|
Jornalismo
"Eu botava as
vírgulas no lugar"
Por Paulo Marcio Vaz*
Estudo, ousadia, determinação e muita leitura. Estes são alguns
ingredientes do sucesso de Ana Arruda Callado, primeira mulher a ser chefe
de reportagem no Brasil e a primeira jornalista a ganhar o Prêmio Esso.
Nesta entrevista, uma pequena aula de uma grande mestra.
***

BN - Fale um pouco
da sua infância, de sua família... Você é do Rio?
Ana Arruda Callado
- Não. Nasci em Recife, em Apipucos, mesmo bairro onde nasceu Gilberto
Freire. Minha família é toda pernambucana. Viemos para o Rio no começo de
45, quando completei oito anos.
Meu pai trabalhava muito, era engenheiro bem remunerado e seria um homem
abastado, se ele e minha mãe não tivessem cometido a maravilhosa loucura
de ter quinze filhos. Com quinze filhos ninguém é abastado, se vive de
salário e honestamente. Tive uma infância de muita cultura. Nunca vi meu
pai de noite que não fosse com um livro. Ele era um engenheiro diferente:
fazia questão de que todos estudassem. Éramos doze mulheres e três homens
e, dos quinze, só duas das minhas irmãs não fizeram curso superior. Meu
pai sempre dizia: “Minha filha, mulher não pode virar escrava de homem.
Tem que ter uma profissão.” Fiz bons colégios e não fiz o curso primário.
Adoro não ter feito o curso primário! Fui direto pro exame de admissão. Eu
lia sem parar. Passei, sem problemas.
BN - Você se formou
em Jornalismo?
A.A.C.
-Em 55, entrei para o curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de
Filosofia, da Universidade do Brasil, onde me formei em 57. A Faculdade
Nacional de Filosofia, pra mim, foi a única universidade que eu conheci no
Brasil. Porque eu acho que essas coisas que tem por aí agora não são
universidades. Um bando de escolinhas de 3º grau que dão ensino de 2º
grau. Nenhuma culpa de professores e alunos. É que, em geral, tudo foi
baixando. Qual é o espírito da universidade? É quando o aluno tem
possibilidade de ter o conhecimento universal. Você quer fazer Jornalismo,
mas tem chance de estudar Física, História. Por que não? Minha faculdade
se chamava Faculade de Filosofia, Ciências e Letras. Tinha o curso de
Geografia, de Geologia, de História, de Física, de Línguas Latinas, de
Jornalismo... O curso de Jornalismo era totalmente humanístico. Não tinha
sequer uma máquina de escrever. A gente tinha aula de História da Arte,
Ciência Política, Técnica de Redação em Jornalismo, Técnica de
Periódico... Na realidade, eram aulas absolutamente só teóricas. Lá eu
aprendi o Brasil, aprendi a conviver, aprendi política. Se fazia muita
política na faculdade.
BN - Como foi o
início da carreira?
A.A.C.
- Ainda como estudante, tive uma rápida passagem pela Tribuna da Imprensa,
onde fiz um curso dado pelo Carlos Lacerda para o pessoal da redação. Que
maravilha, que aulas...eu nunca esqueci! Com ele descobri, por exemplo,
que todo jornalista deve ler sempre o Diário Oficial. Tem muita pauta
escondida ali. Depois dessa rápida passagem pela Tribuna, me formei e
fiquei doida pra trabalhar num jornal. Me disseram que o Jornal do Brasil
havia começado uma reforma. Então, fui lá com a cara e a coragem, procurei
o Wilson Figueiredo, chefe de reportagem, e falei: “Olha, eu queria
trabalhar aqui.” Ele ficou me olhando e perguntou: “Por Quê?”. Então eu
disse: “Eu fiz o curso...”. Ele deu um risinho. Na redação eles riam de
quem fazia o curso. Então ele saiu, foi falar com o Odilo Costa
Filho,editor chefe, e eu fiquei observando a conversa de longe. O Wilson
voltou e disse: “Tudo bem. Nós vamos deixar você fazer um estágio aqui.
Você começa segunda-feira.”. Ao voltar pra casa e contar a novidade, minha
irmã mais velha me lembrou de um detalhe: “Segunda-feira é dia 1º de
abril. Vão todos rir da sua cara!” E no dia, o meu drama: ia ou não ia? Eu
disse: “Eu vou. Se rirem da minha cara, tudo bem. Mas eu vou!”. Chegando
lá, ninguém nem lembrou que era 1º de abril e comecei a trabalhar.
BN - Você já chegou ganhando prêmios...
A.A.C.
- Meu primeiro prêmio foi o Herbert Moses, poucos meses depois de ter
entrado para o jornal, quando fiz uma série sobre reforma agrária, cujo
título era: “Reforma Agrária: todo mundo fala, mas ninguém faz.” Isso, em
58. Eu fiquei no arquivo da Câmara dos Deputados vendo todos os projetos
de reforma agrária que tinham existido, lendo um por um, vendo o autor, de
onde era, de que estado era. Então, fiz uma matéria muito consistente e
tive o privilégio de conhecer o Barbosa Lima Sobrinho, o Dr. Barbosa, como
o chamávamos, que havia feito o “Estatuto da Cana-de-açúcar”, uma bela
idéia de reforma agrária local. No JB, eu pratiquei uma reportagem que
estava meio esquecida, que era a reportagem de arquivo.
BN - E o Prêmio Esso, como foi?
A.A.C.
- Em março de 59, já quase há um ano no jornal, eu fiz a série sobre
infância abandonada, outro problema que esta aí, que me fez ganhar Menção
Honrosa do Prêmio Esso. Pra vocês não pensarem que menção honrosa é
“qualquer coisa”, deixa eu dizer quem ganhou menção honrosa junto comigo:
Helio Silva, da Tribuna da Imprensa; David Nasser, de O Cruzeiro; Mario
Morel, de O Mundo Ilustrado; Bernardino Carvalho, de O Globo. Esses foram
meus coleguinhas de menção honrosa.
BN - E você com 20 anos de idade...
A.A.C.
- E um ano de jornal! É horrível dizer isso, mas eu tenho que dizer: eu
realmente fui uma novidade muito grande no jornal. Tanto que depois de
três meses de estágio, o Odilo reuniu a redação toda, me deu de presente
os quatro volumes da auto-biografia do Gilberto Amado, e comunicou a minha
contratação.
BN - Por quê você foi uma novidade?
A.A.C.
- O chefe de reportagem, o Wilson Figueiredo, era um homem de fina
cultura. Um poeta. O Odilo era acadêmico e tudo mais. Mas a reportagem de
base era feita por gente muito sem cultura e, principalmente, que não
sabiam escrever. Tem uma história muito boa, que eu costumava contara para
os meus alunos: um dia o Odilo me chamou em sua sala e eu percebi que
tinha muita gente em volta da mesa dele. Entrei. Estavam aqueles caras
patetas me olhando, e ele: “Ana, me diga: o que você leu do Machado?” Aí,
fiquei vermelha e pensei: esses caras vão achar que eu sou maluca ou que
eu estou mentindo, mas vou dizer a verdade. Aí, eu disse: “Tudo!”. Foi
aquela gargalhada! O Odilo virou-se e disse assim: “Nós estamos rindo
porque eu fiz uma aposta: garanti que você era leitora do Machado, porque
você chegou aqui botando as vírgulas no lugar.” Então, eu acho que eu
tinha esse diferencial: eu botava as vírgulas no lugar. E não tinha medo.
Uma vez, o Odilo ficou danado comigo porque teve um tiroteio e eu saí, sem
ordem, pra cobrir: “Você não pode fazer essas coisas!”, ele dizia. No
jornal, u era muito bem cuidada. Os fotógrafos, motoristas...pareciam
babás comigo, era muito engraçado. Eles me protegiam muito! Foram anos
maravilhosos no JB.
BN - Por quê você saiu do JB?
A.A.C.
- Em 62, aconteceu que os jornalistas começaram a se preparar para uma
greve. Aí, fui para o sindicato, comecei a participar e entrei na greve.
Durante dois dias, os jornais do Rio não saíram. Era uma greve dos
gráficos, a que nós aderimos. A reação dos patrões foi violentíssima. O
Chagas Freitas, presidente do sindicato, botou todos os advogados dele
contra nós e foi uma demissão louca. Oitenta jornalistas foram demitidos.
Foi terrível, mas foi o meu batismo. Aprendi que o mundo não era só de
proteção e aplausos, como eu tinha tido durante os quatro anos. Além
disso, os donos de jornais fizeram um pacto: quem tivesse sido demitido
pela greve, não era admitido em jornal nenhum. Quando eu soube disso,
fiquei alucinada. Dois ou três voltaram porque pediram desculpas, mas eu
não ia fazer isso. Já tinha minhas convicções formadas. Então, aconteceu
dessas coisas que no Brasil acontecem: Hélio Fernandes, da Tribuna da
Imprensa, que foi o melhor e o pior patrão que eu tive, não aceitou o
pacto e me chamou. Lá fui eu pra Tribuna, fazer Economia. Depois, passei
por outras editorias, fiz Internacional na Tribuna e no Correio da Manhã e
cheguei a voltar pro JB pra fazer o Caderno I, um caderno infantil.
BN - Como aconteceu o convite para ser chefe de reportagem do Diário
Carioca?
A.A.C.
- Em 66, o Diário Carioca, que tinha sido um pequeno grande jornal, foi
comprado pelo Horácio de Carvalho, que chamou o Prudente de Morais para
dirigir. O Dr. Prudente então chamou o Zuenir Ventura para a chefia de
redação e os dois resolveram me convidar. Eu fui a primeira mulher a ser
chefe de reportagem. Eles fizeram muita propaganda disso, na época. Foi um
desafio, mas minha vida tem sido isso: mudar e enfrentar desafios.
BN - Como foi, para uma mulher, ser chefe de reportagem naquela época?
A.A.C.
- Foi horrível! Foi muito duro. O Diário Carioca tinha um grupinho de
repórteres antigos muito unido e eles acharam um desaforo aparecer uma
pessoa lá que não era do grupo e, ainda por cima, mulher. O Deodato Maia,
por exemplo, o grande secretário de redação que todo mundo elogia, pra mim
foi um terror. Sabe o que ele fazia? Ele descobriu que eu ficava vermelha
quando ouvia palavrão. Aí, ele fazia o seguinte: atravessava a redação
toda chamando as pessoas e dizendo todos os palavrões do vocabulário dele.
Isso me chateava. Era pra me constranger mesmo. Já os mais novos, os
estagiários me adoravam. Os antigos é que criavam problema. Até o dia em
que um dos repórteres queridinhos da redação resolveu me desafiar. Ele não
fez a matéria que tinha que fazer e ainda se recusou a me dar explicações.
O demiti imediatamente e nunca mais tive esse tipo de problema no Diário.
Não é agradável demitir uma pessoa, mas tive que fazer.
BN - Por quê o Diário Carioca acabou?
A.A.C.
- Um jornal só pode ir bem, quando o dono do jornal gosta de jornal.
Quando o dono acha que o jornal é só negócio, não dá certo. O Horácio de
Carvalho só queria saber das minas de ouro dele. Por quê que o Jornal do
Brasil tá assim? Porquê o Nascimento Brito ia pescar no Canadá, só tomando
dinheiro do jornal É isso que eu sempre elogio do Roberto Marinho, por
exemplo. Todo mundo acha que eu tenho que ter horror de Roberto Marinho. É
claro que eu acho que O Globo e as Organizações Globo não fizeram bem a
este país. Mas, do ponto de vista jornalístico, o Dr. Roberto é uma figura
fantástica! Porque ele amava o jornal! Ele ia de manhã, trabalhar no
jornal! Uma vez eu ouvi o Dr. Roberto dizer uma coisa que me impressionou
muito. Por incrível que pareça, mas depois de 68 a coisa tava tão grossa
no Brasil, que até a TV Globo andou ameaçada. Eu estava numa festa, na
casa do Nascimento Silva, quando o Roberto Marinho disse: “Olha, não creio
que haja ameaça, que vão me tomar a TV Globo. Mas, pode ser. Nesse governo
tudo pode acontecer. E, se me tomarem a TV Globo, eu sobreviverei. Agora,
o jornal, não. Se me tomarem o jornal, eu morro.”
BN - A ditadura atrapalhou sua carreira?
A.A.C.
- A ditadura inviabilizou minha carreira. Entre 64 e 68, ainda era
possível respirar. Depois, ficou impossível. Não tinha condição de
trabalhar. Nesse tempo eu fiz política, entrei pra subversão e fui
trabalhar na Editora Delta, onde fiz várias coisas, inclusive, a
Enciclopédia Delta Universal, que eu coordenei toda. Depois, voltei a
trabalhar, fazendo resenhas no Globo. Nunca mais eu fiz jornalismo mesmo.
Tive uma recaída este ano, mas que durou pouco: a revista Pensar Brasil,
que vocês nem conheceram, não é? Me dá uma dó...saíram quatro números. O
pessoal lançou sem planejamento econômico e eu dizia: “Essa revista não
vai durar...”, e a revista que me fez ficar toda animada pra voltar,
acabou.
BN - Fale um pouco sobre O Sol.
A.A.C.
- O Sol é o seguinte: Reynaldo Jardim é uma das pessoas mais criadoras que
eu conheço. E ele tinha inventado, para o Jornal dos Sports, uma coisa
chamada Cultura JS. Um caderno de cultura, dentro do Jornal dos Sports. De
vez em quando, ele me pedia umas matérias. Depois, ele inventou o Cartoon
JS. Foi o maior sucesso. Durou pouco porque era uma coisa cara, com todos
os cartunistas do Brasil, era uma festa! Aí, ele ficou íntimo do pessoal
do Jornal dos Sports e convenceu-os do seguinte: fazer um jornal-escola,
que futuramente seria uma escola de jornalismo. O pessoal achou
maravilhoso, daria uma grande visibilidade ao Jornal dos Sports e o José
Guilherme Padilha, que dirigia o jornal, topou a idéia. Reynaldo
imediatamente me chamou e fomos escolhendo o pessoal: Zuenir seria o chefe
de redação ideal. Ele topou. Fizemos um concurso com anúncio no jornal,
para jovens universitários. Apareceu um monte de gente. Na prova oral, o
Reynaldo chegava e perguntava pros candidatos: “O que você acha de
Mondrian?” Quando a pessoa respondia “Heim?!?!”, ele mandava embora na
hora! Se dissese “...ah, eu gosto..” ou “...bem, eu não entendo muito...”,
aí ele ia conversar. Assim ele escolheu cinco para a equipe de diagramação
e os repórteres, eu escolhi todos. Aí, dentro do Jornal dos Sports,
invadimos lá um espaço. O jornal foi precedido de um curso, onde todos os
editores tinham que dar aula. O jornal então, saiu encartado no Jornal dos
Sports diariamente, até ganhar autonomia e começar a sair sozinho. A
partir daí, como era um jornal de oposição, a empresa começou a sofrer
pressão. Era também um jornal caro, pois todos ganhavam, inclusive os
estudantes. O Zuenir saiu, depois de dar o curso e de fazer um trabalho
fundamental e eu fiquei como chefe de redação O Sol foi a melhor coisa que
eu fiz na vida!
BN - Como você vê a imprensa hoje?
A.A.C.
- A imprensa está tão ruim quanto o país. Uma questão que virou obsessão
minha é a língua. Eu não agüento. Até eu estou falando errado. Por quê?
Porque a contaminação é geral! A língua portuguesa está destruída. Outro
dia eu li no Globo
uma matéria com o seguinte título: “Jovens protestam a favor da prisão de
Maluf”. Estava lá, no título e na matéria! Ninguém mais sabe o que
significam as palavras. E isso quer dizer que os conceitos não têm mais
importância. Tudo é espetáculo, eu acho que a imprensa tá nessa.
A imprensa tem que ser a vigilância, tem que dar ao povo a informação.
Nunca em lugar nenhum do mundo a imprensa foi isso. Sempre foi negócio,
com exceção da imprensa panfletária dos primeiros tempos e de alguns
jornais, como O Sol. No primeiro número do Pasquim, o Millôr fez um
editorial em que ele dizia: “Não sei se esse jornal vai durar. Se durar, é
porque já se comprometeu.”
BN - Quais são seus planos para o futuro?
A.A. C.
- Eu quero sossego. Vou morar na roça. Estou construindo uma casinha em
Araruama e, apesar de a Lagoa de Araruama estar extremamente poluída,
ainda sonho em poder voltar a tomar banho lá.
*Estudante de jornalismo da FACHA, Rio de Janeiro
|