| |
literatura
A humanidade possível
Em seu romance de estréia, Cecília Giannetti desbanaliza nosso olhar
sobre a violência
Por
André de Leones*
Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi (Agir), romance
de estréia de Cecília Giannetti, é, num certo sentido, sobre alguém que
readquire a capacidade de se chocar. A protagonista é uma repórter de
televisão que, ao gravar uma matéria em uma favela, é exposta à mais extrema
violência. Traumatizada, ela se perde e se reencontra em delírios e
alucinações relacionados ao que presenciou.
O romance trata, sob esse aspecto, de um processo de re-humanização. Como
não poderia deixar de ser, é um processo lento e dolorosíssimo. Ao passar um
bom tempo convivendo com os fantasmas egressos da cena brutal que
testemunhou, a repórter deixa de enxergar a violência como algo banal. Na
verdade, é como se ela conseguisse enxergar outra vez, ou pela primeira vez,
o mundo ao redor.
Trata-se de um itinerário turbulento, feito às cegas e de forma dolorosa.
Uma realidade traumática é uma realidade que não consegue dizer o próprio
nome. Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi é todo ele uma
tentativa bem-sucedida de nomear coisas que muitos de nós conhecemos e
presenciamos todos os dias, mas que somos muitas vezes incapazes de entender
com um mínimo de verticalidade. À sua maneira, o romance diz respeito a
coisas muito concretas e desgraçadamente próximas de todos nós.
A estrutura fragmentada condiz com a fratura psicológica exibida pela
protagonista. Como se enredado pela busca cega da personagem por uma
humanidade possível, o livro se debate violentamente, machucando-se ainda
mais. É um romance em carne viva, por assim dizer. Sua crueza é de uma
natureza bastante diversa do naturalismo que geralmente reina em narrativas
que abordam o nosso caos social.
A autora opta por um discurso quebradiço, estilhaçado, longe de uma
reconstituição “realista” da brutalidade circundante. A “realidade” está nos
jornais e, exceto quando nos diz respeito diretamente, nos é estranha,
distanciada, quase fictícia. Para restituir significado e relevância a
questões urgentes, torna-se necessário um romance como esse, radical,
espiralado, mesmo tresloucado. Com isso, sublinha-se, ademais, a importância
da criação literária como forma de significar o mundo de uma maneira única,
profunda, essencial.
Assim, e não por acaso, Giannetti faz com que sua personagem avance na
contramão de toda e qualquer banalização da violência. Conseqüentemente, o
livro escapa aos clichês e construções rotineiras. Um de seus temas, a
violência, pode ser tragicamente rotineiro, ao passo que a maneira como esse
tema é abordado, felizmente, não o é.
*Escritor, autor de
Hoje está um dia morto.
Foi um dos
selecionado do projeto
Amores Expressos.
E-mail:
alleones@gmail.com
 |
|