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poesia
O sopro que faltava
Em Sete dias, a poeta Marta Helena Cocco comenta a
"insignificância" da poesia nos dias de hoje justamente para celebrar sua
importância e verdade
Leia um poema da autora
Por
André de Leones*
O livro de
poemas Sete Dias (ed. Galo Branco), de Marta Helena Cocco, é,
claro, dividido em sete partes. Em todas elas, a autora rejeita ações
cotidianas e banais, esvaziadas (assistir à TV, ler o best-seller do
momento), para afirmar e reafirmar a importância da palavra, da poesia, da
construção poética.
Na primeira parte, Exercício, ela capta a maneira como o fazer
poético é visto e recebido por aí. Seus versos, conscientes de si, de seu
próprio "corpo em correnteza", comentam o eco muitas vezes nulo da
poesia nos dias de hoje. A poeta, com a sensação de con-versar
sozinha, reconhece que poesia “quase não tem valor / seu papel não é
cédula”. Ter consciência disso, do gueto no qual a poesia foi colocada,
é imprescindível para que se rejeite essa condição: “Não vou me prender /
às regras de um paraíso excludente. / Quero a luxúria da linguagem”.
A parte seguinte é Gozo. Nela, a autora confessa que gosta “mesmo
/ é da letra escrita / no pé do ouvido / meio sem vergonha / sem testemunhas
/ e flashes fotográficos”. Com isso, ela se entrega ao componente
luxuriante da criação literária, que é o de, por meio da expressão de uma
subjetividade, buscar e experimentar o outro, a alteridade. O poeta, ao
colocar seus versos no papel e apresentá-los ao mundo, abre um diálogo
sensorial com o outro, e esse diálogo, na medida em que catalisado por uma
troca de experiências, idéias e sentimentos, de imaginações, não poderia ser
mais sensual.
Em seguida, nos poemas da terceira parte, O Preço, a autora investiga
a perda (do amor, da poesia), quando mesmo “navegar é difícil” e está
“tudo off”. Denuncia os “mercadores de linguagens” e abre, a
contragosto, espaço para um “intervalo comercial” onde a primeira ordem já
diz tudo: “Ama depressa”. Mais à frente, afirma saber que morrerá de
suas palavras, “mas sinceramente / ainda não estou / preparado".
Em Juros sobre a dívida, quarto seguimento do livro, a poeta
prossegue atestando a suposta e apregoada inutilidade da poesia e, por
decorrência, da própria humanidade, tida como “uma espécie mal catalogada
/ e proibida de fraternidade”. O homem, esse “ser não ser”, não
teria mais alma para a poesia, uma vez que “os ouvidos adestrados / não
ouvem outras freqüências” (isso já em um poema da quinta parte,
Imobilidade). Ela entende que falta “ainda um sopro / nessas
criaturas grafadas”.
Tal sopro, é claro, seria a poesia e um entendimento maior, mais profundo,
do que ela seja. Depois de uma Pausa para a necessária correspondência,
onde se remete aos grandes poetas (Drummond, João Cabral, Bandeira), a
autora avança para a derradeira parte do livro, Suspensão, na qual
parece, finalmente, encontrar o melhor terreno para a poesia: o silêncio.
Ela escreve: “Fique o poema / em paz. / Em silêncio / ele ouve a si mesmo
(...)”.
A poesia, portanto, é uma maneira, talvez a melhor, de ouvir-se e,
conseqüentemente, de ouvir os outros. É, como a própria autora alerta no
último poema do livro, uma conta que não fecha. Coisa que, é bom que se
diga, é natural, posto que tão condizente com o ser humano, com a condição
humana. Sete Dias, com sua estrutura belissimamente pensada e
executada, vem para nos mostrar que a poesia existe, afinal, para significar
o homem.
A AUTORA: Marta Helena Cocco, natural de Julio de Castilhos - RS, fes
mestrado em Estudos da Linguagem e é professora de Literaturas da Língua
Portuguesa da Universidade do Estado de Mato Grosso. É autora de A
literatura brasileira produzida em Mato Grosso - regionalismo e identidades
e dos livros de poemas Divisas, Partido e Meios
(vencedor do Prêmio Mato Grosso Ação Cultural).
*Escritor, autor de
Hoje está um dia morto.
Foi um dos
selecionado do projeto
Amores Expressos.
Originalmente publicado no blog
Caderno de Resenhas.
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