Edição 114 - Aracaju, 08 de junho a 06 de julho  de 2008
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  literatura
Sonhos intermináveis
Contos de um grande escritor

Por André de Leones*

Parafraseando o próprio Roberto Bolaño, pode-se dizer que o volume de contos Putas Assassinas é um típico livro desse autor, com suas narrativas muitas vezes elusivas que parecem saídas de um sonho interminável. Nesse sentido, pelo tamanho e pela acessibilidade do volume, o mesmo serve maravilhosamente bem como introdução à obra do autor do cultuado Os Detetives Selvagens e do caudaloso 2666.

As histórias presentes no livro são às vezes fluidas e misteriosas como um bom filme de David Lynch. Elas se movimentam em atmosferas estranhas, enevoadas, em que há quase sempre a iminência de algo brutal, interna e/ou externamente aos personagens.

Além disso, o autor brinca o tempo todo com gêneros e referências literárias, construindo textos que ora lembram relatos de viagem, ora reminiscências juvenis, ora viagens oníricas e assim por diante.

No que diz respeito às referências, vale citar o conto Dias de 1978, em que o protagonista descreve um filme russo (Andrei Rublev, de Tarkovsky) para um conterrâneo suicida, e a parte final de Últimos entardeceres na terra, onde o tom delirante de Malcolm Lowry de À Sombra do Vulcão é magnificamente aludido.

Todos os temas explorados por Bolaño em suas narrativas, curtas ou longas, marcam presença nos contos de Putas Assassinas. Estão ali, por exemplo, os escritores desterrados ou exilados, vítimas dos regimes ditatoriais que desgraçaram a América Latina no decorrer do século XX.

Nesse sentido, e retornando à paráfrase constante do início desta resenha, pode-se dizer que Bolaño escreveu um único e imenso livro no decorrer de sua vida, como o sonho interminável citado antes, interrompido apenas pela sua morte (ou não).

Ler contos como Últimos entardeceres na terra (o melhor do livro) e Fotos (protagonizado pelo mesmo Arturo Belano de Os Detetives Selvagens) tendo isso em mente, como partes de uma obra maior e orgânica, partes de um mesmo sonho interminável, torna tudo muito mais interessante e revelador, e instigante também.

Assim, quem ainda não conhece o trabalho de Bolaño tem em Putas Assassinas um formidável prato de entrada para a obra do autor que, segundo Enrique Vila-Matas, salvou a literatura latino-americana do beco sem saída do realismo mágico.

Por meio desses contos extraordinários, o leitor não iniciado poderá se familiarizar com o universo do escritor chileno. Para os conhecedores da obra de Roberto Bolaño, certamente será um deleite reencontrar-se com o tom que ele imprimia às histórias que narrava, alternando a melancolia do exílio com o humor negro mais selvagem e desesperado.

Publicado originalmente no jornal O popular.

*Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. Blog: http://blog.andredeleones.com E-mail: alleones@gmail.com