pressas, para não
serem denunciados, dirigiram-se para o fundo do pomar onde havia plantado,
uma dúzia de anos antes, cerca de um milhar de laranjeiras. Passaram por um
vulto branco deitado sem vida no chão. Era o Leste que, ingloriamente, morrera envenenado com qualquer comida,
para perpetrarem mais à vontade o crime. "Coitadinho!
Mataram-no!"
– disse a mãe, enquanto ajoelhava a seu lado numa rápida e sentida carícia,
qual homenagem sagrada, ao seu alvo e frio corpo. E desatou num convulsivo
choro, sufocando na garganta um grito de raiva e desespero. Ainda lhe parecia
quente aquele corpo e pareceu-lhe até que ainda respirava. Quis levá-lo
consigo, ao colo, não fosse ele tão pesado... "Coitadinho..." "Vamos mãe!" – e foi arrastada
dali pela mão corajosa e pequenina daquela filha tão franzina e nova. Ao
passarem ao fundo do muro que circundava a casa, misturados, no negrume
da noite, com a sombra das laranjeiras do pomar, o velho relançou um último
olhar para a casa e pôde ver, agora, quatro ou cinco vultos fardados e
armados à porta do comércio, ora entrando ora saindo. Ainda levou a caçadeira à cara, sendo, de imediato, impedido pela
mulher. Terá sido a sorte deles! A esse gesto, dela, ficaram os três a dever
a vida. Cabisbaixo e impotente – olhos rasos de
água, pois um homem nos momentos difíceis também sabe chorar – dirigiu-se com
a mulher e a filha para o fundo do pomar na pressa de fugir à morte. *Escritor português |
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