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livros O calvário de Zuckerman Philip Roth e seu compromisso com a literatura Por André de Leones*
Nathan Zuckerman, alter-ego e narrador de vários romances de Philip Roth, surge em Fantasma Sai de Cena como um velho recluso cuja vida se resume ao trabalho literário. Vivendo isolado em uma fazenda na Nova Inglaterra, apartou-se do resto do mundo e, conforme diz já na primeira página, deixou de “habitar não apenas o mundo maior mas também o momento presente”. Quando vai a Nova York para um procedimento médico, contudo, Zuckerman se vê inadvertidamente atirado (ou se atira) em um turbilhão de acontecimentos e emoções com os quais não queria mais lidar. Roth traz de volta personagens de um outro romance seu, de 1979, intitulado Diário de uma ilusão (encontrável em sebos em uma edição do Círculo do Livro, de capa dura e horrível, mas tradução razoável). Ali, o então jovem Nathan Zuckerman visitava um de seus ídolos literários, E. I. Lonoff, e, dentre outras coisas, fascinava-se com a irresistível musa de Lonoff, Amy Bellette. Quando, em Fantasma Sai de Cena, Zuckerman reencontra Amy em Nova York, vê-se diante de uma pessoa devastada por um tumor e pela possibilidade de um jovem biógrafo oportunista destruir a memória de Lonoff ao revelar um suposto “grande segredo” dele. Há outros personagens e conflitos, evidentemente, mas o cerne do livro parece estar justamente no compromisso firmado por Roth com a literatura. Com a força narrativa e a eloqüência que lhe são peculiares, o autor norte-americano acompanha o calvário de Zuckerman para defender o que lhe é mais caro. Ao redor, vislumbramos uma América paranóica em função dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, com pessoas dispostas a deixar Nova York por medo de sofrer novos ataques. De quebra, Roth/Zuckerman insere no livro, de maneira brilhante, a narração da inacreditável (ou não tão inacreditável assim) noite em que George W. Bush foi reeleito presidente, em 2004. Nesta, que é uma das melhores passagens do livro, o autor descreve como, aos poucos, o desespero e o horror toma conta de dois de seus personagens, até ali confiantes na eleição de John Kerry e conseqüente derrota de Bush naquelas eleições. Um trecho (páginas 86-87): Os dois telefones celulares do casal começaram a tocar ao mesmo tempo – eram os amigos, cruelmente decepcionados, muitos deles chorando também. A primeira vez, como dissera Jamie, parecera um acaso, mas esta agora era a segunda derrota arrasadora do idealismo deles, era o momento de assimilar a dura realidade de que, por mais que o desejassem, seria impossível fazer o país voltar a ser a fortaleza rooseveltiana que fora cerca de quarenta anos antes deles nascerem. Embora fossem inteligentes, articulados e cheios de savoir-faire, e embora Jamie conhecesse a América dos republicanos ricos e o tipo de ignorância gerada no Texas, os dois não faziam idéia do que era a grande massa da população americana, e jamais tinham visto com tanta clareza que não eram pessoas instruídas como eles que determinariam o destino do país, e sim dezenas de milhões de cidadãos muito diferentes deles, pessoas que eles não conheciam, as quais deram a Bush uma segunda oportunidade, como dissera Billy, de “destruir uma coisa maravilhosa”. O que impressiona, nos romances de Roth, além da já citada força narrativa, é a visão acurada do estado de coisas nos EUA. Em A Marca Humana, por exemplo, temos talvez o melhor livro sobre a onda puritana que varreu os EUA após os escândalos sexuais de Bill Clinton. Fantasma Sai de Cena, por sua vez, descreve exemplarmente o que representou a reeleição de Bush sem, contudo, tirar seu foco principal da dolorosa odisséia de Nathan Zuckerman em defesa da única coisa que lhe resta: a própria literatura. Originalmente publicado no jornal O Popular de Goiânia. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. Blog: http://blog.andredeleones.com E-mail: alleones@gmail.com |