Edição 108 - Aracaju, 16 de dezembro de 2007 a 20 de janeiro de 2008
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  literatura
A humanidade possível
Em seu romance de estréia, Cecília Giannetti desbanaliza nosso olhar sobre a violência

Por André de Leones* 

Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi (Agir), romance de estréia de Cecília Giannetti, é, num certo sentido, sobre alguém que readquire a capacidade de se chocar. A protagonista é uma repórter de televisão que, ao gravar uma matéria em uma favela, é exposta à mais extrema violência. Traumatizada, ela se perde e se reencontra em delírios e alucinações relacionados ao que presenciou.

O romance trata, sob esse aspecto, de um processo de re-humanização. Como não poderia deixar de ser, é um processo lento e dolorosíssimo. Ao passar um bom tempo convivendo com os fantasmas egressos da cena brutal que testemunhou, a repórter deixa de enxergar a violência como algo banal. Na verdade, é como se ela conseguisse enxergar outra vez, ou pela primeira vez, o mundo ao redor.

Trata-se de um itinerário turbulento, feito às cegas e de forma dolorosa. Uma realidade traumática é uma realidade que não consegue dizer o próprio nome. Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi é todo ele uma tentativa bem-sucedida de nomear coisas que muitos de nós conhecemos e presenciamos todos os dias, mas que somos muitas vezes incapazes de entender com um mínimo de verticalidade. À sua maneira, o romance diz respeito a coisas muito concretas e desgraçadamente próximas de todos nós.

A estrutura fragmentada condiz com a fratura psicológica exibida pela protagonista. Como se enredado pela busca cega da personagem por uma humanidade possível, o livro se debate violentamente, machucando-se ainda mais. É um romance em carne viva, por assim dizer. Sua crueza é de uma natureza bastante diversa do naturalismo que geralmente reina em narrativas que abordam o nosso caos social.

A autora opta por um discurso quebradiço, estilhaçado, longe de uma reconstituição “realista” da brutalidade circundante. A “realidade” está nos jornais e, exceto quando nos diz respeito diretamente, nos é estranha, distanciada, quase fictícia. Para restituir significado e relevância a questões urgentes, torna-se necessário um romance como esse, radical, espiralado, mesmo tresloucado. Com isso, sublinha-se, ademais, a importância da criação literária como forma de significar o mundo de uma maneira única, profunda, essencial.

Assim, e não por acaso, Giannetti faz com que sua personagem avance na contramão de toda e qualquer banalização da violência. Conseqüentemente, o livro escapa aos clichês e construções rotineiras. Um de seus temas, a violência, pode ser tragicamente rotineiro, ao passo que a maneira como esse tema é abordado, felizmente, não o é.

*Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionado do projeto Amores Expressos. E-mail: alleones@gmail.com