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cinema O desencanto do mestre Jean-Luc Godard e a nouvelle vague Por André de Leones*
O Desprezo (Le Mépris) é geralmente tido como o filme "mais acessível" de Jean-Luc Godard. O que não quer dizer muita coisa, afinal. Em O Desprezo, Godard filma a morte do cinema. Michel Piccoli é um escritor contratado por Jack Palance, produtor americano na mais completa acepção da expressão "produtor americano", para reescrever algumas cenas de uma adaptação d'A Odisséia que ninguém menos que Fritz Lang está dirigindo. A mulher de Piccoli, Brigitte Bardot, inexoravelmente nua (eu quase escrevi “visceralmente nua”), passa a ser assediada pelo produtor, com quem acaba se envolvendo. A relação dela com Piccoli, inclusive, desanda logo de saída, quando ele aceita trabalhar para Palance. Bardot, o que seria? A consciência de Piccoli, que o rejeita quando ele resolve "se vender"? Algo assim, creio, embora não seja nada assim tão simples (ou simplista). Porque, de uma forma ou de outra, ela se entrega ao produtor e, curiosa e ironicamente, morre com ele. Sim, isso tem um nome, e o nome disso é ironia. No mais, é cinema puro, puríssimo, exemplar de uma fase da carreira de Godard em que ele ainda não realizava ensaios filosóficos filmados (nada contra). Não revi O Desprezo para escrever isto, mas eu o tenho ainda muito vivo na minha cabeça. Tudo dele: travellings extasiantes, que visivelmente inspiraram Bertolucci e dos quais instantaneamente me lembrei ao rever, semanas atrás, a cena de abertura de Marcas da Violência/A History of Violence, a bela trilha de Georges Delerue, usada de forma muito inteligente, Fritz Lang dirigindo seu Odisseu no terraço da casa de praia do aterrador produtor vivido por Jack Palance, a nudez de Bardot (que é a própria consciência de Piccoli, etc.). É um filme que só faz crescer, do qual estou sempre me lembrando, viajando outra vez com sua câmera flutuante, sua suspensão poética da realidade, e refletindo acerca das questões autorais por ele colocadas. É toda uma ironia, claro, bastante godardiana, na medida em que temos Hollywood, personificada por Palance, comprando a verve de um dos maiores poetas da sétima arte (Lang) justamente para usá-la numa adaptação possivelmente redutora e imbecil d'A Odisséia de Homero. Em todos os sentidos, e mesmo com todo o amargor que lhe é intrínseco, O Desprezo é um filme de amor pelo cinema. Na verdade, é como se ele carregasse dentro de si todo o cinema, ou muitas possibilidades de cinema. Godard está traçando os limites de uma arte, ou da sua arte, ao mesmo tempo em que parece dizer que, num mundo perfeito, tudo seria permitido dentro daquela arte. Mas, como o personagem do produtor está ali para deixar muito claro, nem tudo é permitido. Logo, O Desprezo filma a morte de um certo cinema, e não acho exagero enxergar nele um réquiem pela então recém-falecida Nouvelle Vague. A partir dele, Godard parece ter abraçado com incisividade ainda maior a desilusão e o radicalismo. Filme-síntese de muitos cinemas, O Desprezo assinala o fim de um sonho e também as possibilidades desse sonho sempre recomeçar sob as batutas de inúmeros jovens cineastas "rebeldes" ao redor do mundo. Nele, Godard parece entender as restrições de suas escolhas estéticas e do tipo de cinema que lhe apetece ver e fazer, ao mesmo tempo em que, quixotescamente, dá possibilidade a toda e qualquer impossibilidade. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. E-mail: alleones@gmail.com |