Webjornal - Mensal  - Edição 83 - Aracaju, 09 de outubro a 06 de novembro  de 2005
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Jornalismo

"Eu botava as vírgulas no lugar"

Por Paulo Marcio Vaz*

Estudo, ousadia, determinação e muita leitura. Estes são alguns ingredientes do sucesso de Ana Arruda Callado, primeira mulher a ser chefe de reportagem no Brasil e a primeira jornalista a ganhar o Prêmio Esso. Nesta entrevista, uma pequena aula de uma grande mestra.

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BN - Fale um pouco da sua infância, de sua família... Você é do Rio?

Ana Arruda Callado - Não. Nasci em Recife, em Apipucos, mesmo bairro onde nasceu Gilberto Freire. Minha família é toda pernambucana. Viemos para o Rio no começo de 45, quando completei oito anos.

Meu pai trabalhava muito, era engenheiro bem remunerado  e seria um homem abastado, se ele e minha mãe não tivessem cometido a maravilhosa loucura de ter quinze filhos. Com quinze filhos ninguém é abastado, se vive de salário e honestamente. Tive uma infância de muita cultura. Nunca vi meu pai de noite que não fosse com um livro. Ele era  um engenheiro diferente: fazia questão de que todos estudassem. Éramos doze mulheres e três homens e, dos quinze, só duas das minhas irmãs não fizeram curso superior. Meu pai sempre dizia: “Minha filha, mulher não pode virar escrava de homem. Tem que ter uma profissão.” Fiz bons colégios e não fiz o curso primário. Adoro não ter feito o curso primário! Fui direto pro exame de admissão. Eu lia sem parar. Passei, sem problemas.

BN - Você se formou em Jornalismo?

A.A.C. -Em 55, entrei para o curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, onde me formei em 57.  A Faculdade Nacional de Filosofia, pra mim, foi a única universidade que eu conheci no Brasil. Porque eu acho que essas coisas que tem por aí agora não são universidades. Um bando de escolinhas de 3º grau que dão ensino de 2º grau. Nenhuma culpa de professores e alunos. É que, em geral, tudo foi baixando. Qual é o espírito da universidade? É quando o aluno tem  possibilidade de ter o conhecimento universal. Você quer fazer Jornalismo, mas tem chance de estudar Física, História. Por que não? Minha faculdade se chamava Faculade de Filosofia, Ciências e Letras. Tinha o curso de Geografia, de Geologia, de História, de Física, de Línguas Latinas, de Jornalismo... O curso de Jornalismo era totalmente humanístico. Não tinha sequer  uma máquina de escrever. A gente tinha aula de História da Arte, Ciência Política, Técnica de Redação em Jornalismo, Técnica de Periódico... Na realidade, eram aulas absolutamente só teóricas. Lá eu aprendi o Brasil, aprendi a conviver, aprendi política. Se fazia muita política na faculdade.

BN - Como foi o início da carreira?

A.A.C. - Ainda como estudante, tive uma rápida passagem pela Tribuna da Imprensa, onde fiz um curso dado pelo Carlos Lacerda para o pessoal da redação. Que maravilha, que aulas...eu nunca esqueci! Com ele descobri, por exemplo, que todo jornalista deve ler sempre o Diário Oficial. Tem muita pauta escondida ali. Depois dessa rápida passagem pela Tribuna, me formei e fiquei doida pra trabalhar num jornal. Me disseram que o Jornal do Brasil havia começado uma reforma. Então, fui lá com a cara e a coragem, procurei o Wilson Figueiredo, chefe de reportagem, e falei: “Olha, eu queria trabalhar aqui.” Ele ficou me olhando e perguntou: “Por Quê?”. Então eu disse: “Eu fiz o curso...”. Ele deu um risinho. Na redação eles riam de quem fazia o curso. Então ele saiu, foi falar com o Odilo Costa Filho,editor chefe, e eu fiquei observando a conversa de longe. O Wilson voltou e disse: “Tudo bem. Nós vamos deixar você fazer um estágio aqui. Você começa segunda-feira.”. Ao voltar pra casa e contar a novidade, minha irmã mais velha me lembrou de um detalhe: “Segunda-feira é dia 1º de abril. Vão todos rir da sua cara!” E no dia, o meu drama: ia ou não ia? Eu disse: “Eu vou. Se rirem da minha cara, tudo bem. Mas eu vou!”.  Chegando lá, ninguém nem lembrou que era 1º de abril e comecei a  trabalhar.

BN - Você já chegou ganhando prêmios...

A.A.C. - Meu primeiro prêmio foi o Herbert Moses, poucos meses depois de ter entrado para o jornal, quando fiz uma série sobre reforma agrária, cujo título era: “Reforma Agrária: todo mundo fala, mas ninguém faz.” Isso, em 58. Eu fiquei no arquivo da Câmara dos Deputados vendo todos os projetos de reforma agrária que tinham existido, lendo um por um, vendo o autor, de onde era, de que estado era. Então,  fiz uma matéria muito consistente e tive o privilégio de conhecer o Barbosa Lima Sobrinho, o Dr. Barbosa, como o chamávamos, que havia feito o “Estatuto da Cana-de-açúcar”, uma bela idéia de reforma agrária local. No JB, eu pratiquei uma reportagem que estava meio esquecida, que era a reportagem de arquivo.

BN - E o Prêmio Esso, como foi?

A.A.C. - Em março de 59, já quase há um ano no jornal, eu fiz a série sobre infância abandonada, outro problema que esta aí, que me fez ganhar Menção Honrosa do Prêmio Esso. Pra vocês não pensarem que menção honrosa é “qualquer coisa”, deixa eu dizer quem ganhou menção honrosa junto comigo: Helio Silva, da Tribuna da Imprensa; David Nasser, de O Cruzeiro; Mario Morel, de O Mundo Ilustrado; Bernardino Carvalho, de O Globo. Esses foram meus coleguinhas de menção honrosa.

BN - E você com 20 anos de idade...

A.A.C. - E um ano de jornal! É horrível dizer isso, mas eu tenho que dizer: eu realmente fui uma novidade muito grande no jornal. Tanto que depois de  três meses de estágio, o Odilo reuniu a redação toda, me deu de presente os quatro volumes da auto-biografia do Gilberto Amado, e comunicou a minha contratação.

BN - Por quê você foi uma novidade?

A.A.C. - O chefe de reportagem, o Wilson Figueiredo, era um homem de fina cultura. Um poeta. O Odilo era acadêmico e tudo mais. Mas a reportagem de base era feita por gente muito sem cultura e, principalmente, que não sabiam escrever. Tem uma história muito boa, que eu costumava contara para os meus alunos: um dia o Odilo me chamou em sua sala e eu percebi que tinha muita gente em volta da mesa dele. Entrei. Estavam aqueles caras patetas me olhando, e ele: “Ana, me diga: o que você leu do Machado?” Aí, fiquei vermelha e pensei: esses caras vão achar que eu sou maluca ou que eu estou mentindo, mas vou dizer a verdade. Aí, eu disse: “Tudo!”. Foi aquela gargalhada! O Odilo virou-se e disse assim: “Nós estamos rindo porque eu fiz uma aposta: garanti que você era leitora do Machado, porque você chegou aqui botando as vírgulas no lugar.” Então, eu acho que eu tinha esse diferencial: eu botava as vírgulas no lugar. E não tinha medo. Uma vez, o Odilo ficou danado comigo porque teve um tiroteio e eu saí, sem ordem, pra cobrir: “Você não pode fazer essas coisas!”, ele dizia. No jornal, u era muito bem cuidada. Os fotógrafos, motoristas...pareciam babás comigo, era muito engraçado. Eles me protegiam muito! Foram anos maravilhosos no JB.

BN - Por quê você saiu do JB?

A.A.C. - Em 62, aconteceu que os jornalistas começaram a se preparar para uma greve. Aí, fui para o sindicato, comecei a participar e entrei na greve. Durante dois dias, os jornais do Rio não saíram. Era uma greve dos gráficos, a que nós aderimos. A reação dos patrões foi violentíssima. O Chagas Freitas, presidente do sindicato, botou todos os advogados dele contra nós e foi uma demissão louca. Oitenta jornalistas foram demitidos. Foi terrível, mas foi o meu batismo. Aprendi que o mundo não era só de proteção e aplausos, como eu tinha tido durante os quatro anos. Além disso, os donos de jornais fizeram um pacto: quem tivesse sido demitido pela greve, não era admitido em jornal nenhum. Quando eu soube disso, fiquei alucinada. Dois ou três voltaram porque pediram desculpas, mas eu não ia fazer isso. Já tinha minhas convicções formadas. Então, aconteceu dessas coisas que no Brasil acontecem: Hélio Fernandes, da Tribuna da Imprensa,  que foi o melhor e o pior patrão que eu tive, não aceitou o pacto e me chamou. Lá fui eu pra Tribuna, fazer Economia. Depois, passei por outras editorias, fiz Internacional na Tribuna e no Correio da Manhã e cheguei a voltar pro JB pra fazer o Caderno I, um caderno infantil.

BN - Como aconteceu o convite para ser chefe de reportagem do Diário Carioca?

A.A.C. - Em 66, o Diário Carioca, que tinha sido um pequeno grande jornal, foi comprado pelo Horácio de Carvalho, que chamou o Prudente de Morais para dirigir. O Dr. Prudente então chamou o Zuenir Ventura para a chefia de redação e os dois resolveram me convidar. Eu fui a primeira mulher a ser chefe de reportagem. Eles fizeram muita propaganda disso, na época. Foi um desafio, mas minha vida tem sido isso: mudar e enfrentar desafios.

BN - Como foi, para uma mulher, ser chefe de reportagem naquela época?

A.A.C. - Foi horrível! Foi muito duro. O Diário Carioca tinha um grupinho de repórteres antigos muito unido e eles acharam um desaforo aparecer uma pessoa lá que não era do grupo e, ainda por cima, mulher. O Deodato Maia, por exemplo, o grande secretário de redação que todo mundo elogia, pra mim foi um terror. Sabe o que ele fazia? Ele descobriu que eu ficava vermelha quando ouvia palavrão. Aí, ele fazia o seguinte: atravessava a redação toda chamando as pessoas e dizendo todos os palavrões do vocabulário dele. Isso me chateava. Era pra me constranger mesmo. Já os mais novos, os estagiários me adoravam. Os antigos é que criavam problema. Até o dia em que um dos repórteres queridinhos da redação resolveu me desafiar. Ele não fez a matéria que tinha que fazer e ainda se recusou a me dar explicações. O demiti imediatamente e nunca mais tive esse tipo de problema no Diário. Não é agradável demitir uma pessoa, mas tive que fazer.

BN - Por quê o Diário Carioca acabou?

A.A.C. - Um jornal só pode ir bem, quando o dono do jornal gosta de jornal. Quando o dono acha que o jornal é só negócio, não dá certo. O Horácio de Carvalho só queria saber das minas de ouro dele. Por quê que o Jornal do Brasil tá assim? Porquê o Nascimento Brito ia pescar no Canadá, só tomando dinheiro do jornal É isso que eu sempre elogio do Roberto Marinho, por exemplo. Todo mundo acha que eu tenho que ter horror de Roberto Marinho. É claro que eu acho que O Globo e as Organizações Globo não fizeram bem a este país. Mas, do ponto de vista jornalístico, o Dr. Roberto é uma figura fantástica! Porque ele amava o jornal! Ele ia de manhã, trabalhar no jornal! Uma vez eu ouvi o Dr. Roberto dizer uma coisa que me impressionou muito. Por incrível que pareça, mas depois de 68 a coisa tava tão grossa no Brasil, que até a TV Globo andou ameaçada. Eu estava numa festa, na casa do Nascimento Silva, quando o Roberto Marinho disse: “Olha, não creio que haja ameaça, que vão me tomar a TV Globo. Mas, pode ser. Nesse governo tudo pode acontecer. E, se me tomarem a TV Globo, eu sobreviverei. Agora, o jornal, não. Se me tomarem o jornal, eu morro.”

BN - A ditadura atrapalhou sua carreira?

A.A.C. - A ditadura inviabilizou minha carreira. Entre 64 e 68, ainda era possível respirar. Depois, ficou impossível. Não tinha condição de trabalhar. Nesse tempo eu fiz política, entrei pra subversão e fui trabalhar na Editora Delta, onde fiz várias coisas, inclusive, a Enciclopédia Delta Universal, que eu coordenei toda. Depois, voltei a trabalhar, fazendo resenhas no Globo. Nunca mais eu fiz jornalismo mesmo. Tive uma recaída este ano, mas que durou pouco: a revista Pensar Brasil, que vocês nem conheceram, não é? Me dá uma dó...saíram quatro números. O pessoal lançou sem planejamento econômico e eu dizia: “Essa revista não vai durar...”, e a revista que me fez ficar toda animada pra voltar, acabou.

BN - Fale um pouco sobre O Sol.

A.A.C. - O Sol é o seguinte: Reynaldo Jardim é uma das pessoas mais criadoras que eu conheço. E ele tinha inventado, para o Jornal dos Sports, uma coisa chamada Cultura JS. Um caderno de cultura, dentro do Jornal dos Sports. De vez em quando, ele me pedia  umas matérias. Depois, ele inventou o Cartoon JS. Foi o maior sucesso. Durou pouco porque era uma coisa cara, com todos os cartunistas do Brasil, era uma festa! Aí, ele ficou íntimo do pessoal do Jornal dos Sports e convenceu-os do seguinte: fazer um jornal-escola, que futuramente seria uma escola de jornalismo. O pessoal achou maravilhoso, daria uma grande visibilidade ao Jornal dos Sports e o José Guilherme Padilha, que dirigia o jornal,  topou a idéia. Reynaldo imediatamente me chamou e fomos escolhendo o pessoal: Zuenir seria o chefe de redação ideal. Ele topou. Fizemos um concurso com anúncio no jornal,  para jovens universitários. Apareceu um monte de gente. Na prova oral, o Reynaldo  chegava e perguntava pros candidatos: “O que você acha de Mondrian?” Quando a pessoa respondia “Heim?!?!”, ele mandava embora na hora! Se dissese “...ah, eu gosto..” ou “...bem, eu não entendo muito...”, aí ele ia conversar. Assim ele escolheu cinco para a equipe de diagramação e os repórteres, eu escolhi todos. Aí, dentro do Jornal dos Sports, invadimos lá um espaço. O jornal foi precedido de um curso, onde todos os editores tinham que dar aula. O jornal então, saiu encartado no Jornal dos Sports diariamente, até ganhar autonomia e começar a sair sozinho. A partir daí, como era um jornal de oposição, a empresa começou a sofrer pressão. Era também um jornal caro, pois todos ganhavam, inclusive os estudantes. O Zuenir saiu, depois de dar o curso e de fazer um trabalho fundamental e eu fiquei como chefe de redação O Sol foi a melhor coisa que eu fiz na vida!

BN - Como você vê a imprensa hoje?

A.A.C. - A imprensa está tão ruim quanto o país. Uma questão que virou obsessão minha é a língua. Eu não agüento. Até eu estou falando errado. Por quê? Porque a contaminação é geral! A língua portuguesa está destruída. Outro dia eu li no Globo uma matéria com o seguinte título: “Jovens protestam a favor da prisão de Maluf”. Estava lá, no título e na matéria! Ninguém mais sabe o que significam as palavras. E isso quer dizer que os conceitos não têm mais importância. Tudo é espetáculo, eu acho que a imprensa tá nessa.

A imprensa tem que ser a vigilância, tem que dar ao povo a informação. Nunca em lugar nenhum do mundo a imprensa foi isso. Sempre foi negócio, com exceção da imprensa panfletária dos primeiros tempos e de alguns jornais, como O Sol. No primeiro número do Pasquim, o Millôr fez um editorial em que ele dizia: “Não sei se esse jornal vai durar. Se durar, é porque já se comprometeu.”

BN - Quais são seus planos para o futuro?

A.A. C. - Eu quero sossego.  Vou morar na roça. Estou construindo uma casinha em Araruama e, apesar de a Lagoa de Araruama estar extremamente poluída, ainda sonho em poder voltar a tomar banho lá.

*Estudante de jornalismo da FACHA, Rio de Janeiro


                                 

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