|
|
|
|
|
literatura Quando Paris acaba Enrique Vila-Matas e o ofício de escritor Por André de Leones*
Há livros que, em tese, são escritos para todo tipo de leitor, e há livros que são escritos para (ou melhor apreciados por) outros escritores. Paris não tem fim é um desses livros de escritores, para escritores e sobre escritores. Isto, entretanto, não o torna hermético ou menos envolvente, divertido e espirituoso. Afinal de contas, um romance (trata-se mesmo de um romance?) que começa com um concurso de sósias do escritor Ernest Hemingway pode ser qualquer coisa, menos chato, pedante ou “difícil”. O protagonista e narrador de Paris não tem fim é um escritor espanhol que, em uma conferência de três dias sobre “o tema geral da ironia”, relembra os dias de sua juventude que passou em Paris, alugando uma água-furtada de ninguém menos que Marguerite Duras, labutando na escrita de seu primeiro romance e driblando o pai, que só queria que ele desistisse dessa “bobagem” de se tornar escritor, retornasse a Barcelona e terminasse o curso de Direito. Vila-Matas é, conforme já explicitado acima, um escritor de, para e sobre escritores. Não por acaso, seus romances são repletos de citações que, um pouco à maneira de Borges, nem sempre são confiáveis. Aliás, confundi-lo com o narrador de Paris não tem fim é muito fácil: o primeiro romance de Vila-Matas, a exemplo da estréia literária de seu personagem, também se intitula A assassina ilustrada. E é assim, brincando com a própria biografia e com a biografia de inúmeros outros escritores, que o autor espanhol constrói aquilo que, na orelha do volume, Cassiano Elek Machado chama, com muita propriedade, de “romance de deformação”. Tanto quanto a de Marguerite Duras, a figura de Ernest Hemingway permeia boa parte das páginas de Paris não tem fim. Usando, às vezes, o clássico Paris é uma festa como contraponto, Vila-Matas narra, com toda a ironia que lhe é própria, os anos de “deformação” de um jovem escritor. Se Hemingway escreveu que, em Paris, fora “muito pobre e muito feliz”, Vila-Matas (ou, melhor dizendo, o narrador-protagonista) entrega logo de cara que, em Paris, foi “muito pobre e muito infeliz”. Em uma das mais agudas passagens do livro, lemos sobre o desespero do autor de O velho e o mar em seus anos de esterilidade criativa e sobre como isso acabou por levá-lo ao suicídio. Assim, alternando passagens extremamente engraçadas com trechos viscosos de um desespero lancinante, Vila-Matas esmiúça o parimento de um autor, talvez ele mesmo, talvez não, e constrói um romance poderoso. Como não poderia deixar de ser, o próprio desespero é ridicularizado aqui e ali. Em um dos melhores capítulos do romance (se é que podemos chamá-lo assim), diz o narrador: “Eu achava muito elegante viver no desespero. Acreditei nisso ao longo desses dois anos que passei em Paris, e na realidade por quase toda a minha vida, vivi nesse erro até agosto deste ano, que foi quando cambaleou e caiu definitivamente essa íntima crença na elegância do desespero. Quando ela caiu, foram caindo pouco depois, como um castelo de cartas, outras crenças menos pitorescas. Como, por exemplo, a de pensar que a magreza é essencial para ser intelectual e que os gordos – à medida que eu engordava, com grande complexo de culpa, ia pensando cada vez mais – não são poéticos nem podem ser inteligentes” (páginas 71-72). Ciente de que “temos toda a eternidade para nos desesperar”, o narrador de Paris não tem fim acaba proferindo, por meio de sua conferência sobre a ironia, um tremendo elogio do ofício de escritor. Por se tratar de um ofício torto por natureza, é natural que tal elogio apareça assim, na forma de um livro difícil, talvez impossível, de ser rotulado. Seja como for, ao final nos deparamos com o “conselho criminoso” (e, por isso mesmo, glorioso) de Marguerite Duras: “Você escreva, não faça outra coisa na vida”. Amém.
Publicado originalmente no jornal O popular. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. Blog: http://blog.andredeleones.com E-mail: alleones@gmail.com |