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literatura O destino comum Philip Roth e a visão da morte
Por
André de Leones*
Mesmo quando não chega à perfeição de romances como O teatro de Sabbath e Pastoral Americana, Philip Roth ainda nos reserva exemplos de inegável verdade literária. Homem comum, novela em que descreve a vida e, conseqüentemente, a morte de uma pessoa ordinária, abraça a (e é abraçado pela) mortalidade intrínseca a todos nós. Na orelha do livro, lemos que o título original do mesmo, Everyman, “é o nome de uma peça alegórica do século XV, um clássico da dramaturgia inglesa, cujo tema é a convocação dos vivos para a morte”. O livro começa com o enterro do protagonista, um publicitário judeu. Roth narra a vida de seu personagem a partir de uma espécie de crônica médica ou dos problemas de saúde pelos quais ele passou desde a mais tenra idade. É como se a história fosse contada do ponto de vista do corpo que, no decorrer daquela vida, falha aqui e ali até a falência completa e inescapável. Homem comum, portanto, funciona como “um registro da realidade da morte que avassala tudo”. A passagem do tempo, vista desse ângulo, jamais poderia ser linear. Assim, a estrutura do livro é, de certa forma, espiralada, indo e voltando no tempo. Primeiro, o funeral. O irmão do morto relembra, em um longo e emocionado discurso, a infância de ambos. Depois, acompanhamos o protagonista, ainda criança, passando por sua primeira cirurgia, para se ver curado de uma hérnia. E assim o livro se desenrola, de cirurgia em cirurgia, de colapso em colapso, até o colapso final. A narrativa foge de qualquer desdouro melodramático. O forte de Homem comum está no modo cru e desesperançado como nos leva a encarar a morte de uma pessoa qualquer. De fato, em seus erros e desilusões, em sua solidão inexorável, náufrago de três casamentos, publicitário de sucesso e pintor fracassado, o protagonista não é muito diferente de qualquer outra pessoa, coisa que, aliás, já entrega o título do livro. Não por acaso, e salvo engano, o protagonista e o coveiro que aparece já no final a professar uma espécie de lição prática são os únicos personagens em toda a novela cujos nomes não são mencionados. Todos os outros têm nomes, as ex-mulheres, os filhos cheios de mágoa, a filha amorosa, o irmão bondoso, os colegas de trabalho, mas não o protagonista e o coveiro. Ao negar um nome para o seu personagem principal, Roth parece justamente dizer que a morte nos nivela a todos por baixo; afinal, que diferença faria um nome em tais e tais circunstâncias? O fato de o coveiro também não ter um nome constitui uma dessas ironias acachapantes tão freqüentes nos livros do autor. A certa altura, lemos: “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”. Talvez não haja, em toda a novela, palavras que sintetizem melhor a sua força e, por assim dizer, o seu “espírito”. Ao constatarmos que a idade e a origem geográfica do personagem principal são idênticas às do autor, não seria exagero concluir que Homem comum também é, num certo sentido, sobre a morte de Philip Roth. Por tudo isso, além de ser uma pequena jóia literária, o livro é ainda dotado daquela honestidade dilacerante que separa os grandes autores dos medíocres. Como diria o pessoal da velha guarda, Roth “se oferece em holocausto” para que sua narrativa seja ainda mais dilacerante e incisiva em sua verdade essencial. Ademais, Homem comum nos mostra que ninguém aprende a morrer dignamente, até porque não existe nada sequer remotamente parecido com uma “morte digna”. Quando chega a nossa hora, a primeira coisa que deixamos para trás são os nossos nomes. Publicado originalmente no jornal O popular. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. E-mail: alleones@gmail.com |