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literatura Sob as peles de Günter Autobiografia revela face oculta do escritor alemão Por André de Leones*
Todo mundo se lembra da polêmica envolvendo Nas peles da cebola (Record, R$ 60,00), as memórias de Günter Grass. Autor de grandes livros (O tambor, A ratazana, Passo de caranguejo), Prêmio Nobel de Literatura, Grass sempre foi um crítico feroz dos alemães e de sua relação ambígua com o passado nazista e um social-democrata de carteirinha. Era visto como uma espécie de reserva moral e/ou consciência crítica da Alemanha, o homem que sempre exigia que se expusessem todas as feridas deixadas pelo desastre hitlerista. Nas Peles da Cebola causou polêmica porque, nele, Grass revela ter integrado a Waffen-SS, tropa de elite do exército nazista. Em poucas palavras: ele mentiu. Até então, o que se sabia é que ele fora um mero soldado nas baterias antiaéreas. O que surge nessas memórias é um homem amargurado com o próprio passado, mas não só disposto como entregue a um acerto de contas. Assim, toda a honestidade para consigo mesmo de que ele prescindiu durante boa parte da vida irrompe no livro, muitas vezes de forma violenta. A exemplo do que já fizera em O tambor, Grass parodia a estrutura do romance de formação e constrói algo bem maior do que uma viagem subjetiva pelas feridas abertas da Alemanha e de si mesmo. Literariamente, Nas peles da cebola não fica devendo nada aos melhores momentos da prosa e da poesia do autor. Em sua passagem pela Waffen-SS, Grass não deu um tiro sequer e escapou milagrosamente da brutalíssima investida soviética, sobrevivendo a vários massacres. Lances como o que ele escapa da morte por não saber andar de bicicleta tornam-se ainda mais extraordinários porque reais. De fato, alguns dos melhores momentos do livro dizem respeito à passagem do autor pelas fileiras nazistas e, após o fim da guerra, ao seu período como prisioneiro dos norte-americanos. Dessas passagens, surgem dois personagens extraordinários: o soldado em treinamento que se recusava a segurar um fuzil, sempre dizendo “Nós não fazemos uma coisa dessas” e sofrendo resignado todas as conseqüências dessa postura, e o cozinheiro que lecionava culinária para os prisioneiros de guerra utilizando, para tanto, apenas gestos e a imaginação, uma vez que não tinham ingredientes, alimentos, pratos ou sequer talheres. É graças a momentos assim, genialmente narrados, que Nas peles da cebola é mais do que uma mera autobiografia. Mais: não há, em todo o livro, espaço para condescendência, autopiedade ou simplificações. E, na parte final, ao narrar o início efetivo de sua trajetória como escritor, Günter Grass ainda nos oferece uma visão incrivelmente lúcida e desapaixonada de si e de seu ofício. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. E-mail: alleones@gmail.com |