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livros Personagens trocam quichute por conga Luiz Ruffato lança quarto volume do projeto "Inferno provisório" Por André de Leones*
Inferno provisório é um romance-em-progresso dividido em cinco partes de autoria do mineiro Luiz Ruffato. Há poucos dias, chegou às livrarias do país o quarto volume do projeto, intitulado O livro das impossibilidades. Nele, Ruffato dá prosseguimento à narração de uma série de tragédias particulares, privadas, que acabam por dar conta de uma tragédia maior – a do nosso próprio país. Imiscuindo a História em suas histórias, o autor quebra ao meio a idéia que, décadas atrás, fizeram do Brasil: a idéia de um país progressista, em constante desenvolvimento, industrializado, inserido em um suposto moto contínuo mundial. A essa suposta "maquinaria", Ruffato contrapõe pessoas em geral alquebradas, um tanto perdidas e muitas vezes sem perspectivas. E que pessoas são essas? Gente pobre, do interior de Minas Gerais, que se lança aos grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida. Não se trata, portanto, de um romance sobre a formação do proletariado brasileiro. Antes, é um romance sobre a deformação do proletariado brasileiro. Desde o primeiro volume (Mamma, son tanto felice), passando pelos seguintes (O mundo inimigo e Vista parcial da noite) e chegando a O livro das impossibilidades, o que as histórias narradas evidenciam é a desagregação social e humana sofrida por uma expressiva parcela dos brasileiros no decorrer das últimas décadas. Por meio da prosa de Ruffato, o que nós vislumbramos é o que se poderia chamar de um autêntico submundo. Os personagens que se acotovelam em Rodeiro, no Beco do Zé Pinto ou nas sombras das metrópoles não estão sequer à margem de qualquer projeto civilizatório, mas sob, esmagados. De resto, pelo menos no que diz respeito ao Brasil, não há mesmo qualquer esboço de um projeto civilizatório minimamente racional. O livro das impossibilidades traz três histórias pungentes sobre pessoas que, em um determinado momento de suas vidas, por um motivo ou outro, questionam suas escolhas. São personagens socados em uma engrenagem devastadora, que, a certa altura de suas existências, esmagados pela "falta de perspectivas" de Cataguases e região, optaram por ir embora. Óbvio que essa "fuga do inferno" jamais os leva ao paraíso ou a nada sequer remotamente parecido com isso. Como podemos depreender da primeira história constante do livro (Era uma vez), ao trocar Cataguases por São Paulo, por exemplo, troca-se, no máximo, o quichute pela conga. Os questionamentos perpetrados por alguns dos personagens tampouco trazem respostas. Em vez disso, só trazem mais angústia e inadequação. Tome-se como exemplo o personagem Jacinto, de "Carta a uma jovem senhora", que teria ido embora de Cataguases e se engajado na Marinha, "ganhando o mundo". Quando Aílton, um seu amigo de infância, reencontra-o em Santos, percebe, com raiva, algo de que talvez já desconfiasse: não há saída ou fuga possível. Estando aqui ou ali, em Cataguases ou no Rio de Janeiro ou em São Paulo, todos permanecem desgraçadamente presos àquela tal engrenagem sócio-econômica que não os permite vir à superfície por um segundo sequer. Estão presos naquele submundo. O melhor de O livro das impossibilidades está em sua terceira e derradeira narrativa, "Zezé & Dinim (sombras do triunfo de ontem)". Nela, como é de seu feitio, Ruffato lança mão de um brilhante recurso gráfico e narrativo para nos contar, paralelamente, sobre dois personagens e suas respectivas vidas. Com isso, e com todos os outros recursos já explorados nos volumes anteriores de Inferno provisório, o autor constrói um romance riquíssimo e extremamente funcional. Cada história conta com uma estrutura que lhe é condizente, que lhe permite desenvolver todas as suas possibilidades. É esse entendimento do fazer literário, a maneira como trata a forma e o conteúdo de seu romance, que impede que Inferno provisório, dados os personagens que o povoam e as histórias que narra, incorra em demagogias, gratuidades ou ideologizações canhestras. Luiz Ruffato faz literatura, coisa que nos deixa ansiosos à espera do quinto e último volume desse painel humano que, erigido sobre particularidades, dá conta da falência generalizada de um país. Originalmente publicado no caderno Idéias/Livros do Jornal do Brasil. *Escritor, autor de Hoje está um dia morto e do volume de contos Paz na terra entre os mortos (no prelo). Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. Blog: http://blog.andredeleones.com E-mail: alleones@gmail.com |